Mamíferos,
de Pierre Mérot (tradução de Eduardo Brandão; Companhia
das Letras; 172 páginas; 34 reais) O título do primeiro capítulo
"Gastrite erosiva" dá o tom cáustico desse romance:
não é para estômagos delicados. O francês Pierre Mérot
escolheu um completo perdedor para herói. Seu personagem identificado
apenas como "o tio" tem 40 anos, é depressivo e alcoólatra,
vive em um apartamento minúsculo, fuma quarenta cigarros por dia e não
tem emprego. Ele é o fracassado da família: em comparação
com ele, todos os parentes parecem brilhantes. Mérot narra o cotidiano
miúdo de seu personagem com uma ironia mordaz. Ao contrário do que
se poderia esperar com um personagem tão miserável, Mamíferos
é um livro divertidíssimo.
Leia
trecho Capítulo
1 Toda
família clássica sente-se na obrigação de ter um fracassado:
uma família sem fracassado não é uma família de verdade,
porque lhe falta um princípio que a conteste e lhe dê legitimidade. O
tio tem quarenta anos e mora num conjugado de trinta metros quadrados: é
como um quarto de criança, só que sem pais. A superfície
ocupada pelo tio é inversamente proporcional à sua idade: quando
ele tinha trinta anos, dispunha de um apartamento de cinqüenta metros quadrados. O
tio deseja que sua mãe vá continuar entre os mortos sua paixão
pelas doenças e sua tagarelice maçante. Não que dê
para tirar assim da alma uma farpa dessas, mas o desaparecimento físico
de uma pessoa proporciona com toda certeza vantagens definitivas. O
tio acumulou tropeços gratificantes, que confortam a família em
suas escolhas justas e nobres: desemprego, divórcio, falta de descendentes,
concubinato com mulheres divorciadas, inserções fracassadas em lares
monoparentais etc. O
tio freqüentou as melhores instituições, mas não produziu
os frutos esperados. Porque, temos de reconhecer, um filho é um investimento.
Antigamente, época abençoada, a mortalidade infantil se encarregava
de eliminar erros crassos. O pai do tio, polemólogo fervoroso, evoca com
certa nostalgia os bons tempos em que as guerras estivais também desempenhavam,
todo ano, seu papel no extermínio do excedente de jovens machos. Com o
progresso da medicina e da higiene, e com a rarefação dos conflitos
nos países ricos, a família passou a sufocar seus galhos podres
entre quatro paredes. Digam o que disserem - adoramos essas frases feitas -, uma
família clássica é, antes de mais nada, uma máquina
de selecionar e, de filho em filho, ela reage de uma maneira mais ou menos bem-sucedida
ao surgimento de novidades. Além
dos seus desacertos sociais, cuja sanção mais irrefutável
é sua escandalosa falta de felicidade e de filhos, o tio reúne em
sua pessoa uma série de taras clássicas: fuma uns quarenta cigarros
por dia, ou seja, admitindo que ele tenha acesso ao sono, dois e meio por hora.
Bebe. É pusilânime. É obcecado sexual. O
tio encarna admiravelmente, portanto, a figura do fracassado, indispensável
ao equilíbrio da família, pelo fato de ter se afastado - ou ter
sido afastado? - de toda função reprodutiva e de oferecer aos seus
a inquietante e oportuna imagem de um descompasso exótico. Ele é
filho e tio, tem sobrinhas e sobrinhos, mas em nenhum caso pode pretender ser
pai - se bem que aos quarenta o desejo de um filho o atormente quase tanto quanto
a uma mulher, mas nessa idade um homem bate num limite, que não é
fisiológico, claro, mas simbólico. Escrevendo
estas linhas, numa manhã de fevereiro, ele beberica em êxtase uma
cerveja, com a sensação antiga e alegre de apesar dos pesares ainda
possuir razão. A cerveja gelada lhe escorre coração abaixo. |