O
Mercador de Café,
de David Liss (tradução de Alexandre Raposo; Record; 392 páginas;
46,90 reais) O cenário às vezes é tudo. Um dos pontos
fortes deste romance é a caracterização da época e
do lugar em que ocorre a ação: a Holanda do século XVII,
então uma das maiores potências comerciais do mundo. O herói
da história é Miguel Lienzo, um judeu português que fugiu
da Inquisição em seu país e estabeleceu um negócio
de açúcar em Amsterdã. Depois de falir em uma reviravolta
do mercado, Lienzo decide investir em um novo produto o café. Mas
sua sociedade com uma holandesa sedutora dará início a uma trama
de traição e mistério. Liss é bom em urdir esse tipo
de enredo: seu romance anterior, A Conspiração de Papel,
ganhou o prêmio Edgar Allan Poe de livro de suspense.
Leia
trecho Capítulo
1 Rodopiou
na tigela, denso, escuro, quente e repugnante. Miguel Lienzo ergueu o recipiente
e aproximou-o a ponto de quase mergulhar o nariz no líquido alcatroado.
Segurando a tigela, inalou profundamente, sugando o aroma para o interior dos
pulmões. O odor pungente de terra e folhas apodrecidas surpreendeu-o. Era
como algo que um farmacêutico mantivesse guardado em um frasco de porcelana
lascada.
- O que é isso? - perguntou Miguel, contendo a irritação
e empurrando a cutícula de um polegar com a unha do outro. Ela sabia que
Miguel não tinha tempo a perder, portanto por que o trouxera até
ali para ver aquela besteira? Comentários amargos borbulhavam dentro dele,
mas não deixou escapar nenhum. Não que tivesse medo dela, mas sempre
se pegava esforçando-se para evitar que ela se aborrecesse.
Viu
que Geertruid observava a sua silenciosa mutilação de cutícula
com um sorriso. Ele conhecia aquele sorriso irresistível e o que queria
dizer: que ela estava muito satisfeita consigo mesma e, quando ficava assim, também
era difícil Miguel não ficar tremendamente satisfeito com ela.
-
É algo extraordinário - disse-lhe Geertruid, gesticulando em direção
à tigela. - Beba.
- Beber? - disse Miguel, olhando para o líquido
negro. - Parece com a urina do demônio, o que certamente seria extraordinário,
mas não desejo saber que gosto tem.
Geertruid inclinou-se em direção
a ele, quase roçando em seu braço.
- Tome um gole e então
contarei tudo. Esta urina do demônio fará as nossas fortunas.
Tudo
começara não fazia uma hora, quando Miguel sentiu alguém
segurando-o pelo braço.
Um segundo antes de voltar-se, pensou nas
possibilidades desagradáveis: rival ou credor, um amor abandonado ou um
seu parente furioso, o holandês para quem vendera aqueles títulos
futuros de trigo do Báltico com excessivo entusiasmo. Não fazia
muito tempo a aproximação de um estranho era-lhe promissora. Mercadores,
negociantes e mulheres procuravam a companhia de Miguel pedindo os seus conselhos,
implorando por sua presença, barganhando os seus florins. Agora, a única
coisa que o ocupava era descobrir de que nova maneira o desastre se manifestaria.
Nunca
pensou em parar. Era parte da procissão que se formava todos os dias quando
os sinos da Nieuwe Kerk badalavam duas vezes, indicando o fim das movimentações
na bolsa de valores. Centenas de corretores saí-am-- para a Dam, a grande
praça no centro de Amsterdã. Espalhavam-se pelos becos, ruas e margens
do canal. Ao longo da Warmoesstraat, caminho mais rápido para as tavernas
mais populares, os vendedores ficavam do lado de fora das lojas envergando chapéus
de abas largas para protegê-los das emanações do Zuiderzee.
Expunham sacos de especiarias, rolos de linho, barris de tabaco. Alfaiates, sapateiros
e chapeleiros convidavam os clientes a entrarem nas oficinas enquanto vendedores
de livros, canetas e quinquilharias exóticas anunciavam as suas mercadorias.
A
Warmoesstraat tornava-se uma enxurrada de chapéus e roupas negras, maculada
apenas pelos colarinhos, mangas e meias brancas, ou pelo brilho das fivelas de
prata dos sapatos. Os negociantes vendiam bens do Oriente e do Novo Mundo, vindos
de lugares a respeito dos quais ninguém ouvira falar cem anos antes. Excitados
como escolares liberados da sala de aula, os comerciantes falavam de seus negócios
em uma dúzia de idiomas diferentes. Riam, gritavam, apontavam e agarravam
qualquer coisa jovem e feminina que cruzasse o seu caminho. Sacavam as suas bolsas
e devoravam as mercadorias dos lojistas, deixando apenas moedas à sua passagem.
Miguel
Lienzo não ria, não admirava as mercadorias expostas e nem apertava
as partes macias das lojistas oferecidas. Caminhava em silêncio, cabeça
inclinada contra a chuva fina. No calendário cristão, aquele era
o dia 13 de maio de 1659. Os negócios na bolsa fechavam todo dia 20. Quaisquer
que fossem as manobras, nada importava até o dia 20, quando os créditos
e débitos do mês eram computados e o dinheiro finalmente mudava de
mãos. Naquele dia as coisas haviam dado errado num negócio com títulos
futuros de conhaque e Miguel tinha menos de uma semana para se safar, ou acabaria
devendo mais mil florins.
Mais mil. Já devia três. Chegara
a fazer o dobro desta quantia em um ano, mas havia seis meses que o mercado de
açúcar falira, levando a sua fortuna com ele. Então, bem,
seguiu-se um erro atrás do outro. Miguel queria ser como os holandeses,
que encaravam a bancarrota como algo não vergonhoso. Tentava dizer para
si mesmo que aquilo não importava, que logo recuperaria o prejuízo,
mas acreditar naquela história estava ficando cada vez mais difícil.
Quanto tempo, pensava, até o seu rosto largo e infantil começar
a se abater? Quanto tempo até os seus olhos perderem o brilho ansioso dos
comerciantes para assumir o olhar vazio e desesperado dos jogadores? Jurara que
aquilo jamais aconteceria com ele. Não se tornaria uma daquelas almas perdidas,
aqueles fantasmas que assombravam a bolsa vivendo com o dinheiro contado, lutando
dia após dia para conseguir segurar as contas até o mês seguinte
quando, é claro, tudo ficaria mais fácil.
Agora, com dedos
desconhecidos agarrados ao redor de seu braço, Miguel voltou-se e viu um
holandês bem-vestido de classe média, com não mais de vinte
anos de idade. Era um sujeito musculoso de ombros largos, com cabelos louros e
uma face quase mais bela do que bem apanhada, embora o bigode pendente lhe acrescentasse
um toque masculino.
Hendrick. Nenhum nome familiar conhecido. Camarada
de Geertruid Damhuis.
- Saudações, Judeu - disse ele, ainda
segurando o braço de Miguel. - Espero que tudo esteja indo bem para você
esta tarde.
- As coisas sempre vão bem para mim - respondeu Miguel,
enquanto voltava o pescoço para ver se algum encrenqueiro idiota não
se esgueirava por trás deles. O Ma'amad, conselho regulamentar dos judeus
portugueses, proibia a reunião entre judeus e gentios "não
apropriados", e embora essa denominação pudesse se revelar
traiçoeiramente ambígua, ninguém podia confundir Hendrick
- que vestia blusão amarelo e calças vermelhas - com algo apropriado.
-
Madame Damhuis mandou buscá-lo - disse ele.
Geertruid já
fizera aquilo antes. Ela sabia que Miguel não podia correr o risco de ser
visto com uma holandesa em uma via pública como a Warmoesstraat, especialmente
uma holandesa com quem ele fazia negócios,- de modo que mandou o subalterno.
Isso não deixava de arriscar a reputação de Miguel mas, deste
modo, ela podia forçá-lo sem sequer dar as caras.-
- Diga-lhe
que não tenho tempo para diversão tão agradável -
afirmou. - Não agora.
- Claro que tem - disse Hendrick abrindo um
largo sorriso. - Quem pode dizer não para madame Damhuis?
Certamente
Miguel não podia. Ao menos não facilmente. Tinha tanta dificuldade
para dizer não a Geertruid quanto para qualquer outra pessoa - incluindo
a si mesmo - que lhe propusesse algo divertido. Miguel não tinha estômago
para a ruína, e o desastre caía-lhe como uma roupa larga e incômoda.
Tinha de se esforçar diariamente para interpretar o papel do homem que
lutava contra a própria ruína. Isso, sabia ele, era a sua verdadeira
maldição, a maldição de todo ex-converso: em Portugal
crescera habituado à falsidade, fingindo ser católico, fingindo
desprezar os judeus e respeitar a Inquisição. Ele não se
importava em ser uma coisa enquanto fazia o mundo crer que era outra. Enganar,
até mesmo a si mesmo, era algo que vinha-lhe naturalmente.
- Agradeça
a sua senhora mas apresente-lhe as minhas desculpas.
Com a proximidade
do dia do acerto de contas e com novas dívidas se acumulando, teria de
refrear os seus divertimentos, ao menos por enquanto. Além do mais, acontecera
outra coisa naquela manhã: garranchos anônimos em um pedaço
de papel rasgado. Quero o meu dinheiro. Era apenas um de cerca de meia dúzia
de bilhetes iguais que Miguel recebera no último mês. Quero o meu
dinheiro. Espere a sua vez, pensava Miguel, som-brio,- ao abrir cada uma dessas
cartas. Mas amedrontou-se com a concisão da mensagem e com a imprecisão
da mão que a escrevera. Apenas um louco enviaria uma mensagem daquelas
sem assinar. Como Miguel poderia responder caso tivesse o dinheiro e se sentisse
inclinado a usar o pouco que tinha para algo tão tolo quanto pagar dívidas?
Hendrick
olhou-o como se não entendesse o bom, embora carregado, holandês
de Miguel.
- Hoje não é dia - disse Miguel, um pouco mais
convincente. Evitava falar com muita arrogância com Hendrick, a quem certa
vez vira dar com a cabeça de um açougueiro contra as pedras da Damplatz
por ter vendido toucinho rançoso para Geertruid.
Hendrick olhou
para Miguel com o tipo de olhar piedoso que a gente de segundo escalão
reservava aos seus superiores.
- Madame Damhuis pediu-me que o informasse
que hoje é dia. Disse-me que deseja mostrar-lhe algo, e que quando você
vir o que ela tem para mostrar, passará a dividir a sua vida entre antes
e depois desta tarde.
A imagem dela se despindo veio-lhe à mente.
Aquilo seria uma bela divisão entre o passado e o futuro e certamente valeria
a pena deixar de lado os negócios da tarde. Contudo, Geertruid adorava
fazer esse tipo de brincadeira. Havia pouca possibilidade dela tirar mais do que
o barrete. Mas não havia como se livrar de Hendrick e, urgentes que fossem
os seus problemas, Miguel não poderia fazer negócio algum com aquele
holandês seguindo-o como uma sombra. Acontecera antes. Ele o seguiria de
taverna em taverna, de beco em beco e em cada lado do canal, até Miguel
desistir. Melhor seria acabar logo com aquilo, de modo que suspirou e disse que
iria.
Voltando-se bruscamente, Hendrick o guiou através de antigas
ruas com pavimento de pedras, através das pontes íngremes que levavam
à parte nova da cidade, que era cercada por três grandes canais:
o Herengracht, o Keizersgracht e o Prinsengracht. Então, rumaram para Jordaan,
a parte da cidade que crescia mais rapidamente e onde o ar ecoava com o retinir
de martelos em bigornas e com o ruído de cinzéis sobre a pedra.
Hendrick
o guiou através das águas do Rozengracht, onde as chatas atravessavam
a grossa neblina do canal rumando para as docas onde descarregavam as suas mercadorias.
As novas casas dos novos ricos ficavam ao longo daquelas águas imundas,
voltadas para o canal margeado de carvalhos e tílias. Certa vez Miguel
alugara a melhor parte de uma daquelas casas de tijolos vermelhos e cumeeiras
de campanário. Mas a produção de açúcar brasileiro
excedera em muito as suas expectativas. Ele vinha trabalhando com baixa produção
durante anos e então, subitamente, os fazendeiros brasileiros liberaram
uma safra inesperada, os preços despencaram de uma hora para outra e um
grande homem da bolsa tornou-se instantaneamente um devedor, vivendo das migalhas
que lhe dava o irmão.
Ao deixarem a rua principal, o Jordaan subitamente
perdeu o encanto. A vizinhança mudara - havia trinta anos o lugar onde
estavam era apenas uma área rural -, mas os becos já haviam assumido
o ar decrépito de uma favela. A terra batida substituíra o pavimento
de pedra. Cabanas de sapé e restos de madeira ombreavam com casas negras
de alcatrão. Os becos vibravam com o som oco dos teares, enquanto as tecelãs
trabalhavam do nascer do sol até tarde da noite, na esperança de
ganharem o bastante para encher a barriga por mais um dia.
Em momentos
de fraqueza, Miguel temia que a pobreza o assolaria como assolava os aflitos do
Jordaan, que ele cairia num poço de dívidas tão profundo
que perderia até mesmo o sonho de se recuperar algum dia. Seria o mesmo
homem, então - ele mesmo, embora sem um tostão -, ou se tornaria
oco como os mendigos e trabalhadores desafortunados com quem cruzava pelas ruas?
Disse
para si mesmo que aquilo jamais aconteceria. Um verdadeiro comerciante nunca se
entrega ao desânimo. Um homem que viveu secretamente como um judeu sempre
tem um truque para salvar a própria pele. Ao menos até cair nas
garras da Inquisição, lembrou, e não havia Inquisição
em Amsterdã. Apenas o Ma'amad.
Mas o que fazia ali com aquele holandês
inescrutável? Por que permitiu que a sua vontade cedesse quando tinha negócios
importantes a tratar?
- Para que tipo de lugar está me levando?
- perguntou Miguel, em busca de uma desculpa para si mesmo.
- Um tipo de
lugar miserável - disse Hendrick.
Miguel abriu a boca para externar
uma objeção, mas já era muito tarde. Haviam chegado.
Embora
não fosse como os holandeses, inclinados a crer em presságios,-
Miguel iria se lembrar posteriormente de que a sua aventura começara em
um lugar chamado o Bezerro de Ouro, certamente um nome nada auspicioso. Desceram
uma escada íngreme e de teto baixo até chegarem ao porão,
um pequeno cômodo onde caberiam trinta almas confortavelmente mas que, então,
talvez abrigasse cinqüenta. A fumaça de tabaco barato das Índias
Ocidentais e dos fogareiros de turfa mofada quase superava o odor de cerveja e
vinho derramado, queijo velho e de cinqüenta homens sujos - ou, melhor, cinqüenta
homens e dez putas - cujas bocas bafejavam cebola e cerveja.
Ao fim da
escada, um homem enorme, cujo corpo era muito parecido com uma pêra, fechava-lhes
a passagem e, ao sentir que vinha gente lá de cima, moveu para trás
o corpanzil de modo a evitar que alguém se esgueirasse. Tinha uma caneca
em uma das mãos e um cachimbo na outra, e gritou algo incompreensível
aos companheiros.
- Chega esse corpo feio pra lá, camarada - disse
Hendrick.
O homem virou a cabeça apenas o suficiente para que vissem
a sua cara fechada e voltou-se a seguir.
- Camarada - tentou Hendrick novamente.
- Você é uma merda dura no cu do meu caminho. Não me obrigue
a usar um purgante para expulsá-lo.
- Vá se mijar - respondeu
o outro, e então riu para os colegas.
- Camarada - disse Hendrick
-, volte-se e veja com quem está falando com tamanha rudeza.
O homem
virou-se e, ao ver Hendrick, o sorriso sumiu de seu rosto prognata coberto por
uma barba de três dias.
- Desculpe - disse ele. Tirou o barrete e
saiu rapidamente do caminho, esbarrando desajeitadamente nos companheiros.
A
súbita humildade não satisfez Hendrick, que avançou como
a correia de um chicote e agarrou a camisa imunda do homem. A caneca e o cachimbo
caíram no chão.
- Diga-me - disse Hendrick -, devo ou não
devo esmagar a sua garganta?
- Não esmagar - sugeriu o bêbado,
ansioso, as mãos debatendo-se como as asas de um pássaro.
-
O que diz, Judeu? - perguntou Hendrick para Miguel. - Esmago ou não?
-
Ah, deixe-o ir - respondeu Miguel, entediado.
Hendrick soltou o pescoço
do outro.
- O Judeu disse para deixá-lo ir. Por isso, na próxima
vez em que resolver jogar peixe ou repolho podre em um judeu, lembre-se que um
judeu salvou a sua pele hoje, também sem ter motivo para isso. Voltou-se
para Miguel e disse: - Por aqui.
Um leve menear de cabeça de Hendrick
foi suficiente para que a multidão abrisse passagem para eles como o mar
Vermelho diante de Moisés. Do outro lado da taverna, Miguel viu Geertruid
sentada no bar, bela como uma tulipa sobre um monte de estrume. Quando Miguel
se aproximou ela se voltou e sorriu para ele, um sorriso amplo, brilhante e irresistível.
Ele nada pôde fazer além de retribuir o sorriso, sentindo-se como
um jovem tolo, que é como ela o vinha fazendo se sentir ultimamente. Ela
tinha um certo encanto ilícito. Passar um tempo com Geertruid era como
dormir com a mulher de um amigo (algo que ele nunca fizera, pois o adultério
é o pecado mais pavoroso, e nenhuma mulher que ele tenha conhecido fora
tentadora o bastante para fazê-lo transgredir) ou dar o primeiro beijo em
uma virgem (que era algo que ele já fizera, embora apenas uma vez, e essa
virgem posteriormente se tornara sua mulher). O ar ao redor de Geertruid estava
sempre impregnado de desejos proibidos e evasivos. Talvez fosse porque Miguel
nunca tivesse passado tanto tempo com uma mulher da qual não fosse parente
sem levá-la para a cama.
- Madame, muito me honra ter desejado me
ver, mas temo que, no momento, não tenha tempo para tais diversões.
-
O dia do acerto de contas está chegando - disse ela com simpatia. E balançou
a cabeça com uma tristeza que beirava o limite entre o amor maternal e
o deboche.
- Sim, e tenho muito a acertar.
Pensou em dizer-lhe mais,
que as coisas andavam ruins e que, a não ser que conseguisse arquitetar
um plano notável, estaria devendo mais mil florins em uma semana. Mas não
disse. Após seis meses de endividamento brutal, incansável e entorpecido,
Miguel aprendera uma coisa ou outra a respeito de como ser um devedor. Chegara
até mesmo a considerar escrever um pequeno tratado sobre a matéria.
As primeiras regras pregavam que um homem nunca devia agir como um devedor e nunca
deveria anunciar os seus problemas para quem não precisasse saber deles.
-
Venha, sente-se ao meu lado um instante - disse ela.
Pensou em dizer que
não, que preferia ficar de pé, mas sentar-se perto dela era mais
delicioso do que ficar de pé ao seu lado, de modo que se viu assentindo
antes mesmo de ter decidido o que faria.
Não que Geertruid fosse
mais bela do que as outras mulheres, embora certamente fosse bonita. À
primeira vista não parecia nada demais, uma próspera viúva
com seus 35 anos de idade, regiamente alta, ainda muito bonita, principalmente
se um homem a olhasse da distância adequada ou com cerveja bastante na pança.
Mas mesmo estando além de sua melhor forma física, ela ainda tinha
encantos mais que suficientes e fora abençoada com uma dessas faces setentrionais
suaves e circulares, tão cremosa quanto manteiga holandesa. Miguel já
vira rapazes vinte anos mais jovens olharem cobiçosos para ela.
Hendrick
surgiu por trás de Miguel e tirou dali o homem que estava ao lado de Geertruid.
Miguel sentou-se enquanto Hendrick levava o sujeito para longe.
- Só
tenho alguns minutos - disse ele.
- Creio que me dará mais que isso.
Ela
se inclinou e beijou-o pouco acima do limiar da barba bem aparada.-
A primeira
vez que ela o beijara estavam em uma taverna e Miguel, que nunca tivera uma amiga
mulher, muito menos uma holandesa, achou que tinha a obrigação de
levá-la para um dos aposentos nos fundos e levantar-lhe as saias. Não
era a primeira vez que uma holandesa demonstrava as suas intenções
para com ele.
Gostavam de seus modos descontraídos, de seu sorriso
fácil, seus grandes olhos negros. Miguel tinha um rosto arredondado, macio
e jovem, sem ser infantil. Às vezes, as holandesas pediam para tocar a
sua barba. Acontecera em tavernas e casas de espetáculos musicais e nas
ruas das áreas menos elegantes da cidade. Alegavam desejar sentir a sua
barba, tão bem aparada e bonita como era, mas Miguel sabia o que queriam.
Gostavam de seu rosto por ser macio como o de um bebê embora firme como
o de um homem.
Geertruid, porém, nunca quis mais do que pressionar
os lábios contra a barba dele. Havia muito deixara claro não estar
interessada em ter as saias erguidas, ao menos não por Miguel. Essas holandesas
beijavam quem queriam pelo motivo que queriam, e o faziam com mais audácia
do que as mulheres judias da nação portuguesa ousavam beijar os
próprios- maridos.
- Veja - disse ela, gesticulando para a multidão.
- Embora esteja nesta cidade há anos, ainda tenho novas coisas para mostrar.
-
Temo que seu estoque de novidades esteja se esgotando.
- Ao menos não
precisa se preocupar com que o conselho hebreu nos veja neste lugar.
Era
verdade. Judeus e gentios podiam fazer negócios em tavernas, mas qual judeu
entre os portugueses iria escolher aquela cova fétida? Ainda assim, nunca
se sabe. Miguel olhou rapidamente ao redor em busca de espiões da Ma'amad:
homens que pudessem ser judeus vestidos como trabalhadores holandeses, camaradas
conspícuos, a sós ou em duplas, que nada comiam; barbas - coisa
que ninguém usava além dos judeus - cortadas rentes com tesouras
para parecerem estar de rosto limpo (a Torá proíbe apenas o uso
de lâminas no rosto, não o aparar das barbas, mas as barbas estavam
tão fora de moda em Amsterdã que até mesmo um resquício
de barba marcava um homem como judeu).
Geertruid introduziu a mão
entre as mãos de Miguel, um gesto próximo do amoroso. Acima de tudo,
ela adorava ter liberdade com os homens. Seu marido, que ela dizia ter sido o
mais cruel dos canalhas, morrera havia alguns anos, e ela ainda não terminara
de comemorar a liberdade.
- Aquele saco de gordura atrás do balcão
é meu primo, Crispijn - disse ela.
Miguel olhou para o homem: pálido,
corpulento, pesadão, não diferente de dez mil outros iguais a ele
na cidade.
- Obrigado por me mostrar seu intumescido parente. Poderia ao
menos pedir que ele me traga uma caneca de sua cerveja menos asquerosa para que
eu possa afogar este fedor?
- Sem cerveja. Hoje tenho algo mais em mente.
Miguel
não evitou sorrir.
- Algo mais em mente? Então decidiu me
deixar conhecer os seus encantos secretos?
- Tenho encantos de sobra, pode
crer, mas não os que você está pensando.
Acenou para
o primo, que respondeu com um solene menear de cabeça e então desapareceu
cozinha adentro.
- Quero que experimente uma nova bebida... um luxo extraordinário.
Miguel
olhou para Geertruid. Deveria estar em outras tavernas agora, falando sobre lã,
cobre ou sobre o mercado de madeira de construção. Devia estar trabalhando
duro para acertar as suas finanças arruinadas, em busca de alguma oportunidade
que só ele tivesse visto, ou convencendo algum bêbado a assinar o
próprio nome em seus títulos de conhaque.
- Madame, creio
que tenha se dado conta de que meus negócios são urgentes. Não
tenho tempo para luxos.
Geertruid aproximou-se ainda mais, encarou-o e,
por um instante, Miguel pensou que ela o beijaria. Não um beijinho sonso
na bochecha e sim um beijo verdadeiro, faminto e urgente.
Estava enganado.
-
Não o trouxe aqui por nada, e verá que não lhe ofereço
algo ordinário - disse ela, os lábios próximos o bastante
de seu rosto para que ele pudesse sentir seu fino hálito.
Então
primo Crispijn trouxe algo que mudou a vida de Miguel.
Duas tigelas de
barro fumegavam, repletas de um líquido mais negro do que os vinhos de
Cahors. À luz mortiça, Miguel segurou o recipiente com ambas as
mãos e provou.
Era de um amargo profundo, quase encantador, algo
que Miguel jamais experimentara antes. Lembrava chocolate, coisa que provara havia
alguns anos. Talvez tenha pensado em chocolate apenas por que as duas bebidas
eram escuras e servidas quentes em grossas tigelas de barro. Essa tinha um sabor
menos voluptuoso, mais picante e menos intenso. Miguel provou novamente e pousou
a tigela. Quando experimentara chocolate, ficara intrigado o bastante para tomar
duas tigelas da coisa, o que inflamou o seu espírito de tal forma que,
mesmo após ter estado com duas prostitutas satisfatórias, sentiu
necessidade de visitar o médico, que restaurou os seus humores desequilibrados
com uma boa combinação de eméticos e purgas.
- É
feito da fruta do cafeeiro - disse Geertruid, cruzando os braços como se
ela mesma tivesse inventado a bebida.
Miguel topara com café uma
ou duas vezes, mas apenas como uma mercadoria negociada por comerciantes das Índias
Orientais. O trabalho na bolsa de valores não exigia que se conhecesse
a natureza de um produto, apenas a sua demanda e, às vezes, no calor da
negociação, nem mesmo isso.
Lembrou-se de pronunciar a bênção
sobre as maravilhas da natureza. Alguns judeus se afastavam de seus amigos gentios
quando rezavam a comida e a bebida, mas Miguel gostava de rezar. Adorava fazer
as suas preces em público, numa terra onde não seria perseguido
por falar o idioma sagrado. Desejava ter mais oportunidade de abençoar
as coisas. Dizer aquelas palavras era um grande desafio, e ele achava que cada
palavra em hebraico era como uma faca enfiada na barriga de um inquisidor.
-
É uma nova substância. Inteiramente nova - explicou Geertruid quando
Miguel terminou. - Toma-se não para deleite dos sentidos, mas para despertar
o intelecto. Seus adeptos o bebem de manhã, para despertar os sentidos,
e à noite, para ficar mais tempo acordados.
O rosto de Geertruid
tornou-se sombrio como os de um daqueles pregadores calvinistas que vociferavam
de púlpitos improvisados nas praças da cidade.
- Esse café
não é como o vinho ou a cerveja, que bebemos apenas para nos divertirmos,
para saciar a sede ou, mesmo, porque é agradável. Esta bebida somente
aumentará a sua sede, jamais o alegrará, e o gosto, sejamos honestos,
pode até ser curioso, mas jamais agradável. O café é
algo... algo muito mais importante.
Miguel conhecia Geertruid tempo o bastante
para estar acostumado com seus hábitos desvairados. Ela podia rir a noite
inteira e beber tanto quanto qualquer outro holandês do sexo masculino,
podia negligenciar os seus afazeres e vagar de pés descalços pelo
campo como uma menina, mas em termos de negócios era tão séria
quanto qualquer homem. Uma mulher de negócios como ela seria impossível
em Portugal mas, entre os holandeses, se não exatamente comum, seu tipo
nada tinha de chocante.
- O que penso é o seguinte - disse ela,
a voz alta apenas o bastante para sobressair ao alarido da taverna. - A cerveja
e o vinho podem deixar um homem sonolento, mas o café o deixará
desperto e com a mente clara. Cerveja e vinho podem tornar um homem amoroso, mas
o café o fará perder interesse pela carne. O homem que beber da
fruta do cafeeiro só se interessará por seus negócios. -
Fez uma pausa para outro gole e concluiu a seguir: - O café é a
bebida do comércio.
Quantas vezes, ao fazer negócios em tavernas,
os sentidos de Miguel se ressentiram de cada caneca de cerveja? Quantas vezes
desejara que pudesse se concentrar uma hora mais na tabela de preços da
semana? Uma bebida que deixasse as pessoas sóbrias era ideal para um homem
de negócios.
Miguel começou a ser tomado de ansiedade e percebeu
que movia os pés com impaciência. Os sons e as imagens da taverna
haviam desaparecido. Havia apenas Geertruid. E o café.
- Quem bebe
isso hoje em dia? - perguntou.
- Não sei - admitiu Geertruid. -
Ouvi dizer que há uma taverna de café em algum lugar na cidade,
freqüentada por turcos, como dizem, mas nunca estive lá. Não
conheço holandeses que bebam café, a não ser aconselhados
pelo médico, mas a moda vai se espalhar. Na Inglaterra, já abriram
tavernas que servem café em vez de vinho ou cerveja, e os comerciantes
ali se reúnem para tratar de negócios. Essas tavernas de café
tornaram-se um tipo de bolsa de valores. Não demorará até
essas tavernas também abrirem por aqui, pois qual cidade ama mais o comércio
do que Amsterdã?
- Está me dizendo que deseja abrir uma taverna?
- perguntou Miguel.
- As tavernas não darão grande coisa.
Devemos estar em posição de abastecê-las.
Ela pegou
a mão de Miguel.
- Haverá demanda e, caso nos preparemos
para essa demanda, podemos fazer muito dinheiro.
O aroma do café
começou a deixá-lo com a cabeça leve, tomada de algo como
desejo. Não, desejo não. Cobiça. Geertruid encontrara algo,
e Miguel sentiu aquela ansiedade infecciosa inflando o seu peito. Era como pânico
ou júbilo ou algo mais, e ele queria pular da cadeira. Essa energia seria
fruto da idéia que ela tivera ou efeito do café? Se a fruta do cafeeiro
fazia as pessoas ficarem irrequietas como podia ser a bebida do comércio?
No
entanto o café era algo maravilhoso, E se ousasse pensar que ninguém
mais em Amsterdã estava planejando tirar vantagem daquela nova bebida,
o café poderia salvá-lo da ruína. Durante seis meses desoladores,
Miguel sentira-se como se estivesse sonhando acordado. Sua vida fora substituída
por um triste simulacro, pela vida exangue de um homem inferior. Poderia o café
recuperar-lhe o seu lugar de direito?
Adorava o dinheiro que acompanhava
o sucesso, mas amava mais o poder. Adorava o respeito que inspirava na bolsa e
no Vlooyenburg, a vizinhança insular onde viviam os judeus portugueses.
Adorava encomendar jantares generosos sem nunca querer saber quanto iriam custar.
Sentia prazer em fazer doações para as instituições
de caridade. Eis aqui dinheiro para os pobres; que comam. Eis aqui dinheiro para
os flagelados; que encontrem os seus lares. Eis aqui dinheiro para os eruditos
na Terra Santa; que trabalhem para precipitar a era do Messias. O mundo podia
ser um lugar mais sagrado porque Miguel tinha dinheiro para dar. E ele dava.
Esse
era Miguel Lienzo, não aquela ruína de quem debochavam as crian-ças
e as donas-de-casa corpulentas. Não conseguia mais suportar os olhares
ansiosos de outros comerciantes, que fugiam dele temendo que sua má sorte
se espalhasse como praga, ou os olhares de piedade da bela mulher de seu irmão,
cujos olhos úmidos sugeriam que ela via afinidade entre a sua desgraça
e a dele.
Talvez Miguel tivesse sofrido o bastante, e o Todo-Poderoso,
abençoado Seja, tivesse posto esta oportunidade diante dele. Ousava crer
nisso? Ele gostava de concordar com qualquer coisa que Geertruid propusesse, mas
nos últimos meses perdera muitas vezes por agir movido por tolos pressentimentos.
Seria loucura levar aquilo adiante, principalmente porque estaria lidando com
uma sócia cuja própria existência o tornava vulnerável
ao Ma'amad.
- Como é possível que essa poção
mágica já não tenha se espalhado pela Europa? - perguntou.
-
Tudo tem de começar em algum lugar. Devemos aguardar até outro comerciante
ambicioso conhecer o segredo? - acrescentou ela em tom conspirador.
Miguel
afastou-se da mesa e ergueu-se na cadeira.
- Diga-me o que pretende.
Esperou
ansioso pelas palavras de Geertruid. Ela não conseguia responder rápido
o bastante e Miguel desejava responder antes mesmo das palavras terem sido pronunciadas.
Geertruid esfregou ambas as mãos e disse:
- Estou decidida a fazer
negócio com café, e tenho algum capital, mas não faço
idéia de como proceder. Você é um homem de negócios,
e preciso de sua ajuda... e de sua sociedade.
Uma coisa era chamar aquela
viúva espirituosa de amiga quando estavam juntos para beber e jogar, agenciá-la
na bolsa ou fazer pequenos negócios aqui e ali - embora o Ma'amad tivesse
proibido os judeus de agir como corretores para os gentios sob pena de excomunhão.
Outra era tê-la como sócia nos negócios. Alguns judeus podiam
emergir ilesos de um acordo tão incomum, mas Miguel não podia contar
com a sorte. Não sem dinheiro ou influência para protegê-lo.
Miguel
já escarnecera das críticas mal-humoradas do conselho, mas o Ma'amad
começara a realizar as suas ameaças. Enviava espiões em busca
de violadores do sabá e gente que se alimentava com comida impura. Estes
eram expulsos, como era o caso do usurário Alonzo Alferonda, que quebrara
as suas regras arbitrárias. Perseguia gente como o pobre Bento Spinoza,
que pronunciara heresias tão vagas que quase ninguém sequer entendeu
que as suas palavras eram heréticas. Mais que isso, Miguel tinha um inimigo
no conselho que certamente esperava a menor desculpa para atacá-lo.
Tantos
riscos... Miguel mordeu o lábio inferior, segurando a vontade de rir. Podia
viver com os riscos se pudesse prometer a si mesmo não pensar neles muito
freqüentemente.
Miguel começou a dar tapinhas sobre a mesa.
Queria agir logo. Queria começar imediatamente a garantir contatos e corretores
em quase toda bolsa importante na Europa. Ele podia lidar com café em quantidade,
transportando-o deste porto para aquele. Essa era a verdadeira essência
de Miguel Lienzo, fazer negócios, conexões e arranjos. Não
era covarde para se esquivar de uma oportunidade porque homens amargos e hipócritas
disseram-lhe que sabiam mais do que os Sábios o que é certo ou errado.
-
Como faremos isso? - disse por fim, subitamente dando-se conta de que estava calado
havia vários minutos. - O comércio de café pertence à
Companhia das Índias Orientais e não podemos esperar tirar o controle
de gente tão poderosa. Não compreendo o que está me propondo.
-
Nem eu! - disse Geertruid jogando as mãos para cima, excitada. - Mas estou
propondo algo. Precisamos fazer alguma coisa. Não vou permitir que o fato
de não saber o que estou propondo me atrapalhe. Como dizem, até
mesmo o cego pode tropeçar num paraíso. Está preocupado com
o dia vinte porque deve dinheiro? Estou lhe oferecendo riqueza. Um novo e grande
empreendimento com o qual se recuperar e fazer com que a sua dívida de
agora pareça uma ninharia.
- Preciso de tempo para pensar a respeito
- disse ele, embora não precisasse de nada disso. Um homem não tem
tantas oportunidades na vida, e arruinar essas oportunidades por impaciência
seria loucura. - Vamos discutir isso depois do dia vinte. Em uma semana.
-
Uma semana é um longo tempo - disse a viúva. - Fortunas se fazem
em uma semana. Impérios ascendem e caem em uma semana.
- Preciso
de uma semana - repetiu Miguel em voz baixa.
- Uma semana, então
- disse Geertruid, em seu modo amável de falar. Ela sabia que não
devia insistir.
Miguel deu-se conta de que mexia nervosamente com o botão
do casaco.-
- Agora preciso ir embora e cuidar de meus assuntos mais imediatos.
-
Antes de ir, deixe-me dar algo para ajudá-lo a considerar o empreendimento.
Geertruid
sinalizou para Crispijn, que apressou-se em entregar-lhe um saco de lã
grosseira.
- Ele me deve algum dinheiro - explicou, quando o primo se afastou.
- Concordei em pegar um pouco disso como parte do pagamento. Eu gostaria de lhe
dar algo em que pensar.
Miguel olhou para o saco no interior do qual havia
talvez doze mancheias de grãos marrons.
- Café - disse Geertruid.
- Fiz Crispijn assar os grãos para você porque sei que um fidalgo
português não pode torrar os seus próprios grãos. Basta
amassá-los até virarem pó, e misturá-los ao leite
ou à água quente. Depois, pode filtrar o pó se quiser, ou
apenas deixá-lo assentar. Não beba muito do pó, para não
agitar suas entranhas.
- Você não mencionou agitação
de entranhas ao fazer o elogio do produto.
- Até mesmo as melhores
coisas da natureza podem fazer mal se tomadas em dosagem errada. Não mencionaria
o fato, mas um homem com o intestino frouxo é um péssimo sócio
comercial.
Miguel deixou que ela o beijasse novamente. Então, abriu
caminho em meio à taverna e saiu para o ar frio e enevoado do fim da tarde.
Diante do fedor do Bezerro de Ouro, o ar salitrado do IJ parecia tão benfazejo
quanto a mikvah, e ele deixou a neblina cair sobre o seu rosto por um instante
até que um menino com menos de seis anos de idade começou a puxar-lhe
a manga do casaco e a chorar falando da mãe. Miguel atirou-lhe meio stuiver,
já antegozando a riqueza que o café lhe traria: dívidas pagas,
uma casa própria, a oportunidade de casar novamente, ter filhos...
Logo
se arrependeu por se permitir a tais caprichos. Outros mil florins de dívida.
Já devia três mil em Vlooyenburg, incluindo 1.500 para o irmão,
que emprestara depois do colapso do mercado de açúcar. Ele permitira
que o Gabinete de Falências na prefeitura liquidasse os seus débitos
com os cristãos, mas os judeus de sua vizinhança administravam as
suas próprias contas.
A maré alta começara, e as águas,
que subiam além do Rozengracht, já inundavam as ruas. No outro lado
da cidade, na casa do irmão, o porão cavernoso onde Miguel dormia
à noite logo começaria a alagar. Este era o preço de viver
em uma cidade construída na água, sobre estacas, mas Miguel não
pensava mais nos desconfortos que o assolaram assim que chegou a Amsterdã.
Mal notava o fedor de peixe podre das águas do canal ou o chapinhar de
seus passos ao caminhar sobre o chão molhado. Peixe morto era o perfume
da riqueza de Amsterdã, e o chapinhar da água a sua melodia.
O
mais prudente seria ir para casa imediatamente e escrever um bilhete para Geertruid
explicando-lhe que os riscos de trabalhar com ela eram muito grandes e que podiam
levá-lo à ruína. Mas ele nunca se livraria de suas dívidas
sendo prudente. E a ruína já caíra sobre ele. Havia apenas
alguns meses, seu açúcar abarrotava os depósitos às
margens do canal e ele caminhava pelo Vlooyenburg como um rico mercador. Estava
pronto para deixar a perda de Katarina para trás, casar novamente e ter
filhos, e os agentes matrimoniais vinham se digladiando para ter acesso a ele.
Agora, porém, ele devia. Sua situação era péssima.
Recebia bilhetes ameaçadores de um homem que parecia ser louco. Como mudar
a própria sorte sem fazer algo ousado?
Vinha se arriscando a vida
inteira. Iria parar agora apenas por temer o poder arbitrário do Ma'amad,
aqueles homens que, encarregados de defender a lei de Moisés, avaliavam
o seu poder acima da Palavra de Deus? A lei nada falava a respeito de viúvas
holandesas. Por que Miguel deveria evitar fazer fortuna com uma delas?
Podia
ter tentado fazer mais alguns negócios naquele dia, mas suspeitava que
a sua agitação não o levaria a algo produtivo, de modo que
resolveu ir à sinagoga Talmude Torá para as orações
da tarde e da noite. A liturgia, então familiar, acalmou-o como vinho temperado,
de modo que, ao sair, sentia-se revigorado.
Ao fazer o curto trajeto da
sinagoga até a casa do irmão, mantendo-se junto às casas
da margem do canal para não ser visto tanto pelos assaltantes quanto pela
guarda noturna, Miguel ouviu o ruído das garras dos ratos sobre as pranchas
de madeira estendidas sobre os esgotos. Café, disse para si mesmo. Não
precisava de uma semana para dar a sua resposta a Geertruid. Apenas precisava
de tempo para convencer a si mesmo de que associar-se a ela não completaria
a sua ruína.
das
Reais
e Reveladoras Memórias de
Alonzo Alferonda
Meu nome é
Alonzo Rodrigo Tomás de la Alferonda, e eu trouxe a bebida chamada café
para os europeus - ou seja, dei origem ao seu consumo por aquelas bandas. Bem,
talvez eu esteja me vangloriando demais, pois o café certamente teria chegado
lá por outros meios sem a minha ajuda. Digamos apenas que eu tenha sido
o parteiro que facilitou a sua passagem da obscuridade para a glória. Não,
diriam, também não fui eu: Foi Miguel Lienzo quem fez isso. Que
papel, então, teria Alonzo Alferonda no triunfo deste grande fruto? Mais
do que se crê, asseguro-lhes.- E para aqueles que dizem que só fiz
o mal, que impedi, obstei, e prejudiquei mais do que levei adiante, só
posso dizer que sei mais do que meus detratores. Eu estava lá - vocês,
com toda certeza, não estavam.
Meu nome verdadeiro é Avraham,
assim como meu pai e meu avô. Desde que os judeus foram obrigados a usar
nomes secretos, todos os primogênitos da família Alferonda foram
chamados de Avraham. Antes disso, quando os mouros dominavam a Ibéria,
chamavam-se Avraham abertamente. Durante a maior parte de minha vida, não
pude dizer o meu nome em voz alta a não ser em quartos escuros, ainda assim
aos sussurros. Aqueles que questionam os meus atos deveriam se lembrar disso.
Quem vocês seriam hoje, pergunto àqueles que me julgam tão
severamente, se os seus próprios nomes fossem um segredo cuja revelação
pudesse custar-lhes a vida, assim como a de seus amigos e familiares?
Nasci
na cidade portuguesa de Lisboa, em uma família de judeus aos quais não
era permitido rezar como judeus. Éramos chamados de cristãos-novos
ou conversos, pois nossos ancestrais haviam sido obrigados a assumir a fé
cristã ou abrir mão de suas posses e, até mesmo, de suas
vidas. A não ser que estivéssemos dispostos a suportar a tortura,
a ruína e, talvez, até mesmo a morte, rezávamos publicamente
como católicos. Mas nas sombras e nos porões, em sinagogas secretas
que mudavam de casa em casa, rezávamos como judeus. Livros de orações
eram-nos raros e preciosos. À luz do dia medíamos a nossa riqueza
em ouro mas, na penumbra desses quartos escuros, medíamos nossa riqueza
em páginas e conhecimento. Poucos entre nós sabiam ler o hebraico
contido nos poucos livros que possuíamos. Poucos conheciam as rezas adequadas
aos dias sagrados e ao sabá.
Meu pai sabia ou, ao menos, sabia um
pouco. Tendo passado a primeira parte de sua infância no Oriente, crescera
entre judeus que não eram proibidos por lei de praticar a sua religião.
Ele tinha livros de oração que emprestava livremente. Possuía
alguns volumes do Talmude babilônico, mas não sabia aramaico e pouco
entendia daquelas páginas. Os judeus secretos de Lisboa procuravam-no para
aprender os rudimentos da língua sagrada, as rezas do sabá, a fazer
jejum nos dias de jejum e a regalar-se em dias de festa. Ensinou-os a comer ao
ar livre durante o Succoth e, é claro, ensinou-os a beber até ficar
alegres no Purim.
Deixe-me ser direto: meu pai não era um religioso,
sábio ou santo. Longe disso. Admito este fato com tranqüilidade e
penso não estar insultando seu nome ao dizê-lo. Meu pai era um trapaceiro,
um enganador. Em suas mãos, a trapaça e o engano eram coisas belas
e maravilhosas.
Apenas por ter sido educado nos princípios de nossa
fé - não era um erudito, vejam vocês, apenas um homem com
alguma educação - meu pai era tolerado pelos judeus secretos de
Lisboa, pois atraía mais atenção sobre si mesmo do que era
prudente para um cristão-novo. Seja lá onde estivessem os mercadores
com algumas moedas de sobra, meu pai também estaria lá com suas
poções para prolongar a vida, aumentar a virilidade ou curar qualquer
mal. Sabia truques com cartas, bolas e dados. Sabia fazer malabarismos, equilibrismo
sobre corda bamba e dar saltos acrobáticos. Sabia treinar cães a
somar e diminuir números simples e treinava gatos para dançar sobre
as patas traseiras.
Líder natural, meu pai atraía outros
que viviam de divertimentos ilusórios e curiosos. Comandava um exército
de trapaceiros especialistas em baralhos e dados, engolidores de fogo e de espada.
Aqueles que podiam se sustentar apenas exibindo as formas que a natureza lhes
impusera também se juntavam sob o estandarte de meu pai. Entre meus companheiros
de mais tenra infância havia anões e gigantes, o monstruosamente
gordo e o horrivelmente esquálido. Brincava com o menino-cobra e a menina-cabra.
Ao crescer, desenvolvi uma indesejável curiosidade a respeito de uma pessoa
que meu pai conhecera e que tinha tanto a anatomia masculina quanto a feminina.
Em troca de algumas moedas, essa criatura desafortunada permitia que qualquer
um o visse fornicar consigo mesma.
Quando eu tinha apenas dez anos de idade,
meu pai recebeu uma visita tarde da noite. Era um rapaz mais velho, chamado Miguel
Lienzo, que reconheci do culto na sinagoga. Era um sujeito pândego e, como
tal, afeito tanto à companhia de trapaceiros e deformados quanto aos ensinamentos
de meu pai. Disse que era um pândego, pois ele adorava desafiar as autoridades,
e quando o conheci em Lisboa as autoridades que ele mais gostava de desafiar eram
a sua família e a própria Inquisição.
Esse
Lienzo era de uma linhagem de cristãos-novos relativamente sinceros, o
que não era raro: gente que, fosse por crença genuína ou
pelo mero desejo de evitar a perseguição, se conformava inteiramente
ao modo cristão e evitava aqueles de nós que tentávamos viver
como judeus. O pai de Lienzo era um comerciante bem-sucedido, em sua opinião,
o que era o bastante para despertar a ira da Inquisição. Talvez
tenha sido apenas por isso que Miguel comparecia ansiosamente aos nossos cultos
secretos e tentava aprender o que meu pai tinha a ensinar.
Mais que isso,
o jovem Miguel usava as conexões do pai dele com a comunidade dos cristãos-velhos
para descobrir o que podia a respeito da Inquisição. Tinha um ouvido
aguçado para rumores e adorava alertar os outros sempre que podia. Conheço
meia dúzia de famílias que fugiram na noite anterior à Inquisição
bater à sua porta - tudo porque Lienzo soubera onde se ocultar e ouvir.
Creio que fazia essas boas ações tanto para ver a justiça
sendo feita neste mundo quanto pelo prazer de se meter onde não era chamado.
Anos
depois, quando o vi novamente em Amsterdã, ele não me reconheceu
e nem sequer se lembrou do que fizera por minha família. Nunca esqueci
de sua bondade, embora alguns insistam no contrário.
Miguel, que
se oferecera como voluntário para ajudar o padre a limpar os seus aposentos
particulares na igreja (ele sempre se oferecia para essas tarefas não-remuneradas
na esperança de conseguir informações), tivera a chance de
ouvir uma conversa entre aquele miserável e um inquisidor que estava interessado
em nossa família, e veio nos avisar.
Assim, no escuro da noite,
deixei o único lar que conheci, levando comigo muitos de nossos amigos.
Éramos judeus, cristãos, mouros e ciganos, e passamos por mais cidades
do que as que consigo me lembrar agora. Durante anos vivemos no Oriente, e tive
a sorte de passar muitos meses na cidade sagrada de Jerusalém. É
apenas uma sombra de sua antiga glória, mas houve tempos em minha vida
desafortunada em que a lembrança desses dias em que caminhei pelas ruas
da antiga capital de minha nação, visitando o lugar onde outrora
se erguia o Templo sagrado, me apoiaram quando não conseguia encontrar
sentido em qualquer outra coisa. Se for da vontade do Senhor, louvado Seja, voltarei
algum dia ao lugar santo e viverei lá os dias que me restarem.
Em
nossas viagens, também atravessamos a Europa, e estivemos em Londres, onde
meu pai morreu de encefalite. Eu tinha 25 anos na época, era um homem crescido,
mas não tinha a disposição de meu pai. Meu irmão mais
jovem, Mateo, queria assumir o comando do exército de proscritos, e eu
sabia que ele tinha jeito para a coisa. Embora tivesse viajado durante anos, eu
não era um errante. Sabia roubar nas cartas e nos dados, mas nisso Mateo
era muito melhor do que eu. A única coisa que eu conseguia com animais
era fazer os cães mostrarem a barriga e os gatos se deitarem no meu colo.
Meu
pai sempre falara da importância dos judeus viverem como judeus e entre
judeus, e lembrei-me de uma visita que fizera a Amsterdã havia alguns anos.
Naquela cidade, os judeus gozavam de um grau de liberdade inigualável no
restante do mundo cristão.
Assim, atravessei o mar do Norte e me
vi abraçado pela grande comunidade de judeus portugueses que ali vivia.
Fui imediatamente aceito. E é por isso que escrevo estas memórias.
Quero deixar claro que fui injustamente exilado de um povo que amava. Desejo dizer
ao mundo que não sou o canalha que pensam que sou. E quero pôr no
papel a verdade sobre Miguel Lienzo e seus negócios no mercado de café,
assunto no qual ele foi muito incriminado, também injustamente. É
minha intenção descrever os meus assuntos em Amsterdã, as
condições em que fui excomungado, minha vida naquela cidade depois
disso, e que papel exatamente tive nos negócios de Lienzo.
É
verdade que antes mesmo de saber andar eu já sabia ocultar cartas na manga
e fazer o dado rolar como queria, mas juro que não praticarei nenhum truque
nestas páginas. Serei como o Homem Urso, um sujeito petulante com quem
viajei durante anos. Eu me despirei para mostrar a verdade. Se quiser, leitor,
pode até mesmo puxar o pêlo para ver que não é truque.
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