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Três Contos, de Gustave Flaubert (tradução de Samuel Titan Jr. e Milton Hatoum; Cosac & Naify; 150 páginas; 39 reais) – Ninguém pode dizer que conhece os clássicos sem ter lido Flaubert (1821-1880). Último livro publicado em vida pelo autor francês, Três Contos reúne histórias de temas muito diversos. Um Coração Simples retrata a existência triste e servil da criada Félicité. A Legenda de São Julião Hospitaleiro é a versão de Flaubert para a vida de Julião, o santo que matou seus próprios pais em uma confusão de identidades. Herodíade revisita a história bíblica em que Salomé pede a cabeça de São João Batista em uma bandeja. Em comum, todas essas histórias trazem a elegância e a precisão que fizeram de Flaubert um mestre da narrativa.

Leia trecho

Certa manhã de inverno, Julião partiu antes que o dia raiasse, bem equipado, uma balestra ao ombro e um feixe de ?echas no arção da sela.

Seu ginete dinamarquês, seguido de dois bassês que andavam no mesmo passo, fazia ressoar a terra. As gotas de orvalho se colavam a seu manto, um vento norte soprava. Um lado do horizonte ?cou mais claro; e, na brancura da penumbra, ele percebeu coelhos que saltitavam à beira de suas tocas. Os dois bassês, sem demora, precipitaram-se sobre eles; e, aqui e ali, animadamente, quebravam-lhes a espinha.

Logo entrou por um bosque. Na ponta de um galho, um galo silvestre entorpecido pelo frio dormia com a cabeça sob as asas. Julião, num golpe de revés com a espada, decepou-lhe as duas patas e, sem o recolher, continuou sua rota.

Três horas mais tarde, encontrou-se no cimo de uma montanha tão alta que o céu parecia quase negro. À sua frente, um rochedo semelhante a um paredão despenhava-se, pendendo sobre um precipício; e, na extremidade, dois bodes selvagens olhavam para o abismo. Como não tinha suas ?echas (pois o cavalo ?cara para trás), pensou em descer até eles; meio curvado, de pés descalços, alcançou o primeiro dos bodes e cravou um punhal entre suas costelas. O segundo, aterrorizado, saltou para o vazio. Julião atirou-se para golpeá-lo e, escorregando com o pé direito, caiu sobre o cadáver do outro, a face para o abismo e os braços abertos.

Retornando à planície, seguiu os chorões que bordejavam um rio. Os grous, voando bem baixo, vez por outra passavam sobre sua cabeça. Julião golpeava-os com seu chicote e não perdia nenhum.

Nesse meio tempo, o ar mais quente derretera a geada, nuvens de vapor ?utuavam, e o sol apareceu. Viu reluzir ao longe um lago congelado, que parecia de chumbo. No meio do lago, havia um animal que Julião não conhecia, um castor de focinho negro. Apesar da distância, uma ?echa o abateu; e Julião ?cou triste de não poder levar a pele.

Em seguida, avançou por uma alameda de grandes árvores, que formavam com suas cumeeiras uma espécie de arco do triunfo à entrada de uma ?oresta. Um cabrito saltou de um matagal, um gamo apareceu numa encruzilhada, um texugo saiu de um buraco, um pavão abriu a cauda sobre a relva; e, depois de os matar todos, outros cabritos apresentaram-se, outros gamos, outros texugos, outros pavões, e melros, gaios, doninhas, raposas, ouriços, linces, uma in?nidade de animais, a cada instante mais numerosos. Rondavam-no, trêmulos, com um olhar cheio de suavidade e de súplica. Mas Julião não se cansava de matar, tornando a armar sua balestra, desembainhando a espada, estocando com o facão, e não pensava em nada, não lembrava de coisa alguma. Estava caçando numa região qualquer, há um tempo indeterminado, pelo simples fato de existir, tudo se cumprindo com a facilidade que se tem nos sonhos. Um espetáculo extraordinário deteve-o. Um bando de cervos ocupava um vale em forma de arena; e, amontoados, um perto do outro, aqueciam-se com seu hálito, que fumegava em meio à neblina.

A esperança de um tal morticínio sufocou-o de prazer durante alguns minutos. Então desmontou do cavalo, arregaçou a camisa e se pôs a atirar.

Ao sibilar da primeira ?echa, todos os cervos voltaram-se de uma só vez. Abriram-se clarões em sua massa; vozes queixosas se elevavam, e um grande movimento agitou o bando.

A encosta do vale era alta demais para ser transposta. Eles saltavam no cercado, procurando escapar. Julião mirava, atirava; e as ?echas caíam como os raios de um temporal. Os cervos enfurecidos se batiam, se empinavam, pulavam uns por cima dos outros; e seus corpos, com as galhadas entrelaçadas, formavam um montículo esparramado, que desabava ao se deslocar.

En?m morreram, deitados sobre a areia, com baba nas narinas, as entranhas de fora, e a ondulação de suas barrigas diminuindo aos poucos. Depois, tudo ?cou imóvel.

A noite estava para chegar; e por trás do bosque, nos intervalos dos ramos, o céu parecia vermelho como um lençol de sangue.

Julião encostou-se numa árvore. Contemplava com olhar pasmo a enormidade do massacre, sem compreender como pudera praticá-lo.

Do outro lado do vale, à beira da ?oresta, percebeu um cervo, uma corça e um veadinho.

O cervo, que era negro e de tamanho monstruoso, tinha dezesseis ramos na galhada e uma barbicha branca. A corça, clara como as folhas mortas, pastava na relva; e o veadinho malhado, sem interromper a marcha, mamava em sua teta.

A balestra novamente zuniu. O ?lhote foi o primeiro a morrer. Então sua mãe, olhando para o céu, bramiu com uma voz profunda, dilacerante, humana. Julião, exasperado, estendeu-a por terra com uma ?echa no meio do peito.

O grande cervo avistara-o, deu um salto. Julião atirou contra ele sua última ?echa. Ela o atingiu na fronte, e ali ?cou plantada.

O grande cervo não pareceu senti-la; cavalgando por cima dos mortos, avançava sempre, ia carregar sobre ele, estripá-lo; e Julião recuava, num pavor indizível. O prodigioso animal deteve-se; e, com os olhos ?amejantes, solene como um patriarca e como um justiceiro, repetiu três vezes, enquanto um sino batia ao longe:

- Maldito! Maldito! Maldito! Um dia, coração feroz, assassinarás teu pai e tua mãe!

Dobrou os joelhos, fechou suavemente as pálpebras e morreu.

Julião ?cou estupefato, depois foi vencido por um súbito cansaço; e um asco, uma tristeza imensa o invadiu. O rosto entre as mãos, chorou por muito tempo.

Seu cavalo perdera-se; seus cães haviam-no abandonado; a solidão que o envolvia parecia ameaçá-lo com perigos inde?nidos. Então, impelido pelo medo, saiu correndo pelos campos, escolheu uma vereda ao acaso e encontrou-se quase imediatamente à porta do castelo.

À noite, não dormiu. Sob o vacilar da lamparina suspensa, revia sempre o grande cervo negro. Sua profecia obcecava-o; debatia-se contra ela. "Não, não, não! Não posso matá-los!", e depois pensava: "Mas se eu quisesse…?", e temia que o Diabo lhe instilasse a vontade.



 
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