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O Último Jurado, de John Grisham (tradução de A.B. Pinheiro de Lemos; Rocco; 396 páginas; 43,50 reais) – Ao lado de Scott Turow, Grisham, com mais de 100 milhões de livros vendidos, é um dos nomes fundamentais do romance de tribunal – gênero que só poderia ter surgido em meio à cultura litigiosa dos Estados Unidos. O Último Jurado, porém, trata não apenas do mundo fechado dos tribunais, mas também do jornalismo. O protagonista é Willie Traynor, jovem que compra um jornal falido de uma pequena localidade no Mississippi. Com um pé no sensacionalismo, Traynor aproveita um crime brutal – o estupro e assassinato de uma jovem mãe – para vender mais jornais. O assassino é Danny Padgitt, membro de uma família rica (e criminosa) do local. Em um julgamento eletrizante (como é de costume em Grisham), ele é condenado, mas deixa a prisão anos depois – para se vingar dos jurados que o condenaram.

Leia trecho

PARTE UM
CAPÍTULO 1

Depois de décadas de paciente desídia e afetuosa negligência, The Ford County Times foi à falência em 1970. A proprietária e diretora, Miss Emma Caudle, tinha 93 anos e estava confinada a uma cama, numa casa de repouso em Tupelo. O editor, seu filho, Wilson Caudle, já estava na casa dos setenta anos. Tinha uma placa de metal na cabeça, de um ferimento sofrido na I Guerra Mundial. Um círculo perfeito de pele escura enxertada cobria a placa, no alto da testa longa e inclinada. Durante toda a sua vida adulta, ele suportara o apelido de Spot, a mancha. Spot fez isso. Spot fez aquilo. Aqui, Spot. Ali, Spot.

Em seus anos mais jovens, ele fazia a cobertura das assembléias municipais, jogos de futebol americano, eleições, julgamentos, eventos sociais da igreja, os mais diversos tipos de atividades no condado de Ford. Era um bom repórter, meticuloso e intuitivo. Obviamente, o ferimento na cabeça não afetara sua habilidade para escrever. Mas, em algum momento depois da II Guerra Mundial, a placa aparentemente se deslocou. O fato é que o sr. Caudle parou de escrever tudo, com exceção de obituários. Adorava obituários. Passava horas absorvido nos obituários. Escrevia sucessivos parágrafos de prosa eloqüente, detalhando a vida até dos mais humildes cidadãos do condado de Ford. A morte de um cidadão rico ou proeminente era notícia de primeira página, e o sr. Caudle aproveitava a oportunidade com o maior entusiasmo. Ele nunca perdia um velório ou um funeral, nunca escrevia qualquer coisa desfavorável sobre ninguém. No final, todos eram contemplados com a glória. O condado de Ford era um lugar maravilhoso para se morrer. E Spot era um homem muito popular, embora louco.

A única crise real de sua carreira jornalística ocorreu em 1967, na época em que o movimento dos direitos civis finalmente chegou ao condado de Ford. O jornal nunca demonstrara o menor sinal de tolerância racial. Nenhum rosto negro aparecia em suas páginas, a não ser quando pertencia a algum criminoso conhecido ou suspeito. Não havia qualquer notícia de casamento entre negros. Nem estudantes destacados ou times de beisebol negros. Mas, em 1967, porém, o sr. Caudle fez uma descoberta surpreendente. Acordou certa manhã para a noção de que os negros também morriam no condado de Ford. Suas mortes, contudo, não eram noticiadas da maneira apropriada. Havia todo um mundo novo e fértil de obituários à sua espera. O sr. Caudle começou, então, a navegar por águas perigosas e inexploradas. No dia 8 de março de 1967, uma quarta-feira, o Times tornou-se o primeiro jornal semanal de propriedade de brancos a publicar o obituário de um negro. De um modo geral, passou quase despercebido.

Na semana seguinte, ele publicou três obituários de negros. As pessoas começaram a comentar. Na quarta semana, já havia um boicote ao jornal, com assinaturas sendo canceladas e os anunciantes retendo seu dinheiro. O sr. Caudle sabia o que estava acontecendo, mas sentia-se impressionado demais com sua nova posição como integracionista para se preocupar com questões tão triviais como vendas e lucros. Seis semanas depois do obituário histórico, ele anunciou na primeira página, em letras enormes, sua nova política. Explicou para os leitores que publicaria o que bem quisesse; e se os brancos não gostassem, então simplesmente cortaria seus obituários.

Morrer de uma forma apropriada é uma parte importante da vida no Mississippi, tanto para brancos quanto para negros. A perspectiva de partir para o repouso final sem o benefício de um dos gloriosos obituários de Spot era mais do que os brancos podiam suportar. E todos sabiam que ele era bastante louco para cumprir a ameaça.

A edição seguinte estava repleta de todos os tipos de obituários, negros e brancos, todos em rigorosa ordem alfabética, em absoluta dessegregação. Toda a edição foi vendida, e seguiu-se um breve período de prosperidade.

A falência foi chamada de involuntária, como se as outras tivessem voluntários ansiosos. O pedido de falência foi encabeçado por um fornecedor de material gráfico de Memphis, a quem o jornal devia sessenta mil dólares. Vários credores não recebiam qualquer pagamento havia seis meses. O velho Security Bank estava executando um empréstimo vencido.

Eu era novo, mas já ouvira os rumores. Estava sentado a uma mesa na redação do Times, lendo uma revista, quando um anão de sapatos de bico fino passou pela porta e pediu para falar com Wilson Caudle.

– Ele está na agência funerária – informei.

Era um anão arrogante. Percebi que tinha uma arma na cintura, por baixo do blazer azul-marinho amarrotado. A posição da arma tinha a clara intenção de fazer com que as pessoas reparassem. Era bem provável que ele tivesse porte de arma, mas isso não era realmente necessário no condado de Ford, não em 1970. Mais do que isso, todos desdenhavam as permissões oficiais.

– Preciso notificá-lo sobre este documento – declarou o anão, acenando com um envelope.

Eu não tinha a menor intenção de ser prestativo, mas é difícil ser grosseiro com um anão.

– Ele está na agência funerária – repeti.

– Neste caso, deixarei com você.

Embora eu estivesse no jornal havia menos de dois meses, e apesar de ter cursado uma universidade no Norte, já havia aprendido algumas coisas. Sabia que os documentos positivos nunca eram remetidos às pessoas daquele jeito. Eram despachados pelo correio, enviados por um mensageiro ou entregues em mão, mas nunca notificados. Por isso, eu sabia que o tal documento era uma ameaça qualquer e não queria ter nenhuma participação na história.

– Não vou receber nenhum documento.

As leis da natureza exigem que os anões sejam dóceis, não-combativos. Aquele não era exceção. A arma era um artifício. Ele correu os olhos pela redação, mas sabia que seu caso era perdido. Com um instinto para o dramático, tornou a guardar o envelope no bolso e perguntou:

– Onde fica a agência funerária?

Indiquei o caminho e ele foi embora. Uma hora depois, Spot entrou cambaleante pela porta, acenando com o documento e gritando, histérico:

– Acabou! Acabou!

Continuou a lamentar-se, enquanto eu pegava a Petição de Falência Involuntária. Margaret Wright, a secretária, e Hardy, o linotipista e impressor, vieram da sala dos fundos e tentaram confortá-lo. Spot sentou numa cadeira, o rosto nas mãos, cotovelos nos joelhos, soluçando de uma maneira deplorável.

O documento dizia que o sr. Caudle devia comparecer ao tribunal dentro de uma semana, em Oxford, para se encontrar com os credores e o juiz. Seria, então, tomada a decisão se o jornal continuaria a ser publicado, sob a orientação de um administrador designado pelo tribunal. Dava para perceber que Margaret e Hardy estavam mais preocupados com seus empregos do que com o sr. Caudle e seu colapso nervoso, mas permaneceram bravamente ao seu lado, dando-lhe tapinhas nas costas. Quando o choro cessou, ele se levantou subitamente, mordeu o lábio e anunciou:

– Tenho de contar à mamãe.

Nós três trocamos olhares. Miss Emma Caudle deixara esta vida anos antes, mas seu coração débil continuava a bater, apenas o suficiente para o funeral ser adiado. Ela não sabia nem se se importava com a cor da gelatina com que a alimentavam, e com certeza se preocupava ainda menos com o condado de Ford e seu jornal. Era cega, surda e pesava menos de quarenta quilos. Agora, Spot queria discutir o problema da falência involuntária com ela. Nesse momento, compreendi que ele também não estava mais conosco.

Spot recomeçou a chorar e foi embora. Seis meses depois, eu passaria a escrever o obituário.

Porque eu cursara a universidade e estava com a petição na mão, Hardy e Margaret olharam para mim, esperançosos, à espera de um conselho. Eu era jornalista, não advogado, mas disse que entregaria o documento ao advogado da família Caudle. Seguiríamos o conselho que ele desse. Os dois sorriram sem muito ânimo e voltaram ao trabalho.

Ao meio-dia, comprei uma embalagem de seis cervejas na Quincy’s One Stop, em Lowtown, o bairro negro de Clanton, e fui dar uma longa volta em meu Spitfire. Era final de fevereiro, o calor inesperado para a época. Fui para o lago. Especulei o que exatamente estava fazendo no condado de Ford, Mississippi.

Fui criado em Memphis e estudei jornalismo em Syracuse, durante cinco anos, até que minha avó cansou de pagar pelo que estava se tornando uma educação prolongada. Minhas notas nada tinham de extraordinárias, e ainda faltava um ano para me formar. Talvez um ano e meio. Ela, BeeBee, tinha muito dinheiro, detestava gastá-lo, e depois de cinco anos concluiu que já financiara o suficiente minha oportunidade na vida. Quando cortou-me o dinheiro, fiquei muito desapontado, mas não me queixei. Ou pelo menos não para ela. Era o único neto, e sua herança seria um prazer algum dia.

Estudei jornalismo porque não sabia o que mais fazer. Nos primeiros dias em Syracuse, aspirava a ser um repórter investigativo, no New York Times ou Washington Post. Queria salvar o mundo pela descoberta e denúncia da corrupção, abuso ecológico, esbanjamento do dinheiro dos contribuintes pelo governo e a injustiça sofrida pelos fracos e oprimidos. Havia Pulitzers à minha espera. Depois de um ano desses sonhos elevados, assisti a um filme sobre um correspondente estrangeiro que se aventura pelo mundo à procura de guerras, seduz lindas mulheres e, de alguma forma, ainda encontra tempo para escrever reportagens premiadas. Ele falava oito línguas, usava barba, botas de combate, roupa engomada que nunca ficava amarrotada. Deixei crescer a barba, comprei botas e roupas cáqui, tentei aprender alemão, tentei sair com as garotas mais bonitas. Depois, quando minhas notas iniciariam um lento declínio para os últimos da turma, tornei-me fascinado pela idéia de trabalhar para um jornal de cidade pequena. Não posso explicar essa atração, exceto pelo fato de que foi mais ou menos nessa ocasião que conheci e me tornei amigo de Nick Diener. Ele era da região rural de Indiana, e havia décadas sua família era proprietária do próspero jornal do condado. Ele guiava um pequeno Alfa Romeo e sempre tinha dinheiro em abundância.

Nick era um estudante brilhante, que poderia se dar bem em medicina, direito ou engenharia. Seu único objetivo, no entanto, era voltar para Indiana e dirigir o jornal da família. Isso me deixava aturdido, até que tomamos um porre uma noite, e ele me disse quanto seu pai ganhava todos os anos com o pequeno jornal semanal, cuja circulação era de seis mil exemplares. Era uma mina de ouro, disse ele. Apenas as notícias locais, avisos de casamentos, eventos sociais da igreja, estudantes premiados, cobertura de competições esportivas, fotos de times de basquete, umas poucas receitas, uns poucos obituários e páginas de anúncios. Talvez um pouco de política, mas mantenha-se à distância dos assuntos controvertidos. E conte seu dinheiro. O pai era milionário. Era um jornalismo fácil e descontraído, sem muita pressão, com o dinheiro crescendo em árvores, segundo Nick.

Isso me atraía. Depois do quarto ano, que deveria ser o último, mas não estava nem perto, passei o verão fazendo um estágio num pequeno jornal semanal nas Montanhas Ozark, em Arkansas. O pagamento era uma porcaria, mas BeeBee ficou impressionada porque eu estava empregado. Todas as semanas eu lhe enviava o jornal. Escrevia pelo menos a metade das matérias. O proprietário/diretor/editor era um velho e maravilhoso cavalheiro, que sentia a maior satisfação por ter um repórter que queria escrever. Ele era muito rico.

Depois de cinco anos em Syracuse, minhas notas eram irrecuperáveis e o poço secou. Voltei a Memphis, visitei BeeBee, agradeci por seus esforços e disse que a amava. Ela me aconselhou a arrumar um emprego.

 


 
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