Radical
Chique O Novo Jornalismo,
de Tom Wolfe (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia
das Letras; 248 páginas; 39 reais) O americano Tom Wolfe é
autor de romances como A Fogueira das Vaidades e também um nome
central do chamado "novo jornalismo", caracterizado por reportagens escritas com
muita verve e recursos literários. Essa coletânea recolhe alguns
de seus melhores textos publicados nas décadas de 60 e 70 inclusive
um balanço do impacto do novo jornalismo nas redações americanas.
O ensaio Radical Chique, em especial, já é um clássico:
narra, com ironia desconcertante, uma sofisticada festa da elite de Nova York,
na qual são recebidos militantes radicais do grupo Panteras Negras.Leia
trecho O
jogo das reportagens especiais Duvido
que a maioria dos craques que vou exaltar neste texto tenham entrado para o jornalismo
com a mais remota idéia de criar um "novo" jornalismo, um jornalismo
"superior", ou mesmo uma variedade ligeiramente melhorada. Sei que eles
nunca sonharam que nada que fossem escrever para jornais e revistas provocasse
tamanho torvelinho no mundo literário... causando pânico, tirando
do romance o trono de gênero literário número um, inaugurando
a primeira novidade da literatura americana em meio século... No entanto,
foi isso que aconteceu. Bellow, Barth, Updike - até o melhor da turma,
Philip Roth -, os romancistas todos aí estão agora revirando a história
literária, resistindo, tentando entender a posição que ocupam.
Que droga, Saul, os hunos chegaram...
Deus sabe que eu não tinha
em mente nada de novo, muito menos algo literário, quando arranjei meu
primeiro trabalho em jornal. Eu tinha uma fome voraz e nada natural de outra coisa
inteiramente diferente. Chicago, 1928, uma coisa assim... Repórteres bêbados
na marquise do News fazendo xixi no rio Chicago ao amanhecer... Noites em claro
no saloon ouvindo "Back of the yards" [No fundo dos quintais] cantada
por uma voz de barítono que era apenas uma sapatona cega e solitária
com bolotas de vidro leitoso no lugar dos olhos... Noites em claro num escritório
de detetive - era sempre noite nos meus sonhos de vida jornalística. Repórteres
não trabalhavam durante o dia. Eu queria o filme inteiro, sem deixar nada
de fora...
Tinha plena consciência do que havia me reduzido a esse
estado de pieguice estudantil. Mesmo assim, não tinha como evitar. Acabara
de passar cinco anos na pós-graduação, coisa que pode não
significar nada para gente que não viveu uma experiência dessas e,
entretanto, explica tudo. Não sei se sou capaz de dar sequer uma remota
idéia do que é um curso de pós-graduação. Ninguém
é. Milhões de americanos agora fazem pós-graduação,
mas basta pronunciar a palavra - pós-graduação -, e qual
é a imagem que vem à mente? Imagem nenhuma, nem ao menos um borrão.
Metade das pessoas que conheci na pós-graduação iam escrever
um romance a respeito dela. Eu mesmo pensei nisso. Ninguém jamais escreveu
esse livro, que eu saiba. Todo mundo farejava o ar. Que mórbido! Que venenoso!
Nada era igual àquilo no mundo! Mas esse assunto sempre derrotou a todos.
Sempre resistiu ao desenvolvimento literário. Um romance desses seria um
estudo sobre frustração, mas uma forma de frustração
tão especial, tão inefável, que ninguém consegue descrever.
Tente imaginar a pior parte do pior filme de Antonioni que você já
viu, ou ler O planeta do sr. Sammler de uma sentada, ou mesmo apenas ler esse
livro, ou ficar trancado dentro de uma cabine de trem da Seaboard Railroad, a
25 quilômetros de Gainesville, Flórida, indo em direção
norte pelo Miami-Nova York, sem água, com o aquecedor ficando vermelho
de tão loucamente superaquecido e George McGovern sentado a seu lado, falando
de sua filosofia de governo. É por aí.
De qualquer modo,
no momento em que recebi meu doutorado em estudos americanos, em 1957, eu me encontrava
nas garras tortuosas de uma doença do nosso tempo que leva o sofredor a
sentir uma esmagadora necessidade de fazer parte do "mundo real". Então,
comecei a trabalhar para jornais. Em 1962, depois de uma xícara de café
aqui e ali, cheguei ao New York Herald Tribune... Aqui é o meu lugar!...
Olhava a sala local do Herald Tribune, cem míseros metros ao sul da Times
Square, com uma sensação de perplexa felicidade boêmia...
Ou isto aqui é o mundo real, Tom, ou não existe mundo real... O
lugar parecia o latão de doações da Legião da Boa
Vontade... um monte promíscuo de lixo... Destroços e cansaço
por toda parte... Se alguém como o editor local tinha uma cadeira giratória,
a junta central estava quebrada, de forma que toda vez que ele se levantava, o
assento virava, como se tivesse sido atingido por um golpe lateral. Todo o intestino
do edifício ficava à mostra nas alças e linhas de uma diverticulite
- conduítes elétricos, canos de água, canos de aquecimento
a vapor, dutos de chuva, sistemas de sprinklers, tudo pendurado e gemendo no teto,
nas paredes, nas colunas. A bagunça toda era pintada, de alto a baixo,
com um lodo industrial, Cinza-Chumbo, Verde-Metrô, ou aquele inacreditável
vermelho morto, aquela horrenda têmpera de pigmento e sujeira com que pintam
o chão da sala de máquinas. No teto, havia escaldantes carreiras
de luz fluorescente colorindo a atmosfera de azul-radiativo, queimando manchas
de calvície na coroa dos revisores, que nunca se mexiam. Era uma grande
fábrica de tortas... Um Sonho de Senhorio... Não havia paredes internas.
A hierarquia corporativa não ficava dividida em espaços de escritório.
O editor administrativo trabalhava num espaço tão miserável
e infecto quanto o do mais ínfimo repórter. A maioria dos jornais
era assim. Esse cenário fora instituído décadas antes, por
razões práticas. Mas era mantido vivo por um fato curioso. Nos jornais,
pouquíssimos empregados editoriais lá de baixo - especificamente,
os repórteres - tinham alguma ambição de subir, de se tornar
editores locais, editores administrativos, editores-chefes, ou qualquer outra
coisa. Os editores não sentiam nenhuma ameaça vinda de baixo. Não
precisavam de paredes. Os repórteres não queriam muito... simplesmente
ser estrelas! e tão apagadinhas!
Essa é uma coisa sobre a
qual nunca se escreveu em livros a respeito de jornalismo, nem naquelas memórias
camaradas da década de 20, da sapatona cega, das botas apoiadas nos canos
de latão, dos bares clandestinos onde se bebia muito, dos dias de jornal
e dos filhos do século... precisamente, os pequenos arabescos da competição
por status dentro dos jornais... Por exemplo, na mesa atrás da minha na
sala local do Herald Tribune sentava-se Charles Portis. Portis era o protótipo
do exibicionista lacônico. Um dia, foi convidado a uma espécie de
Encontro com a Imprensa de Malcolm X, e Malcolm X cometeu o erro de fazer um pequeno
sermão aos repórteres antes de eles entrarem, dizendo que não
queria que ninguém o chamasse de "Malcolm", porque ele não
era garçom de vagão-restaurante - seu nome era "Malcolm X".
Quando terminou a entrevista, Malcolm X estava furioso. Estava subindo pelas paredes
de tijolos acústicos. O protótipo de exibicionista lacônico,
Portis, tinha invariável e continuadamente se dirigido a ele como "mr.
X"... "Agora, mr. X, poderia nos falar sobre..." Então,
a mesa de Portis era atrás da minha. Num cubículo no extremo da
sala ficava Jimmy Breslin. De um lado, sentava-se Dick Schaap. Estávamos
todos envolvidos numa forma de competição jornalística que
nunca vi ninguém sequer mencionar em público. Schaap, porém,
havia se demitido do posto de editor local do New York Herald Tribune, um dos
postos legendários do jornalismo - em outras palavras, descera na escala
organizacional -, só para participar desse jogo secreto.
Todo mundo
conhece uma forma de competição entre repórteres de jornal,
a competição pelo furo jornalístico. Repórteres de
furos competiam com suas contrapartidas em outros jornais, ou nas agências
de notícias, para ver quem conseguia primeiro uma matéria e escrevia
mais depressa; quanto mais importante a matéria - isto é, quanto
mais ela tivesse a ver com o poder ou com catástrofes -, melhor. Em resumo,
eles se ocupavam da questão principal do jornal. Mas havia também
aquela outra turma de repórteres... Esses tendiam a ser conhecidos como
"escritores de reportagens especiais". O que todos tinham em comum era
que consideravam o jornal um motel onde você se hospedava para passar a
noite a caminho do triunfo final. A idéia era conseguir emprego num jornal,
conservar inteiros o corpo e a alma, pagar o aluguel, conhecer "o mundo",
acumular "experiência", talvez eliminar um pouco da gordura do
seu estilo - depois, em algum momento, demitir-se pura e simplesmente, dizer adeus
ao jornalismo, mudar-se para uma cabana em algum lugar, trabalhar dia e noite
durante seis meses, e iluminar o céu com o triunfo final. O triunfo final
era conhecido como O Romance.
Isso era Algum Dia, entenda-se bem... Nesse
meio-tempo, esses sonhadores lá estavam martelando, em todo lugar da América
onde houvesse um jornal, competindo por uma minúscula coroa de que o resto
do mundo nem tinha conhecimento: Melhor Escritor de Reportagens Especiais da Cidade.
"Reportagens especiais" era a expressão jornalística para
uma matéria que escapava à categoria da notícia pura e simples.
Abrangia tudo, desde pequenos fatos "divertidos", engraçados,
geralmente do movimento policial... Tinha aquela do sujeito de fora da cidade
que se registrou num hotel em San Francisco a noite passada, querendo se suicidar,
e se atirou da janela do quinto andar - despencou três metros e torceu o
tornozelo. O que ele não sabia era que o hotel ficava numa encosta íngreme!...
até "histórias de interesse humano", relatos longos e
quase sempre hediondamente sentimentais sobre almas até então desconhecidas
colhidas pela tragédia ou sobre hobbies estranhos dentro da área
de circulação da folha... Em todo caso, as reportagens especiais
davam ao sujeito certo espaço para escrever.
Ao contrário
do repórter de furos, o escritor de reportagens especiais não admitia
abertamente a existência do concorrente, nem mesmo entre eles dois. Tampouco
havia algum placar de contagem de pontos. E, no entanto, todo mundo no jogo sabia
precisamente o que estava acontecendo, e passava pelos mais mortificantes ataques
de inveja, até de ressentimento, ou por ataques de euforia, dependendo
de como ia indo o jogo. Ninguém jamais admitia uma coisa dessas, e, no
entanto, todo mundo sentia isso, quase todo dia. A arena do escritor de reportagens
especiais era diferente da do repórter de furos também sob outro
aspecto. Seu concorrente não trabalhava necessariamente para outra publicação.
Podia-se muito bem competir com gente do próprio jornal, o que queria dizer
que era ainda menos provável que se falasse a respeito.
Portanto,
ali estava metade dos concorrentes da área de reportagens especiais de
Nova York, bem ali, na mesma sala que eu, porque o Herald Tribune era como a principal
arena de Tijuana para escritores de reportagens especiais... Portis, Breslin,
Schaap... Schaap e Breslin tinham colunas, o que lhes dava maior liberdade, mas
eu achei que conseguiria tirar as duas coisas deles. Era preciso ser valente.
No Times, havia Gay Talese e Robert Lipsyte. No Daily News, Michael Mok. (Existiam
outros concorrentes também, em todos os jornais, inclusive no Herald Tribune.
Só menciono agora aqueles de que me lembro melhor.) Mok, eu já tinha
enfrentado antes, quando trabalhava no Washington Post e ele no Washington Star.
Mok era um concorrente duro, porque estava disposto a arriscar a pele por uma
boa história com a mesma louca coragem que depois demonstrou cobrindo a
Guerra do Vietnã e a guerra árabe-israelita para a Life. Mok fazia
coisas... do além. Por exemplo, o News manda Mok e um fotógrafo
fazer uma matéria sobre um gordo que tentava perder peso isolado num veleiro
ancorado no estreito de Long Island ("Sou daquele tipo que passa em frente
a uma doceira, respira fundo e engorda cinco quilos"). O barco a motor que
eles alugaram quebra a pouco mais de um quilômetro do veleiro do gordo,
faltando quatro ou cinco minutos para se esgotar o prazo. O mês é
março, mas Mok mergulha e começa a nadar. A temperatura da água
está em torno de cinco graus. Ele nada até ficar meio morto, e o
gordo tem de pescá-lo com um remo. Então, Mok consegue a história.
Cumpre o prazo. No News aparecem fotos de Mok nadando furiosamente no estreito
de Long Island para obter a saga do regime desse grande bolha para 2 milhões
de leitores. Se, em vez disso, ele tivesse se afogado, tivesse se acabado junto
com as ostras naquele muco hepatítico do estreito, ninguém teria
mandado gravar uma placa para ele. Os editores guardam suas lágrimas para
os correspondentes de guerra. Quanto aos escritores de reportagens especiais -
quanto menos se falar deles, melhor. (Outro dia mesmo vi um dos chefões
do New York Times reagir com perplexidade aos elogios superlativos feitos a um
dos escritores mais populares de seu jornal, Israel Shenker, da seguinte forma:
"Mas ele é um escritor de reportagens especiais!".) Não,
se Mok tivesse comprado uma fazenda de ostras naquela tarde, não teria
merecido nem o prêmio mais discreto do jornalismo, que é o meio minuto
de silêncio do jantar do Overseas Press Club. Ainda assim, ele mergulhou
no estreito de Long Island em março! Chegava a esse ponto a furiosa competição
dentro da nossa estranha e minúscula caverna!
Ao mesmo tempo, todo
mundo que estava no jogo tinha terríveis momentos de escuridão durante
os quais desanimava e dizia consigo mesmo: "Você está só
se enganando, rapaz. Isso tudo é só mais um dos seus tortuosos recursos
para protelar a decisão de falar abertamente sobre tudo... de ir para uma
cabana... e escrever seu romance". Seu romance! Hoje em dia - em parte devido
ao próprio Novo Jornalismo - é difícil explicar o que a idéia
de escrever um romance significava nos anos 40, 50 e até no começo
dos 60. O Romance não era uma mera forma literária. Era um fenômeno
psicológico. Era uma febre cortical. Fazia parte do glossário da
Introdução geral à psicanálise, em algum ponto entre
narcisismo e neurose obsessiva. Em 1969, Seymour Krim escreveu para a Playboy
uma estranha confissão que começava assim: Literalmente,
eu fui formado, moldado, afiado e encontrei um sentido no mundo por meio do romance
realista americano de meados e final dos anos 30. Dos catorze aos dezessete anos,
me entupi com as obras de Thomas Wolfe (a começar por Of time and the river
[Sobre o tempo e o rio], passando por Angel [Anjo], sem perder contato até
o incrível final do Grande Tom), Ernest Hemingway, William Faulkner, James
T. Farrell, John Steinbeck, John O'Hara, James Cain, Richard Wright, John Dos
Passos, Erskine Caldwell, Jerome Weidman e William Saroyan, e sabia, no fundo
do coração, que queria ser um romancista assim. O
texto acabou sendo uma confissão, porque primeiro Krim admite que a idéia
de ser romancista fora a paixão dominante de sua vida, seu chamado espiritual,
de fato, o marca-passo que mantivera seu ego em movimento ao longo de todas as
miseráveis humilhações de sua primeira juventude - e então
ele encarou o fato de estar agora com quarenta anos e nunca ter escrito um romance,
o qual muito provavelmente nunca escreveria. Fiquei fascinado pelo artigo, mas
não entendia por que a Playboy havia publicado aquilo, a menos que fossem
os 10 cc mensais de penicilina literária que a revista... para combater
os gonococos e espiroquetas... Não podia imaginar que alguém além
de escritores pudesse se interessar pelo Complexo de Krim. Porém, aí
foi que eu errei.
Depois de pensar bem, concluí que os escritores
constituem apenas uma parcela dos americanos que experimentaram a peculiar obsessão
de Krim. Sou capaz de apostar que, há não muito tempo, metade das
pessoas que ia trabalhar nas casas editoras o fazia acreditando que seu destino
real era ser romancista. Entre as pessoas do que chamam de lado criativo da publicidade,
aquelas que efetivamente sonham os anúncios, essa proporção
deve chegar aos 90%. Em 1955, em The exurbanites [Os exurbanitas], o falecido
A. C. Spectorsky pintou o gênio bem pago da propaganda da avenida Madison
como um homem que não lia um romance sem conferir a sobrecapa e a fotografia
do autor atrás... e se o filho-da-mãe de grande ego, com a camisa
desabotoada e o vento soprando nos cabelos, fosse mais novo que ele, não
toleraria abrir o maldito livro. Essa era a força do maldito Romance. Era
a mesma coisa entre o pessoal de televisão, relações públicas,
cinema, nos cursos de inglês das universidades e nas escolas secundárias,
entre os funcionários das casas de moldura, os presidiários, os
filhos solteiros que moram com a Mãe... um enxame de fantasistas fervendo,
proliferando no húmus do ego da América...
O Romance parecia
um dos últimos desses grandes golpes de sorte, como encontrar ouro ou achar
petróleo, com que um americano podia, do dia para a noite, num relance,
transformar inteiramente seu destino. Havia inúmeros exemplos para alimentar
a fantasia. Nos anos 30, todos os romancistas pareciam pessoas que explodiram
para o estrelato vindas da total obscuridade. Parecia ser essa a natureza da fera.
As notas biográficas das sobrecapas dos romances eram incríveis.
O autor, sem dúvida nenhuma, tinha antes trabalhado como servente de pedreiro
(Steinbeck), expedidor de caminhões (Cain), mensageiro de hotel (Wright),
carteiro (Saroyan), lavador de pratos num restaurante grego de Nova York (Faulkner),
motorista de caminhão, carregador, apanhador de frutas, limpador de postes,
piloto de avião de inseticida... A lista não tinha fim... Alguns
romancistas possuíam uma série dessas credenciais... Era assim que
se tinha certeza de comprar o produto autêntico...
Nos anos 50, O
Romance passara a ser um torneio nacional. Havia a noção mágica
de que o fim da Segunda Grande Guerra, em 1945, constituía o alvorecer
de uma nova idade do ouro no romance americano, como a era Hemingway-Dos Passos-Fitzgerald
depois da Primeira Guerra Mundial. Havia até uma espécie de clube
olímpico onde os novos garotos dourados se encontravam cara a cara toda
tarde de domingo em Nova York, que era a White Horse Tavern, na rua Hudson...
Ah! O Jones vai lá! E o Mailer! O Styron! O Baldwin! O Willingham! Ao vivo
- bem ali naquela sala! O local era estritamente voltado para romancistas, para
pessoas que estavam escrevendo um romance, e pessoas que estavam cortejando O
Romance. Não havia lugar para jornalistas, a menos que ali estivesse no
papel de futuro romancista ou simples cortesão dos grandes. Não
existia algo como um jornalista literário trabalhando para revistas ou
jornais populares. Se um jornalista aspirava a status literário, o melhor
era ter o bom senso e a coragem de abandonar a imprensa popular e tentar entrar
para a grande liga.
Quanto à pequena liga dos escritores de reportagens
especiais - dois dos concorrentes, Portis e Breslin, realmente partiram para realizar
a fantasia. Escreveram seus romances. Portis o fez de um jeito tão idêntico
ao que acontece em sonho que era inacreditável. Um dia, de repente, ele
se demitiu do posto de correspondente do Herald Tribune em Londres. O lugar era
considerado um emprego muito especial no meio jornalístico. Portis simplesmente
se demitiu um dia; assim, sem aviso. Voltou aos Estados Unidos e se mudou para
uma cabana de pesca no Arkansas. Em seis meses, escreveu um belo romance curto
chamado Norwood. Depois, escreveu True girl [Menina de verdade], que foi um best-seller.
As críticas foram incríveis... Ele vendeu os dois livros para o
cinema... Ganhou uma fortuna... Uma cabana de pescador! No Arkansas! Era perfeito
demais para ser verdade, mas era, sim. O que quer dizer que o velho sonho, O Romance,
nunca morre.
E, no entanto, no começo dos anos 60, uma curiosa idéia
nova, quente o bastante para inflamar o ego, começou a se insinuar nos
estreitos limites da statusfera das reportagens especiais. Tinha um ar de descoberta.
Essa descoberta, de início modesta, na verdade, reverencial, poderíamos
dizer, era que talvez fosse possível escrever jornalismo para ser... lido
como um romance. Como um romance, se é que me entendem. Era a mais sincera
forma de homenagem a O Romance e àqueles grandes, os romancistas, claro.
Nem mesmo os jornalistas pioneiros nessa direção duvidavam sequer
por um momento de que o romancista era o artista literário dominante, agora
e sempre. Tudo o que pediam era o privilégio de se vestir como ele... até
o dia em que eles próprios chegassem à ousadia de ir para a cabana
e tentar para valer... Eram sonhadores, claro, mas uma coisa eles nunca sonharam.
Nunca sonharam com a ironia que vinha vindo. Nunca desconfiaram nem por um minuto
que o trabalho que fariam ao longo dos dez anos seguintes, como jornalistas, roubaria
do romance o lugar de principal acontecimento da literatura. |