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livros
Hulton Archive/Getty Images
Kafka: mitologia do século XX  

K., de Roberto Calasso (tradução de Samuel Titan Jr.; Companhia das Letras; 280 páginas; 46 reais) – Em As Núpcias de Cadmo e Harmonia, um best-seller em seu país natal, o escritor italiano Roberto Calasso revisitou a mitologia grega com uma prosa que transitava entre o romance e o ensaio. Em outro livro, Ka, o tema foi a ancestral mitologia indiana. Embora o título pareça o mesmo, esse novo K. trata de um escritor mais próximo do leitor moderno: o checo Franz Kafka (1883-1924). Com um conhecimento seguro da obra do autor, Calasso passeia de seus escritos privados – cartas e diários – a obras-primas como O Castelo e A Metamorfose, para desvendar o que talvez seja a mitologia do século XX. Uma mitologia desencantada, muito distante dos luminosos deuses gregos ou indianos.

Leia trecho

No início, há uma ponte de madeira coberta de neve. Nevoeiro cerrado. K. ergue o olhar "para o que parecia ser o vazio", in die scheinbare Leere. Ao pé da letra: "para o vazio aparente". K. sabe que há alguma coisa naquele vazio: o Castelo. Jamais o viu, talvez jamais ponha os pés ali.

 

Kafka intuiu que só se nomeara um número mínimo de elementos do mundo à volta. Uma afiadíssima navalha de Ockham penetrava a matéria romanesca. Nomear o mínimo e em sua pura literalidade. Por quê? Porque o mundo tornava a ser uma floresta primeva, sobrecarregado de sons desconhecidos e aparições. Tudo tinha potência demais. Por isso era preciso limitar-se ao mais próximo, circunscrever a área do nominável. Então fluiria para ali toda a potência, de outro modo difusa. E naquilo que se nomeia — uma estalagem, um trâmite, um escritório, um quarto — se condensaria uma energia inaudita.

 

Kafka fala de um mundo prévio a toda separação e denominação. Não é um mundo sagrado ou divino, nem um mundo abandonado pelo sagrado e pelo divino. É um mundo que ainda está por reconhecer o sagrado e o divino, distingui-los do resto. Ou que ainda não sabe reconhecê-los, distingui-los do resto.Uma estrutura única, feita apenas de potência. O bem em sua plenitude, mas também o mal em sua plenitude estão impregnados de potência. O objeto sobre o qual Kafka escreve é a massa da potência, ainda não dissociada, separada em seus elementos. É o corpo informe de Vrtra, que contém as águas, antes que Indra o trespasse com o relâmpago.

 

O invisível tem uma tendência zombeteira a se apresentar como o visível, como se se distinguisse de todo o resto tão-somente por obra de circunstâncias particulares, como uma neblina que se dissipa. Assim somos induzidos a tratá-lo como o visível — e o castigo vem em seguida. Mas a ilusão permanece.

 

O processo e O castelo são histórias em que se trata de concluir um trâmite: livrar-se de um procedimento penal, confirmar uma nomeação. O ponto em torno ao qual tudo gira é sempre a eleição, o mistério da eleição, a sua obscuridade impenetrável. No Castelo, K. deseja a eleição — e isso complica infinitamente cada ato seu. No Processo, Josef K. deseja subtrair-se à eleição — e isso complica infinitamente cada ato seu. Ser escolhido, ser condenado: duas modalidades do mesmo procedimento. A relação de Kafka com o judaísmo, examinada em cada recanto, com pertinácia muitas vezes vã, é perceptível sobretudo neste ponto, que assinala a diferença essencial entre o judaísmo e o que o circundava. Bem mais que o monoteísmo ou a lei ou a moral superior. Afinal de contas, para cada uma dessas características é possível encontrar predecessores ou análogos egípcios, mesopotâmicos, gregos. Ao passo que a ênfase na eleição, essa sim é única — e fundada numa teologia do único.

 

O tribunal tem o poder de punir. O Castelo, o de eleger. Os dois poderes são perigosamente próximos, por vezes coincidentes. Ninguém mais do que Kafka, por atavismo e por vocação, possuía antenas para reconhecê-los. Para ninguém mais aquela adjacência e aquela sobreposição eram tão familiares. Mas não se tratava apenas de um legado judaico. Era coisa de todos e de sempre.

 

O processo e O castelo têm um pressuposto idêntico: a eleição e a condenação quase não se distinguem. Esse quase é o motivo pelo qual os romances são dois, e não um. O eleito e o condenado são os escolhidos, aqueles que são isolados entre tantos, entre todos. Desse isolamento provém a angústia que os envolve, seja qual for a sua sorte.

A principal diferença reside nisso: a condenação é sempre certa; a eleição, sempre incerta. Desconhecidos apresentam-se no quarto de dormir de Josef K., devoram seu desjejum e notificam que está em curso um procedimento penal contra ele. O procedimento já é, em si mesmo, a condenação. E nada poderia ser tão indubitável quanto aquela irrupção diante de testemunhas. Quanto a K., ao contrário, subsiste uma dúvida: a nomeação para agrimensor alguma vez chegou a ele? K. foi chamado ou apenas gostaria de ter sido chamado? É o legítimo titular de um cargo, por modesto que seja, ou é um fanfarrão que dá por certo algo que de fato não o é? K., que é ágil e tenaz em suas análises, mostra-se esquivo a esse respeito. Segue nebuloso o que aconteceu antes da "longa, difícil viagem" que o conduziu ao Castelo. Recebera uma convocação ou pusera-se a caminho justamente para obtê-la? Não há como saber com certeza.Mas há muitas maneiras de agravar e exasperar a incerteza.

Assim fala o prefeito da aldeia a K.: "O senhor foi aceito como agrimensor, como diz, mas infelizmente nós não precisamos de agrimensor". A crueldade não está na conclusão da frase, mas nesse pungente "como diz". Tampouco as autoridades do Castelo jamais admitirão outra coisa, deixando aberta até o fim a possibilidade de que a convicção de K. seja um delírio ou uma simples impostura.

De certo não há mais que um fato, como aduz o prefeito, que por sua vez insiste em precisar que "não sou funcionário de verdade" — e, portanto, não está à altura de tais questões —, mas "sou camponês e fico nisso". O fato é o seguinte: num dia longínquo, emanou um decreto que ordenava a nomeação de um agrimensor. Mas esse decreto remoto, que o prefeito teria esquecido sem mais, se a doença não lhe tivesse proporcionado a ocasião de "pensar nas coisas mais ridículas", não podia de modo nenhum dizer respeito à pessoa de K. Como todos os decretos, também esse planava acima das coisas e das pessoas, sem indicar a quem e quando seria aplicado. Desde então, esse decreto jaz entre os papéis entulhados no armário do quarto de dormir do prefeito. Sepultado nesse lugar íntimo e impróprio, manteve porém a sua energia radiante.

Mas o tormento da incerteza não tem fim. De um lado, o prefeito continua a falar com K., dando a entender que K. tem boas razões para interrogá-lo. De outro, não chega jamais a reconhecer a legitimidade da pretensão de K. — e sabemos ao menos desde Hegel que o essencial para o animal humano é tão-somente o reconhecimento. Assim continua o prefeito: "Também ela [a convocação] foi pensada. Só que circunstâncias secundárias intervieram para confundir". A convocação de K. foi certamente objeto de reflexão da parte da autoridade. Mas qual foi a conclusão? K. jamais foi convocado? Isso o prefeito cuida de não dizer.

Um grau ulterior do tormento se mostra quando o prefeito — ao reconstituir as complicadas vicissitudes do decreto de nomeação de um agrimensor e da falta de resposta da aldeia, por culpa do próprio prefeito (falta de resposta comprovada, segundo a reconstituição, por um "envelope vazio" encontrado num canto) — dá a entender que por vezes, justamente "quando um assunto foi ponderado durante longo tempo", pode mesmo acontecer que ele se resolva "como um raio", "como se o aparelho administrativo não suportasse mais a tensão", o prolongado agravamento da questão em aberto, e por isso procedesse à sua liquidação, decidindo "sem a colaboração dos funcionários". Uma tal possibilidade, portanto, subsiste. E é o próprio prefeito a admiti-la. Mas terá sido isso o que se deu no caso de K.? Aqui, mais uma vez, o prefeito recua e não dá garantias: "Não sei se no seu caso se chegou a uma decisão assim — algumas coisas dizem que sim, outras que não".

Quanto às outras duas provas de sua nomeação a que K. apela — a carta do funcionário Klamm, endereçada a ele, e o telefonema ao Castelo, feito assim que ele chegara ao Albergue da Ponte —, também a essas, aliás sobretudo a essas, se aplica a dúvida. A carta de Klamm é patentemente (como já o indica o sobrescrito) uma carta privada, e por isso não pode valer de modo nenhum como declaração da autoridade, por mais que sua importância, por outros motivos, possa ser enorme. E a conversa telefônica é necessariamente enganosa, pois "não existe nenhuma linha telefônica definida com o Castelo". O rumor, o canto que emana dos aparelhos e que se ouve tão logo se tira o fone do gancho é a única forma acústica pela qual o Castelo se manifesta: forma indistinta — e sobretudo não lingüística. É uma música de palavras que retornam a sua origem de pura matéria sonora, prévias e subtraídas a qualquer significado. O Castelo comunica-se com o exterior por meio de um som contínuo e indecifrável. "Tudo o mais é enganoso", acrescenta o prefeito. A começar pela palavra clara e límpida. Nesse ponto, como um grande acadêmico que encerra um seminário com estudantes e os remete a uma outra ocasião e a um novo ciclo de seus estudos para continuar a discussão, o prefeito diz a K.: "Se o senhor tivesse seguido melhor minhas explanações, precisaria saber, sem dúvida, que a questão do seu chamado para cá é difícil demais para que pudéssemos respondê-la aqui no curso de uma pequena conversa". Mas a vida inteira é "uma pequena conversa". E assim reafirma-se uma última vez o princípio da incerteza insuprimível da eleição.

 

Os mundos do Processo e do Castelo são paralelos a qualquer outro mundo, mas não entre si. Mais, são a seqüência um do outro. Josef K. torna-se K. Nesse meio-tempo, uma condenação e uma pena capital.Mas a história é a mesma — e contínua. Agora não há ninguém que venha procurar Josef K., é K. que se move à procura de alguma coisa. Os termos se invertem.O clima é outro, mas permanece afim. Mulheres, funcionários, trajes. Longos diálogos com desconhecidos, muitas vezes terrivelmente íntimos. Uma sensação tenaz de estranheza. "Ainda não conheço com precisão suficiente o seu sistema judiciário", diz Josef K. — mesmo que se encontre, nesse momento, num bairro periférico de sua cidade, cujo sistema judiciário ele está habituado a aplicar todos os dias, em sua condição de funcionário de um banco. É como se vigorassem duas leis simultâneas e incompatíveis. Tudo isso é estranho, mas logo não o parecerá a Josef K., e não só a ele: ao leitor também. Fato ainda mais singular. Nada é tão distante do Processo como a sensação do fantástico, do visionário e do "extraordinário" no sentido de E. A. Poe. Para quem lê, a suspeita constante é de que se trata de verismo. A leitura surpreende o leitor, assim como o guarda Franz, com os seus "trajes de viagem", surpreende Josef K. no instante "mais arriscado do dia": o despertar. O momento em que se pode ser facilmente "atropelado", quando não se está preparado. E ninguém está preparado ao despertar. É preciso ao menos já estar no escritório. Como diz K. à sra. Grubach: "No banco, por exemplo, estou preparado, lá seria impossível me acontecer uma coisa dessas".

 

O processo e O castelo se dão no interior de uma mesma vida psíquica. Após a execução da pena, Josef K. reaparece sob o nome de K. e toma distância da cidade grande. O castelo é o bar-do de Josef K.

 

O mundo do bar-do — aquele "estado intermediário" que o Livro Tibetano dos Mortos ensina a atravessar — não se apresenta drasticamente diverso do mundo dos vivos. Mas não concede facilmente o retorno. Quando Frieda devaneia sobre fugir com K., talvez "para o Sul da França, para a Espanha", suas palavras soam desvairadas e irrealizáveis, como as de alguém que ansiasse viver no Egito dos faraós. Entrar no bar-do, assim como adentrar o sonho, exige apenas uma leve torsão daquilo que existe — mas irreversível e capaz de desequilibrar todas as relações. Entre os procedimentos do tribunal na cidade de Josef K. e os da administração do Castelo existe uma evidente consangüinidade. Mas nada nos assegura que seus fins sejam convergentes. De seguro há apenas certas diferenças de estilo: ao Castelo não ocorre expulsar ou matar, como ainda faz o tribunal do Processo, mais primitivo, quem sabe. Para o Castelo, basta que a vida escoe. O puro passar do tempo já é a pena.

 

O que distingue O processo e O castelo é que, da primeira à última linha, ambos se dão no umbral do mundo ulterior que suspeitamos estar implícito neste mundo. Jamais esse umbral for a uma linha tão tênue, a ponto de se encontrar em qualquer lugar. Jamais esses dois mundos foram tão próximos, a ponto de dar a impressão aterrorizante de aderirem um ao outro. Desse mundo ulterior, não sabemos dizer com certeza se é bom ou mau, celeste ou infernal. A única evidência é de algo que se impõe e nos envolve. Como K., alternamos lampejos de lucidez e lapsos de torpor, por vezes tomando uns pelos outros, sem que ninguém tenha autoridade para nos corrigir.

 

Comparado a qualquer outro personagem de romance, K. é a pura potencialidade. Por isso suas feições não podem jamais ser descritas, direta ou indiretamente. Não sabemos sequer se tem "olhos escuros" como Josef K., que é seu predecessor. E não porque K., à maneira de Klamm, sofra contínuas metamorfoses. Mas porque K. é a forma daquilo que devém.

 


 
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