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livros

Cosmos, de Witold Gombrowicz (tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá; Companhia das Letras; 192 páginas; 38,50 reais) – Logo nas primeiras páginas de Cosmos, o protagonista, caminhando pelo meio de um matagal, descobre a cena de um crime, que será investigado ao longo do romance, no arranjo clássico dos romances detetivescos. Mas o polonês Witold Gombrowicz (1904-1969), mestre em sátiras do mais desbragado nonsense, nunca foi de seguir as fórmulas literárias. O enredo policial de Cosmos não foge a esse figurino iconoclasta. A vítima do crime é apenas um pardal – e o "assassino" usa um método bem pouco usual para matar o passarinho: o enforcamento. A literatura de Gombrowicz é muito divertida – mas também esquisita.

Leia trecho

Capítulo 1

Vou contar-lhes uma outra aventura ainda mais estranha...

Suor. Fuks está caminhando e eu atrás dele. Pernas de calças, saltos de sapatos, areia, nós nos arrastamos e arrastamos. Terreno arenoso, trilhas, torrões, brilho de cascalho reluzente, lampejos, calor agitado e murmurante, um sol que ofusca a visão, casinhas, cercas, campos, florestas, este percurso, esta caminhada, de onde, como. Para dizer a verdade, eu estava farto dos meus pais, aliás de toda a família, além do quê queria deixar para trás pelo menos um exame, bem como respirar novos ares, sair dali e passar um tempo bem longe. Parti para Zakopane. Estou andando por uma de suas ruas principais, pensando em como arrumar uma pensão barata quando encontro Fuks e sua cara proeminente cor de cenoura, seu olhar opaco de apatia, mas ele ficou contente e eu fiquei contente. Como está?, o que faz aqui? Procuro um quarto, eu também, tenho um endereço - disse-me ele - de uma casinha barata, porque fica longe, perto de um vilarejo próximo. Assim, seguimos juntos, as pernas de calças, saltos enfiados na areia, estrada e calor. Olho para baixo: terra e areia, o cascalho brilha, um, dois, um, dois, pernas, saltos, suor, ardência nos olhos maldormidos no trem, nada mais do que aquele caminhar penoso. Ele parou.

- Vamos descansar?

- Falta muito?

- Não, pouco.

Olhei em volta e vi aquilo que era para ser visto, bem como aquilo que não tinha mais vontade de ver por tê-lo visto já tantas vezes: pinheiros e cercas, pinhos-de-riga e casinhas, mato e grama, uma vala, trilhas e canteiros, campos e uma chaminé... ar... tudo brilhando ao sol, porém negro, com a negritude das árvores, o tom pardo da terra, o agradável verdor das plantas, tudo bastante escuro. Um cachorro latiu, Fuks entrou no meio dos arbustos.

- Aqui está mais fresco.

- Vamos em frente.

- Daqui a pouco. Não custa descansarmos um pouco.

Penetrou ainda mais no meio dos arbustos, onde se abriam entranhas, profundezas obscurecidas por vegetação entrelaçada e galhos de pinheiros. Fixei meu olhar entre as folhas, galhos, manchas de luz, matagais, reentrâncias, pressões, chanfros, aberturas, curvas, só o diabo sabe o que mais... para o espaço malhado, que ora se aproximava ora fugia, silenciava, crescia, sei lá eu, derrubando tudo e se abrindo... Perdido e coberto de suor, sentia sob meus pés a terra desnuda e fria. Lá, no meio dos galhos, havia algo - algo diferente e estranho... algo que também era observado por meu companheiro.

- Um pardal.

- Ah, bem.

Era um pardal. Estava pendurado num arame. Enforcado. Com a cabecinha retorcida e o biquinho aberto. Pendia de um pedaço de arame preso a um galho.

Que coisa mais extraordinária. Um passarinho enforcado. Um pardal pendurado num arame. Esta excentricidade gritava a plenos pulmões e indicava o envolvimento da mão de um ser humano que penetrara no matagal. Mas quem? Quem o enforcou e por quê? Qual teria sido o motivo?... Fiquei pensando, em confusão mental, em meio a esta situação com um milhão de combinações, os sacolejos da viagem de trem, a noite entrecortada de silvos da locomotiva e maldormida, o ar, o sol, a caminhada até aqui com este tal Fuks, Jasia e minha mãe, a confusão com a carta, a forma pela qual "dei um gelo" no velho, e Roman, além dos problemas de Fuks com o seu chefe (dos quais ele me falou), trilhos, torrões, saltos de sapatos, pernas de calças, pedrinhas, folhas, tudo, enfim, acabou desabando sobre aquele pardal, como uma multidão ajoelhada. E o pássaro, o excêntrico, assumiu seu papel de rei.... reinando naquele local.

- Quem o teria enforcado?

- Alguma criança.

- Não. Está alto demais.

- Vamos!

Mas ele não se mexeu. O pardal continuava pendurado. O chão era desnudo, embora, em alguns lugares houvesse tufos de grama rasteira. Derramadas sobre ele, havia várias coisas: um pedaço retorcido de uma chapa de ferro, um pedaço de pau, um outro pedaço de pau, uma cartolina rasgada, mais um pedaço de pau. Havia também um besouro, uma formiga, uma segunda formiga, um inseto desconhecido, uma ripa de madeira etc. etc., até onde começavam as raízes dos arbustos. Ele ficou olhando para aquilo. Assim como eu.

- Vamos!

Mas ele continuava parado, olhando. O pardal pendia. Eu permanecia parado e olhava.

- Vamos!

- Vamos!

No entanto, não saíamos do lugar, provavelmente por termos ficado ali tempo demais e o momento adequado de partir já tivesse passado... e agora, isso se tornara mais pesado, mais inconveniente... nós, com aquele pardal enforcado no meio dos arbustos... e tive a sensação de algo semelhante a um desequilíbrio de proporções, falta de tato, de uma impropriedade de nossa parte... eu estava com sono.

- Muito bem! Em frente! - falei, e fomos... deixando o pardal sozinho, no meio dos arbustos.

A continuação da caminhada, debaixo de um sol implacável, nos escaldou e entediou. Depois de darmos algumas dezenas de passos paramos descontentes, e voltei a perguntar "falta muito?". Fuks respondeu, apontando para uma pequena placa pendurada na cerca:

- Aqui também eles alugam quartos.

Olhei. Um pequeno jardim. No jardim, atrás de uma cerca viva havia uma casa sem nenhuma decoração, sem balcões, tediosa e surrada, construída com parcimônia, com uma mísera varanda de madeira, típica das casas de Zakopane, com duas fileiras de janelas - cinco na parte térrea e cinco no andar de cima. Quanto ao jardim, algumas arvorezinhas minguadas, uns amores-perfeitos meio murchos e duas trilhas de cascalho. Mas ele achava que valia a pena ver, não custava dar uma espiada, às vezes num lugar modesto assim a comida pode ser de lamber os beiços, além de barata. Eu também estava disposto a entrar e ver, muito embora já tivéssemos passado por várias tabuletas semelhantes, sem que lhes tivéssemos dado a mínima atenção. Eu estava encharcado de suor. O calor era insuportável. Ele abriu o portão e fomos pelo caminho de cascalho na direção das reluzentes vidraças das janelas. Ele tocou a campainha. Esperamos um pouco na varanda. A porta se abriu, e surgiu uma mulher já não tão moça, de cerca de quarenta anos, uma espécie de empregada de peitos grandes e corpo avantajado.

- Gostaríamos de ver os quartos.

- Um momento, vou chamar a dona da casa.

Ficamos esperando na varanda. Minha cabeça ainda guardava o barulho do trem, o cansaço da viagem, os acontecimentos do dia anterior, da agitação, do atordoamento e dos zumbidos - uma cascata de zumbidos. O que me intrigou naquela mulher foi uma estranha deformação em sua boca, naquele rosto de olhos claros de uma bondosa mulher do povo. Sua boca tinha, num dos cantos, uma espécie de corte, e esse minúsculo prolongamento de apenas um milímetro repuxava seu lábio superior, com o que ele se levantava - na verdade, deslizava como um réptil -, e essa escorrência fugidia, apesar de me repugnar com seu frio aspecto reptiliano, como de um sapo, não deixava de me excitar, já que era, também, uma escura passagem que conduzia ao pecado sexual - úmido e escorregadio. Fiquei espantado com sua voz, pois não sabia que tipo de voz poderia emanar daquela boca, e eis que ela falou como qualquer mulher amatronada de meia-idade. E agora pude ouvir a voz vindo de dentro da casa:

- Titia! Estão aqui dois senhores que vieram ver o quarto!

A tia em questão, que momentos depois entrou deslizando sobre perninhas curtas, era redonda. Trocamos algumas palavras: sim, de fato, tenho um quarto para duas pessoas, com pensão completa, sigam-me, por favor. Fomos envolvidos pelo aroma de café moído, um pequeno corredor, uma pequena alcova, escadas de madeira, os senhores pretendem ficar muito tempo? ah, sim, vão estudar, aqui temos muita paz, silêncio... Na parte superior, novamente um corredor e algumas portas, a casa era apertada. Ela abriu o último quarto do corredor, que consegui ver apenas de relance, já que, como qualquer quarto de aluguel, era escuro, com as cortinas cerradas, duas camas e um armário com um cabide, uma garrafa d’água sobre um pires, dois abajures perto das camas, sem as respectivas lâmpadas e um espelho numa moldura suja e feia. Um raio de sol escapava por entre as cortinas, formando uma mancha de luz no chão, e pudemos sentir o cheiro de hera e ouvir o zumbido de um moscardo. Só que... surpresa!... uma das camas estava ocupada, com alguém deitado nela - uma mulher -, sendo que se tinha a impressão de que ela não estava deitada como deveria, muito embora eu não soubesse em que consistia essa, digamos, impropriedade - se o fato de a cama estar sem lençóis, apenas com um colchão, ou de sua perna parcialmente estendida no estrado de arame (o colchão se deslocara um pouco) ter feito com que aquela ligação de perna e metal tivesse me surpreendido naquele dia quente, sonoro, cansativo. Ao nos ver, sentou-se na cama e arrumou os cabelos.

- Lena, o que você está fazendo, meu anjo? Que coisa! Permitam-me, senhores, que a apresente: minha filha.

Ela respondeu com um aceno de cabeça às nossas mesuras. Levantou-se e saiu em silêncio - um silêncio que apagou em mim qualquer pensamento sobre algo extraordinário.

Foi-nos mostrado, ainda, o quarto vizinho, igual, porém mais barato, já que não tinha banheiro. Fuks sentou-se na cama, a senhora diretora Wojtys na cadeira e, como resultado, alugamos o quarto mais barato, com refeições incluídas, sobre as quais a senhora diretora disse "os senhores poderão constatar por si mesmos".

Ficou decidido que tomaríamos o café-da-manhã e almoçaríamos no quarto, e que jantaríamos no andar de baixo, junto com a família.

- Voltem, senhores, vão pegar suas coisas enquanto Katasia e eu preparamos tudo.

Partimos em busca de nossos pertences.

Voltamos com nossos pertences.

Desfizemos as malas, enquanto Fuks explicava que tivemos sorte, que o quarto era barato, que o outro que lhe foi recomendado certamente seria mais caro... além do quê a comida vai ser boa, você verá! Quanto a mim, estava cada vez mais entediado com a cara de peixe dele e... dormir... dormir. Fui até a janela, olhei para fora, lá estava o mísero jardinzinho ressecando sob o sol. Mais adiante, a cerca e a estrada e, atrás dela, dois pinheiros que indicavam o lugar no matagal onde pendia o pardal. Atirei-me sobre a cama, virei-me de lado, adormeci, a boca deslizando da boca e os lábios mais lábios do que nunca, porque eram menos lábios... mas eu já não dormia. Tinha acordado. Diante de mim, estava a empregada. Era madrugada, mas escura, noturna. Só que, não era madrugada. Ela estava me acordando:

- O jantar está servido.

Levantei-me. Fuks já calçava os sapatos. Jantar. Na sala de jantar, um cubículo apertado com um guarda-louça espelhado, uma coalhada, rabanetes e um discurso do senhor Wojtys, ex-diretor de um banco, com anel de brasão e abotoaduras de ouro:

- Eu, meu querido amigo, agora me pus à disposição da minha cara-metade e estou sendo usado para os mais diversos serviços, quando uma torneira enguiça, ou o rádio... Recomendo-lhe mais um pouco desta manteiguinha junto com estes rabanetes, ai que manteiguinha deliciosa...

- Obrigado.

- Este calor tem que acabar em tempestade. Juro por tudo que me é mais sagrado, a mim e aos meus granadeiros!

- Você ouviu os trovões, papai? Lá longe, além da floresta? - Era Lena, a quem eu pouco vira. De forma geral, eu pouco vira o que quer que fosse, mas, em todo caso, o ex-diretor, ou então o ex-chefe, se expressava de forma floreada:

- Gostaria eu de lhes sugerir ainda um pouquinho mais de coalhada. Minha esposa é uma grande especialista em coalhadas, e o amiguinho sabe qual é o seu segredo? A panela! A arte de coalhar o leite depende diretamente das qualidades lácteas da panela.

- O que você entende disso, Leon? - Era a patroa se intrometendo.

- Sou um jogador de bridge, meus senhores, um ex-banqueiro e, presentemente, um bridgista, com permissão especial da minha esposa após o almoço, aos domingos e à noite! Quer dizer, cavalheiros, que vocês pretendem estudar? Este lugar cai como uma luva para isso: é calmo e silencioso, o intelecto pode se banhar aqui como numa compota...

Mas eu não lhe prestava muita atenção. O sr. Leon tinha uma cabeça minúscula, que mais parecia um pote. A calva, reforçada pelo brilho sarcástico do pince-nez, avançava sobre a mesa. A seu lado, Lena, como um lago, a comportada sra. Wojtys, sentada sobre sua redondez e emergindo dela para supervisionar o jantar com uma espécie de sacrifício cujo significado ainda não consegui captar. Fuks dizia algo de forma pálida, branca, fleumática. Eu comia um pastel. Sentia-me ainda sonolento. Falava-se de poeira, que a estação do ano ainda não começara. Eu perguntava se as noites eram mais frescas. Terminamos o pastel. Apareceu a compota e, após a compota, Katasia trouxe para Lena um cinzeiro com o tampo coberto por uma malha de fios de metal - um eco, um eco frágil daquele estrado (o da cama) sobre o qual repousava uma perna quando entrei no quarto e vi aquele pé, uma parte da perna sobre o estrado da cama etc. etc. O escorregadio lábio de Katasia estava próximo da boquinha de Lena.

Agarrei-me a isso, eu tendo abandonado aquele outro, em Varsóvia, enfiado aqui, iniciante... agarrei-me apenas por um momento, mas Katasia se afastou, Lena empurrou o cinzeiro para o centro da mesa e acendi um cigarro. Alguém ligou o rádio. O sr. Wojtys tamborilou com os dedos no tampo da mesa e cantarolou uma melodia, algo como Trá-lá-lá, mas parou, tamborilou novamente, novamente cantarolou e parou. O ar estava abafado. O cômodo era pequeno demais. A boca de Lena fechando e abrindo, sua timidez... e nada mais. Boa noite. Subimos.

Estávamos nos despindo e Fuks voltou a se queixar de seu chefe, Drozdowski. Com a camisa na mão, queixava-se de forma pálida, branca, ruiva, que Drozdowski, que de início tudo estava às mil maravilhas, que as relações se deterioraram, que de uma forma ou de outra comecei a irritá-lo, imagine, meu irmão, que eu o irrito e que basta que eu mova um dedo para irritá-lo, se você é capaz de compreender uma coisa dessas, enervar o chefe, sete horas, ele não me suporta, está evidente que ele faz de tudo para não olhar para mim, sete horas, e quando, por acaso, nossos olhares se cruzam ele desvia o seu, como se o meu o queimasse, sete horas! Eu já nem sei - continuava Fuks, com os olhos fixos em seus sapatos - se não deveria cair de joelhos e implorar, senhor Drozdowski, peço desculpas, peço desculpas! Mas de quê? Para falar a verdade, ele não faz isso por mal, eu realmente o irrito, meus colegas me aconselham a ficar calado, evitar ser visto por ele, mas - arregalou para mim seus olhos de peixe-morto, melancolicamente -, mas, como evitar que nossos olhares se cruzem quando ficamos juntos sete horas na mesma sala? Basta que eu tussa de leve, mexa com o braço, e ele já tem urticária. Será que eu cheiro mal? E essas lamentações do rejeitado Fuks ligavam-se à minha partida de Varsóvia, de má vontade, desdenhoso, ambos, eu e ele, desprovidos de... aversão... e neste quarto alugado, ignoto, numa casa sem escolha prévia, encontrada por acaso, despíamo-nos como dois exclusos, repelidos. Ainda falamos um pouco sobre os Wojtys, de como o ambiente era familiar, adormeci. Acordei. Noite. Tudo escuro. Passaram-se alguns minutos até que eu, costurado nos lençóis, me desse conta de que estava num quarto com um armário, uma mesinha e uma garrafa d’água, e pudesse me orientar por intermédio da posição das janelas e da porta - algo que consegui graças a um intenso e silencioso esforço mental. Hesitei por bastante tempo quanto ao que fazer em seguida, dormir ou não dormir... não estava com vontade de dormir, mas também não estava com vontade de me levantar, portanto fiquei quebrando a cabeça: levantar, dormir, continuar deitado. Por fim, tirei uma perna debaixo das cobertas e sentei-me na cama, e quando sentei vislumbrei a mancha clara da cortina da janela e, aproximando-me dela descalço, suspendi uma de suas abas. Lá, atrás do jardinzinho, atrás da cerca, atrás da estrada, lá era o lugar onde pendia o pardal enforcado no meio de galhos entrelaçados, sobre a terra escura na qual havia pedaços de cartolina, de chapa de aço, de madeira, lá onde as pontas dos pinheiros brilhavam sob um céu estrelado. Abaixei a cortina, mas não voltei ao meu lugar, pois me veio à mente a possibilidade de estar sendo observado por Fuks.

De fato, não dava para ouvir sua respiração... e se ele não estivesse dormindo, então me vira espiar pela janela... o que não seria algo fora do comum, não fosse a noite e o pássaro, um pássaro no meio da noite, um pássaro com a noite. Pois era evidente que o meu olhar pela janela tinha algo a ver com o pássaro... e isso me envergonhou... mas o silêncio tão demorado e tão profundo transformou-se rapidamente na certeza de que ele não estava no quarto; sim, ele não estava, não havia ninguém em sua cama. Afastei a cortina, e o brilho de uma miríade de estrelas me revelou um lugar vazio, lá onde deveria estar Fuks. Para onde teria ido?

Ao banheiro? Não, o murmúrio da água que vinha de lá era solitário. Então... teria ido para junto do pardal? Não sei por que esse pensamento me veio à cabeça, mas logo percebi que isso era impossível. Verdade que ele poderia ter ido, o pardal despertara seu interesse e ele, no meio do mato, andou procurando por uma explicação, e suas fuças ruivas e fleumáticas eram apropriadas para esse tipo de exploração; era algo que combinava com ele... ficar matutando, esquematizando, quem enforcou, por que enforcou... era até possível que um dos motivos de ele ter escolhido esta casa tenha sido aquele pardal (esse pensamento, embora forçado, se mantinha como uma idéia subjacente, em segundo plano), o fato era que ele acordou, ou nem mesmo chegou a dormir, foi tomado pela curiosidade, levantou-se e saiu, talvez para confirmar algum detalhe e olhar em volta no meio da noite?... estaria ele brincando de detetive?... Eu estava inclinado a acreditar nisso. Cada vez mais estava inclinado a acreditar nisso. Aquilo não me ameaçava, mas teria preferido que nossa estada na casa dos Wojtys não tivesse começado com tais escapadas noturnas e, além disso, me irritou o fato de o pardal emergir novamente, intrometendo-se entre nós dois, pavoneando-se e dando-se ares de uma importância maior do que de fato tinha - e caso aquele idiota tenha ido, realmente, até ele, então o pardal se tornaria um personagem que recebe visitas! Sorri. E agora? Não sabia o que fazer, mas também não estava com vontade de voltar para a cama. Vesti as calças, entreabri a porta que dava para o corredor e pus a cabeça para fora. Vazio e mais fresco; à esquerda, a escuridão era menor, onde começavam as escadas, havia ali uma pequena janela, fiquei escutando, mas nada... Fui até o corredor, porém não me agradava a idéia de que ele saíra silenciosamente e que agora eu estava saindo silenciosamente... em suma, aquelas duas saídas não eram algo tão inocente... E quando abandonei o quarto recriei na mente a planta baixa da casa, a disposição dos cômodos, a combinação das paredes, passagens, móveis e até pessoas... coisas que eu não conhecia e com as quais apenas começava a me familiarizar.

Mas eis que estou no corredor de uma casa desconhecida, no meio da noite, vestido apenas de camisa e calças. Teria isso algo de sensual e até de lúbrico, da mesma lubricidade do lábio de Katasia... onde ela dormia? Dormia? Quando me fiz essa pergunta, transformei-me de imediato em alguém andando no corredor em direção a ela no meio da noite, descalço, de calças e camisa, a sua pequenina e quase imperceptível dobra lúbrica do lábio reptiliano, quase, quase, à imagem daqueles outros, em Varsóvia, dos quais me separei com repugnância, me impulsionou friamente para a sua indecência que, ali, em algum lugar daquela casa adormecida... Onde será que ela dormia? Dei alguns passos à frente, cheguei até a escada e olhei pela janelinha, a única do corredor que dava para o outro lado da casa, o lado oposto à estrada e ao pardal, onde se via um grande espaço cercado por um muro e iluminado por um enxame de estrelas, além de um outro jardinzinho com trilhas de cascalho e míseras arvorezinhas avançando para um terreno vazio com uma pilha de tijolos e uma cabana... Mais à esquerda, colado à casa, havia algo como um anexo - na certa a cozinha e a lavanderia -, quem sabe Katasia não ninasse lá a dobra buliçosa de sua boquinha?...

O brilho das estrelas numa noite sem lua - algo estupendo - revelava constelações, algumas conhecidas, como a Ursa Maior, eram fáceis de ser identificadas. Outras, menos conhecidas, também estavam à espreita, como se inscritas entre as estrelas principais. Eu tentava traçar as linhas que formavam suas figuras... e o esforço de reconhecê-las, de delinear aqueles mapas, me cansou; desviei o olhar para o jardinzinho, mas lá também logo me cansou a quantidade de objetos, como uma chaminé, um cano, a dobra da calha, a cornija do muro, uma arvorezinha, ou ainda combinações de objetos, como a curva e o gradual desaparecimento da trilha, o ritmo das sombras... e, meio a contragosto, também comecei a formar figuras, fazer combinações, mas sem empenho; estava entediado e impaciente, até me dar conta de que aquilo que me atraía naqueles objetos era - é difícil de explicar -, não eram eles em si, mas o que havia "além", "por trás"... era que um objeto estava "atrás" do outro: o cano detrás da chaminé, o muro detrás do canto da cozinha, como... como... os lábios de Katasia atrás da boquinha de Lena no momento em que lhe passara o cinzeiro com o trançado de aço durante o jantar, inclinando-se sobre Lena e aproximando seus lábios lúbricos da.... Espantei-me mais do que devia; de modo geral, eu estava um tanto predisposto a exageros, além do mais as constelações, aquela Ursa Maior etc., eram algo cerebral, exaustivo; pensei: "Como? Bocas juntas?" e o que mais me espantou foi que aquelas bocas - tanto de uma quanto da outra - agora, na minha imaginação, na minha lembrança, estavam mais ligadas do que então, à mesa; cheguei a sacudir a cabeça, como se quisesse despertar de um sonho, mas graças a isso a união dos lábios de Lena com os de Katasia tornou-se mais clara, de modo que sorri, pois a dobra do lábio de Katasia, sua fuga para a imundice libidinosa, não tinha nada, mas nada mesmo, a ver com a semiabertura e o virginal cerramento dos lábios de Lena, exceto o fato de ambos estarem "relacionados entre si" - como num mapa... num mapa, uma cidade está relacionada com outra; de qualquer forma, o conceito de um mapa fixou-se em minha mente, mapa do céu, ou simples mapa com cidades etc. Essa "conexão" toda não era, na verdade, uma conexão, tratava-se, simplesmente, de uma boca vista em relação a outra, num sentido de distância, direção, posicionamento... nada mais do que isso... mas, agora, ao calcular que a boca de Katasia estava, certamente, nas proximidades da cozinha (perto de onde ela dormia), eu pensava também onde e a que distância poderia se encontrar a boquinha de Lena. E que, naquele corredor, o meu frio-lúbrico anseio por Katasia sofrera um desvio por causa daquela intromissão inesperada de Lena.

E tudo vinha acompanhado por uma crescente distração. Não era de espantar: uma exagerada concentração num objeto leva à distração; aquele único objeto encobre todo o resto, ao fixarmos o olhar em apenas um ponto num mapa, sabemos que nos escapam todos os demais pontos. Com os olhos fixos no jardinzinho, no céu e na dualidade do "atrás" das bocas, eu sabia que algo me escapava... algo importante... Fuks! Onde ele teria se metido? Estava "brincando de detetive"? Eu torcia para que aquilo não terminasse numa grande confusão! Estava descontente por ter de ficar no mesmo quarto daquele Fuks que mais parecia um peixe e a quem eu pouco conhecia... Mas ali, diante de mim, havia o jardinzinho, as arvorezinhas, as trilhas que iam até o terreno com os tijolos, até o muro que era indescritivelmente branco. Só que, desta vez, tudo aquilo junto revelou-se para mim como um sinal visível do que eu não vira, do outro lado da casa, onde também havia um jardinzinho, depois cerca, estrada e, atrás dela, mato... e a tensão do céu estrelado juntou-se à tensão do pássaro enforcado. Será que Fuks estava com ele, o pardal?

Pardal! Pardal! Na verdade, nem Fuks nem o pardal me interessavam; a boca, ela sim, era muito mais interessante... era em que eu pensava, na minha distração... portanto, abandonei o pardal para me concentrar na boca e, com isso, formou-se algo parecido com uma cansativa partida de tênis, em que o pardal me atirava para a boca, e a boca me atirava para o pardal, ficando eu encurralado entre o pardal e a boca, um encobrindo o outro; bastava eu chegar avidamente a uma boca, como se a tivesse perdido, para saber que além deste lado da casa havia um outro lado, que além da boca havia o solitário pardal pendurado num arame... E o mais desagradável era que o pardal não permitia ser colocado no mesmo mapa que a boca, não fazia parte dele, pertencia a outra zona de atividade, além de ser incidental, totalmente fora de contexto - portanto, com que direito ele se meteu aqui? Ele não tinha o direito de fazer isso!... Não, não tinha o direito! Não tinha o direito? Quanto menor a justificativa, mais se intrometia, mais incomodava e mais difícil era se desvencilhar dele - se ele não tinha esse direito, estava ainda mais claro que estava ali para me incomodar.

Fiquei por mais um tempo no corredor, entre o pardal e a boca. Depois, voltei para o quarto, me deitei e, em menos tempo do que imaginava, adormeci.

No dia seguinte, depois de tirar os livros e os papéis da mala, pusemo-nos a trabalhar. Não perguntei o que ele andou fazendo durante a noite. Também não me agradava relembrar minhas próprias aventuras no corredor; sentia-me como alguém que caíra no exagero e que, agora, estava um tanto sem graça, mas Fuks também tinha uma expressão indecifrável, e em silêncio se ocupou de seus cálculos, que exigiam uma grande dose de concentração, com um monte de papeizinhos, alguns até com logaritmos, cuja finalidade era desenvolver um sistema para jogar na roleta, um sistema que ele, sem sombra de dúvida, sabia que não passava de algo totalmente inútil, mas ao qual dedicava todas as suas energias, já que não tinha nada mais a fazer, não tinha nada melhor com que se ocupar e sua situação era desesperadora - em duas semanas suas férias terminariam e ele teria que voltar para o escritório e para Drozdowski, que faria esforços sobre-humanos para não olhar para ele, mas isso não resolveria nada, pois, mesmo que ele cumprisse rigorosamente suas tarefas, isso seria ainda mais insuportável para Drozdowski... Ele se desmanchou em bocejos, seus olhos se transformaram em duas fendas e Fuks já nem se queixava mais, sendo apenas como ele era, indiferente. O máximo que fazia era repreender-me por minhas trapalhadas com a minha família, que está evidente, como você pode ver, cada um tem os seus problemas, você também tem pessoas que o azucrinam, que merda, lhe digo, é uma desgraça sem fim, tudo não passa de um blefe!

À tarde, pegamos um ônibus para Zakopane e fizemos algumas compras. Chegou a hora do jantar, que eu aguardava ansiosamente, pois queria ver Lena e Katasia, Katasia e Lena depois da noite anterior. Até então, não pensara nelas; primeiro vê-las mais uma vez, depois pensar.

Mas que reviravolta!

Ela era casada! O marido apareceu quando já estávamos jantando e, agora, inclinava sobre o prato o seu nariz comprido, enquanto eu olhava com atenção, com enorme curiosidade, esse parceiro erótico. A confusão mental... não que eu estivesse com ciúmes, só que ela estava diferente, totalmente transformada por aquele homem, tão estranho para mim e, no entanto, tão envolvido nessa junção de boquinhas - era evidente que estavam casados havia pouco tempo: ele pegava em sua mão e olhava seus olhos. Como era ele? Um homem grande, de físico agradável, um tanto pesado, suficientemente inteligente, um arquiteto ocupado na construção de um hotel. Falava pouco, pegava rabanetes - mas como ele seria de fato? Como seria? E como seria com ela, a dois, sozinhos, o que ele com ela, o que ela com ele, o que eles os dois?... ugh, deparar-se assim com um homem ao lado da mulher que nos interessa não é algo agradável... mas o pior é que esse homem, totalmente desconhecido para nós, de repente torna-se objeto da nossa - compulsória - curiosidade, e precisamos tentar adivinhar seus mais ocultos gostos e desejos... mesmo que isso nos seja profundamente desagradável... temos que avaliar esse homem através daquela mulher. Não sei o que teria preferido: que ela, uma pessoa atraente, se tornasse repulsiva através dele, ou que se tornasse também sedutora através daquele homem que ela escolhera - ambas as possibilidades eram horríveis!

Será que eles se amavam? Seria um amor apaixonado? Racional? Romântico? Fácil? Difícil? Será que não se amavam? Aqui, à mesa, na presença da família, demonstravam um carinho despreocupado, e não convinha ficar olhando muito, apenas se pode deslizar o olhar, é preciso adotar aquele sistema de comportamento "dentro dos limites", sem ultrapassar as linhas demarcatórias... Não podia olhá-lo nos olhos, as minhas perscrutações, ardentes e até repugnantes, precisavam se limitar à mão que jazia na mesa, diante de mim e perto da mão dela. Era uma mão grande, limpa, com dedos não desagradáveis, de unhas aparadas... eu olhava para ela e ia ficando cada vez mais furioso com a minha necessidade de penetrar nas possibilidades eróticas dessa mão (como se eu fosse ela, Lena). Não descobri nada. Sim, a mão tinha uma aparência decente, mas qual o significado de uma simples aparência? Tudo depende do toque (eu pensava), da forma como ele toca, e pude imaginar claramente o toque entre eles, um toque decente, ou indecente, ou dissoluto, selvagem, furioso, ou simplesmente conjugal - e nada, nada mesmo, podia ser deduzido, pois por que razão mãos bonitas não poderiam se tocar de uma forma horrível, até grotesca? Onde estava a garantia disso? É muito difícil pensar que uma mão tão sã, decente, possa se permitir tais liberdades... porém basta imaginar que "não obstante" ela se permite, e esse "não obstante" se torna mais uma depravação. E já que eu não podia ter nenhuma certeza sobre as mãos, o que dizer das pessoas que estavam num outro plano, lá onde eu quase não ousava olhar? E eu sabia que bastava um simples, clandestino e quase imperceptível entrelace do dedo dele com o dedo dela para que as suas personas se tornassem licenciosas, embora ele, Ludwik, estivesse dizendo, naquele exato momento, que trouxera fotografias que ficaram ótimas e que as mostraria logo após o jantar...

- Que fenômeno cômico - concluía Fuks o seu relato de como, no nosso caminho para cá, tínhamos encontrado um pardal no meio do mato. - Um pardal enforcado! Isso já é demais!

- Já é demais; efetivamente, já é demais! - concordou, muito educado, o sr. Leon e, sendo uma pessoa afável, o fez com prazer. - Já é demais, imaginem os senhores, trá-lá-lá, mas que sadismo!

- Um ato de vandalismo - sentenciou curta e definitivamente a Redonda, removendo um fio solto da manga do casaco do marido, que concordou com prazer:

- Puro vandalismo.

Ao que a Redonda:

- Você sempre tem que me contradizer!

- Mas, minha querida, é isso que estou dizendo: vandalismo!

- E eu digo que é vandalismo! - exclamou ela, como se ele tivesse dito algo diferente.

- Pois foi o que acabei de dizer: vandalismo...

- Você já nem sabe o que diz!

Ajeitou a ponta do lenço que saía do bolso superior do paletó do marido.

Katasia emergiu da copa para retirar os pratos, e seu lábio recurvado, lúbrico, fugidio apareceu na vizinhança da boca que se encontrava à minha frente. Era o momento pelo qual eu aguardara ansiosamente, mas ocultava minha ansiedade, desviava o olhar para não influenciar o que quer que fosse, não me envolver... para que a experiência se realizasse de forma objetiva. A boca, imediatamente, passou a "se relacionar" com a boca... e eu via como, ao mesmo tempo, seu marido lhe dizia algo e o sr. Leon também se intrometia, e Katasia andava atarefada, enquanto a boca se relacionava com a boca, como a estrela com a estrela, e aquela constelação de bocas corroborou minhas escapadas noturnas que eu já queria deixar para trás... mas a boca com boca, a tal repugnante dobra escorregadia evadindo-se do suave e macio abre-e-fecha... como se houvesse alguma coisa em comum entre elas! Fui tomado de um trêmulo espanto, o de que as bocas, nada tendo em comum, tinham, no entanto, algo de comum; tal fato me atordoava e, principalmente, me afundava cada vez mais num inacreditável estado de distração - e isso era propagado pela noite, como que embebido no que ocorrera ontem, tenebroso.

Ludwik limpou a boca com o guardanapo e, depois de dobrá-lo metodicamente (ele parecia muito arrumado e limpo, só que aquela limpeza poderia ser, apesar de tudo, suja...), disse, com sua voz de baixo-barítono, que ele, há cerca de uma semana, também vira uma galinha pendurada numa das trilhas, mas que não dera maior importância ao fato, sendo que a galinha desaparecera alguns dias depois.

- Que coisa mais prodigiosa - espantava-se Fuks -, pardais enforcados, galinhas penduradas, não será isso uma indicação de que o mundo está para acabar? De que altura pendia a galinha? Longe da estrada?

Fazia essas perguntas porque Drozdowski não o suportava, porque ele odiava Drozdowski, porque não tinha o que fazer... Comeu um rabanete.

- Vandalismo - repetiu a Redonda. Arrumou o pão dentro do cesto, num gesto de competente dona de casa e distribuidora de alimentos. Soprou fora as migalhas. - Uns vândalos! Está cheio de crianças fazendo o que bem entendem!

- É isso mesmo! - concordou o sr. Leon.

- O cerne da questão - observou timidamente Fuks - é que, tanto o pardal quanto a galinha foram pendurados à altura do braço de um adulto.

- O quê? Se não foram moleques, então quem foi? O senhorzinho acha que se trata de algum maníaco? Nunca ouvi falar de um maníaco nesta região.

Cantarolou trá-lá-lá e, com grande concentração, começou a fazer bolinhas de miolo de pão - arrumava-as em fileiras sobre a toalha e observava.

[…]

 
 
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