Alguém
para Correr Comigo,
de David Grossman (tradução de George Schlesinger; Companhia das
Letras; 440 páginas; 49 reais) Nome consagrado da literatura israelense
contemporânea, Grossman conhecido no Brasil por Ver: Amor
apresenta nesse romance um ângulo inusitado de Jerusalém. A cidade
sagrada de judeus, cristãos e muçulmanos é vista do seu submundo,
no qual se abrigam jovens drogados e moradores de rua. Assaf, um rapaz de 16 anos
que nas férias trabalha para a prefeitura de Jerusalém, é
encarregado de encontrar o dono de um cachorro. Depois de muita correria atrás
do animal fujão, Assaf acaba se juntando a Tamar, uma menina que busca
libertar seu irmão de uma organização criminosa que escraviza
artistas de rua. Leia
trecho Um
cão galopa pelas ruas, e atrás dele corre um rapaz. Uma longa corda
une os dois e se embaraça nas pernas das pessoas, que ficam passando de
um lado a outro, e se irritam e xingam; o rapaz murmura sem parar: "Desculpe,
desculpe", e, em meio às desculpas, grita para o cachorro: "Pare!
Stop!", e uma vez, cúmulo da vergonha, escapa-lhe também um
"Porra!". E o cachorro continua correndo. Ele
voa, cruza ruas cheias de tráfego e ultrapassa sinais fechados. Seu pêlo
amarelo some da vista do jovem e reaparece entre as pernas dos transeuntes, como
sinais de um código. "Mais devagar", grita o rapaz, e pensa que
poderia chamá-lo pelo nome se soubesse qual é, e talvez então
o cão parasse de correr, ou ao menos diminuísse a velocidade; mas,
no fundo do coração, ele sente que ainda assim o cachorro continuaria
correndo e, mesmo que a corda aperte seu pescoço até sufocar, ele
vai correr desenfreadamente até o local aonde quer chegar, e tomara que
cheguemos mesmo, e que ele finalmente me solte. Tudo
isso acontece numa época não muito boa. O jovem, Assaf, corre para
a frente, mas seus pensamentos ficam para trás, encalhados; ele não
quer pensar, precisa se concentrar totalmente na correria do cachorro, sente que
os pensamentos vão se arrastando atrás dele como uma corrente de
latas enferrujadas. A lata da viagem de seus pais, por exemplo. Neste exato momento
estão sobrevoando o oceano, pela primeira vez na vida viajam de avião,
afinal por que tiveram de viajar tão de repente? E a lata da sua irmã
mais velha, em quem ele simplesmente tem medo de pensar, pois dali só saem
problemas; e há outras latas, pequenas e grandes, que ficam batendo umas
nas outras dentro de sua cabeça, e, lá no final da corrente, vai
se revirando a lata que se arrasta atrás dele já há duas
semanas; o som que ela faz o deixa maluco, é um ruído infernal,
insistindo que ele tem de se apaixonar loucamente por Dafi, pois, afinal, por
quanto tempo é possível adiar? E Assaf sabe que precisa parar um
momento, ajeitar um pouco a irritante corrente de latas, mas o cachorro tem outros
planos. "Que
inferno!", geme Assaf, pois um momento antes de a porta se abrir e o chamarem
para ver o cachorro, ele estava perto, muito perto, do lugar preciso e exato da
paixão por ela, Dafi. Chegara a sentir como finalmente atingia seu ponto
de recusa no fundo do estômago, a voz calma e suave que lhe sussurrava:
ela não é para você, essa Dafi, ela só pensa em ferrar
os outros, passar por cima de todo mundo, especialmente de você; por que
você precisa continuar com essa encenação boba, noite após
noite? E então, quando estava quase conseguindo silenciar a voz provocadora,
abriu-se a porta da sala onde, na última semana, ficava todo dia das oito
às quatro; no vão da porta estava Abram Danoch, magro, moreno e
amargurado, vice-diretor do Departamento de Saúde Pública da prefeitura,
mais ou menos amigo do seu pai; fora ele quem lhe arranjara trabalho para todo
o mês de agosto. Disse-lhe para deixar de ser preguiçoso, e vir imediatamente
junto com ele até o canil, pois até que enfim havia trabalho para
Assaf. Danoch
caminhava depressa, explicando algo sobre um cachorro, e Assaf não prestou
atenção; geralmente precisava de alguns segundos para passar de
uma situação a outra. Foi se arrastando atrás de Danoch ao
longo dos corredores da prefeitura, por entre pessoas que vieram pagar taxas e
impostos, ou se queixar de vizinhos que haviam feito construções
sem alvará, e desceu atrás dele a escada de emergência em
direção ao pátio dos fundos. Tentou sentir dentro de si se
já havia conseguido eliminar o último ponto de oposição
a Dafi, e o que diria à noite a Roy, que exigia que ele deixasse as indecisões
de lado e começasse a se comportar como homem. E, mesmo de longe, já
conseguia ouvir os latidos agressivos e insolentes, e se assustou, pois geralmente
todos os cães latiam juntos, às vezes o coro deles chegava a perturbar
seus sonhos no terceiro andar. Agora havia apenas um cachorro latindo. Danoch
abriu uma portinhola na cerca, deu meia-volta e disse a Assaf alguma coisa difícil
de entender por causa dos latidos, abriu uma segunda portinhola e, com um gesto,
indicou-lhe que entrasse e percorresse a estreita trilha entre os cercados dos
cachorros. Era
impossível enganar-se. Era impossível pensar que Danoch trouxera
Assaf por causa de algum outro cão. Havia ali oito ou nove cães,
cada um deles trancado no seu próprio cercado, mas na verdade havia um
único cachorro, era como se ele sugasse para dentro de si todos os outros,
deixando-os silenciosos e ligeiramente assustados. O cão não era
muito grande, mas era vigoroso e feroz, e estava visivelmente desesperado. Assaf
jamais tinha visto tal desespero num cão. Jogava-se seguidamente contra
a cerca de arame, e toda a fileira de cercados tremia e balançava, e então
ele emitia um som alto e assustador, uma estranha mistura de uivo e lamento. Os
outros cães, em pé ou deitados, o fitavam em silêncio, com
perplexidade e até mesmo reverência. Assaf teve uma sensação
estranha, de que se visse um comportamento desse em algum ser humano se sentiria
obrigado a ir ajudá-lo, ou teria de sair dali para que a pessoa pudesse
ficar sozinha com suas preocupações. Nos
curtos intervalos entre os latidos e as furiosas investidas contra o cercado,
Danoch fala depressa, em voz baixa. Um dos fiscais trouxe o cachorro anteontem
de uma batida no centro da cidade, ao lado da praça Zion. No começo,
o veterinário achou que se tratava de um estágio inicial de raiva,
mas não havia nenhum sintoma e, com exceção da sujeira e
de algumas feridas localizadas, o estado geral era saudável. Assaf repara
que Danoch fala pelo canto da boca, como se quisesse ocultar alguma coisa do cachorro
a quem se refere: "Ele está desse jeito já faz quarenta e oito
horas", murmura Danoch, falando para o lado, "e a bateria ainda não
descarregou. Que belo animal, hein?", acrescenta, e se empertiga um pouco
quando o cão lança um olhar, "não é um simples
cachorro de rua". "Mas
quem é o dono?", pergunta Assaf, e logo se arrepende, pois o cão
se atirou de novo contra a grade e acirrou o alarido no canil. "É
exatamente isso", choraminga Danoch, debatendo-se na sua aflição,
"é exatamente isso que você vai ter de descobrir." "Mas
como?", assustou-se Assaf. "Onde é que vou achar o dono?"
E Danoch responde que no instante em que esse cão—e usa a palavra em árabe,
como um xingamento—sossegar um pouco, a gente pergunta a ele. Assaf olha sem entender,
e Danoch diz que simplesmente fariam o que sempre se faz em situações
como essa, amarramos o cão numa corda deixando que ele se vá, e
vamos atrás durante algum tempo, uma, duas horas, e ele próprio
nos conduz diretamente até os seus donos. Assaf
julgou que era pilhéria, quem já ouviu uma coisa dessa? Mas Danoch
tirou do bolso da camisa um papel dobrado, e disse que, antes de entregar o cachorro,
era muito importante fazer que os donos assinassem aquele formulário, o
modelo 76. Ponha no bolso, Assaf, e cuide para não perder, a verdade é
que você me parece um pouco desnorteado, pois é fundamental você
explicar a ele, o prezado dono do cão, que a multa anexa—uma multa de cento
e cinqüenta paus, e é multa ou processo—ele é obrigado a pagar,
primeiro porque a responsabilidade de cuidar do cachorro é dele, e talvez
com isso aprenda a lição, e segundo, como uma indenização
mí-ni-ma (Danoch mastigou com prazer cada sílaba) por toda a confusão
e perturbação que causou à prefeitura, e pelo tempo perdido
por uma força de trabalho es-pe-cia-li-za-da! E agarrou Assaf com força
pelo cotovelo dizendo que, após encontrar os donos do cachorro, ele poderia
voltar à sua sala no Departamento de Águas, e continuar ali se coçando
até o fim das férias de verão, por conta dos contribuintes. "Mas
como é que eu posso…", objetou Assaf, "olhe só para ele…
ele parece meio louco…" E
então aconteceu: o cão ouviu a voz de Assaf. Parou de repente. Cessou
de investir contra o cercado. Aproximou-se devagar e fitou Assaf. Suas costelas
ainda arfavam intensamente, mas os movimentos se tornaram mais vagarosos, seus
olhos pareciam muito profundos e concentrados. Virou a cabeça para o lado,
como se estivesse considerando o comentário de Assaf, e Assaf pensou que
o cão ia abrir a boca para dizer numa voz perfeitamente humana: Louco é
você! O
cão se ajoelhou e em seguida se deitou sobre a barriga, inclinou a cabeça,
e suas patas dianteiras se enfiaram debaixo do cercado, num movimento de cavar,
como se estivesse suplicando, e da sua garganta escapou um som novo, fino e agudo,
como um choro de filhote, ou de criança. Assaf
se agachou diante dele, do outro lado do cercado. Ele o fez sem perceber. Até
mesmo Danoch, sujeito duro, que havia arranjado o trabalho para Assaf sem muito
prazer, sorriu levemente ao ver como Assaf se ajoelhou num piscar de olhos. Assaf
olhou para o cão e falou calmamente com ele: "A quem você pertence?
O que aconteceu com você? Por que está tão agitado?".
Falou devagarinho, deixando espaço para as respostas, sem perturbar o cão
com olhares prolongados demais. Ele sabia—o namorado de sua irmã Réli
lhe havia ensinado—a diferença entre falar para o cão e falar com
o cão. O cão resfolegava, permanecia deitado, e então, pela
primeira vez, pareceu frágil, cansado, menor do que parecera até
então. Finalmente fez-se silêncio no canil, e os outros cães
começaram a circular em seus cercados e voltar à vida. Assaf enfiou
um dedo por uma das brechas do cercado e tocou sua cabeça. O cão
não se mexeu. Assaf acariciou com o dedo o pêlo, que estava sujo
e pegajoso. O cão começou a choramingar intensamente, incessantemente,
como se estivesse ansioso. Como se precisasse contar alguma coisa para alguém,
algo que não conseguia mais guardar só para si. Sua língua
vermelha tremia, seus grandes olhos cheios de ansiedade. E,
por causa desse momento, Assaf não discutiu mais com Danoch, que rapidamente
aproveitou a calma do cachorro, entrou no cercado e amarrou uma corda comprida
à coleira laranja, oculta no emaranhado de pêlos. "Vamos,
pegue-o", ordenou Danoch, "agora ele irá com você como
um bonequinho", e recuou um pouco ao ver de repente o cão do lado
de fora do cercado, como se, de um momento para o outro, ele tivesse se livrado
de todo o cansaço e submissão, olhando para os lados com irritação
renovada e farejando o ar como se tentasse escutar alguma voz longínqua.
"Veja só, vocês dois já estão se entendendo",
Danoch tentava convencer a Assaf e a si mesmo. "Você só precisa
tomar cuidado quando estiver andando com ele pela cidade, eu prometi ao seu pai."
As últimas palavras sumiram na sua garganta. Nesse
ínterim, o cão tinha ficado concentrado e alerta. Sua expressão
se tornara aguçada, e por um momento ele pareceu um lobo. "Escute",
murmurou Danoch com um leve remorso, "tudo bem se eu mandar você com
ele desse jeito?" Assaf não respondeu. Apenas observou surpreso a
mudança que ocorrera no cachorro ao se ver livre. Danoch o agarrou de novo
pelo cotovelo: "Você é um rapaz forte, e sabe disso, é
mais alto que eu e que seu pai; vai conseguir controlá-lo, não vai?". Assaf
quis perguntar o que deveria fazer se o cão não o conduzisse ao
dono, e até quando teria de ficar correndo atrás dele, (no refeitório,
sobre a mesa, estavam à sua espera os três sanduíches do almoço);
e se o cachorro tivesse brigado com os donos, e não tivesse a menor intenção
de voltar para casa… Essas
perguntas não foram feitas naquele momento, nem nunca mais. Assaf não
voltou a se encontrar com Danoch naquele dia, e tampouco nos dias seguintes. Às
vezes é tão fácil determinar o instante exato em que algo—a
vida de Assaf, por exemplo—começa a se modificar, inconscientemente, irreversivelmente,
para sempre. Pois
assim que a mão de Assaf se fechou em torno da corda, o cão se arrancou
de seu lugar com um impulso súbito, arrastando Assaf consigo. Danoch esticou
o braço, assustado, conseguindo ainda dar um ou dois passos atrás
do impotente Assaf, chegando mesmo a correr atrás dele—mas tudo isso não
adiantou nada. Assaf já percorria velozmente o estreito corredor da prefeitura,
tropeçando pelos degraus, saindo desenfreado para a rua. Depois colidiu
contra um carro estacionado, contra uma lata de lixo, contra os transeuntes. Ele
corria… |