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A julgar pelo desempenho em livrarias, dom Pedro II é mais popular do que seu pai. D. Pedro II (Companhia das Letras; 276 páginas; 37 reais), do historiador José Murilo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, já freqüenta os mais vendidos há catorze semanas. D. Pedro I, de Isabel Lustosa, publicado na mesma coleção de biografias breves – Perfis Brasileiros –, apareceu apenas uma vez na lista. Governante mais duradouro da história brasileira – foi imperador por quase meio século, de 1840 a 1889 –, dom Pedro II é de fato um personagem fascinante, por causa de sua ambivalência fundamental: criado por tutores para ser o governante perfeito, nunca desenvolveu o gosto pelo poder. Nas suas viagens, preferia o encontro com cientistas ou artistas como o compositor Richard Wagner aos compromissos de estado. Fisicamente imponente, com sua barba branca precoce e seu 1,90 metro de altura, o imperador era no entanto tímido, quadro psicológico agravado pelos distúrbios de saúde (era epilético) e pela voz fina, pouco impositiva. Abalado por conflitos internos (a Revolução Farroupilha) e externos (a Guerra do Paraguai), o Segundo Império foi ainda assim um período de relativa estabilidade política, no qual a imprensa conheceu uma liberdade quase irrestrita. Mas o país ainda carregava a mancha moral da escravidão, e o imperador de convicções iluministas mostrou-se tímido também no seu apoio ao abolicionismo. D. Pedro II é um retrato generoso de um monarca melancólico.

Jerônimo Teixeira

 

Leia trecho

1. D. Pedro II e Pedro d’Alcântara

D. Pedro II governou o Brasil de 23 de julho de 1840 a 15 de novembro de 1889. Foram 49 anos, três meses e 22 dias, quase meio século. Assumiu o poder com menos de quinze anos em fase turbulenta da vida nacional, quando o Rio Grande do Sul era uma república independente, o Maranhão enfrentava a revolta da Balaiada, mal terminara a sangrenta guerra da Cabanagem no Pará, e a Inglaterra ameaçava o país com represálias por conta do tráfico de escravos. Foi deposto e exilado aos 65 anos, deixando consolidada a unidade do país, abolidos o tráfico e a escravidão, e estabelecidas as bases do sistema representativo graças à ininterrupta realização de eleições e à grande liberdade de imprensa. Pela longevidade do governo e pelas transformações efetuadas em seu transcurso, nenhum outro chefe de Estado marcou mais profundamente a história do país.

D. Pedro foi um Habsburgo perdido nos trópicos. Um homem de 1,90 m, louro, de penetrantes olhos azuis, barba espessa, prematuramente embranquecida, num país de pequena elite branca cercada de um mar de negros e mestiços. Órfão de mãe logo depois de completar um ano de idade, de pai, aos nove, virou órfão da nação. Dela recebeu, via tutores e mestres, uma educação rígida, propositalmente distinta da do pai. Seus educadores procuraram fazer dele um chefe de Estado perfeito, sem paixões, escravo das leis e do dever, quase uma máquina de governar. Passou a vida tentando ajustar-se a esse modelo de servidor público exemplar, exercendo com zelo um poder que o destino lhe pusera nas mãos.

Este foi d. Pedro II, imperador do Brasil. Mas, detrás dessa máscara, reforçada pelos rituais da monarquia, havia um ser humano marcado por tragédias domésticas, cheio de contradições e paixões, amante das ciências e das letras, apaixonado pela condessa de Barral. Este foi Pedro d’Alcântara, cidadão comum, que detestava as pompas do poder. No Brasil, predominava a máscara do imperador d. Pedro II. Na Europa e nos Estados Unidos, ressurgia o cidadão Pedro d’Alcântara.

Mas uma paixão mais forte evitou o dilaceramento interno, permitiu que os dois Pedros convivessem, embora sob tensão permanente. Foi a paixão pelo Brasil. Ela marcou a vida de d. Pedro II e de Pedro d’Alcântara, possibilitando que o homem que os abrigava se dedicasse integral e persistentemente à tarefa de governar o Brasil por meio século. Ele o fez com os valores de um republicano, com a minúcia de um burocrata e com a paixão de um patriota. Foi respeitado por quase todos, não foi amado por quase ninguém.

 
 
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