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Preto no Branco, de George Pelecanos (tradução de Beth Vieira; Companhia das Letras; 360 páginas; 39,50 reais) – Pelecanos ganhou seu lugar entre os melhores nomes da ficção policial americana com livros de enredo eletrizante e temática política ou social. Preto no Branco tem a tensão racial das grandes cidades americanas como pano de fundo. O detetive Derek Strange, herói habitual dos livros do autor, resolve quebrar a regra que estabeleceu para sua agência – não investigar assassinatos – para se dedicar a um caso difícil: a morte de um negro por um policial branco, durante um tiroteio em Washington. A grande questão é saber se o crime foi ou não cometido por preconceito.

Leia trecho

Trecho 1

O que preocupava Derek Strange, vendo Jimmy Simmons ali sentado em frente a sua escrivaninha, com as banhas saltando para fora da cadeira, era que ele pegasse algum badulaque do tampo da mesa e atirasse longe. Ou então que se pusesse a berrar feito um danado de um bebê. Strange não saberia dizer qual das duas alternativas seria a pior. Havia objetos naquela mesa que significavam um bocado para ele: presentes recebidos ao longo dos anos de determinadas mulheres, provas de gratidão por parte de clientes e um ou dois suvenires do Redskins ainda dos anos sessenta. Mas ver um homem chorar também não era bolinho.

"Me diz de novo, Derek." O lábio de Simmons tremia, e montanhas de água ameaçavam irromper dos cantos dos olhos congestionados. "Me diz de novo que cara tem o filho-da-puta."

"Está tudo no relatório."

"Eu vou matar ele, tá entendendo? E logo depois que eu matar ele, vou acabar com a raça dele de novo."

"O que você tá dizendo não faz muito sentido, Jimmy."

"Quinze anos de casado, de repente a minha mulher resolve dar pra outro cara, e você vem me falar em fazer sentido? Cacete! "

Jimmy Simmons deu um murro no tampo da mesa, bem do lado de um jogador de futebol americano feito de gesso, com a cabeça articulada por uma mola embutida no pescoço. O jogador, originalmente um branco cujo rosto o filho de Janine, Lionel, pintara de marrom-escuro, usava a antiga calça dourada e a malha cor de vinho dos bons tempos e levava uma bola aninhada nos braços. A cabeça bamboleou e o objeto inclinou a partir da base. Strange estendeu o braço mais que depressa, agarrou o jogador do Redskins e endireitou-o antes que tombasse.

"Vai com calma. Se você me quebrar um desses, não vai dar nem pra pôr na conta porque esses bonecos não têm preço, compreendeu?"

"Me desculpe, Derek." Uma lágrima se soltou do olho direito e escorreu pela bochecha gorda. "Que merda."

"Toma aqui, olha." Strange tirou um lenço de papel de uma caixa que havia sobre a escrivaninha e entregou-o a Simmons, que enxugou com certa ternura o próprio rosto. Um gesto delicado para alguém cujos últimos dias pesando menos de cento e trinta quilos eram uma memória distante.

"Eu preciso saber que cara tem o sujeito", insistiu ele. "Preciso saber o nome dele."

"Está tudo no relatório", Strange repetiu, empurrando um envelope de papel pardo por sobre o tampo da mesa. "Mas veja lá, hein? Não me vá tomar nenhuma providência idiota, ouviu bem?"

Simmons abriu o envelope e, com muita cautela e vagar, foi puxando o conteúdo lá de dentro, com a mesma prudência com que uma criança se aproximaria pela primeira vez de um caixão de defunto. Strange acompanhou o movimento dos olhos de Simmons passando pelas fotografias e pelo relatório escrito.

Ele não tinha levado muito tempo para descobrir o que Denice Simmons estava aprontando. Fora pura questão de ficar de campana, um dos servicinhos mais simples, tolos e corriqueiros entre os prestados por sua agência. Seguira Denice duas vezes até o apartamento do namorado, em Springfield, Virgínia, e aguardara na rua até ela sair e voltar para casa, no centro de Washington. Na terceira, um domingo à noite em que Jimmy Simmons estava em Atlantic City, participando de uma feira de eletrônica, fez campana como nas outras ocasiões, esperou que ela saísse, mas nem sinal de Denice. Quando as luzes se apagaram na janela do terceiro andar, onde o sujeito morava, Strange percebeu que não precisava mais de prova nenhuma. Preencheu a papelada pela manhã, foi buscar as fotos que tinha mandado revelar num serviço de entrega rápida e convocou Jimmy Simmons para ir ao escritório no mesmo dia.

"Faz quanto tempo?", perguntou o marido, sem erguer os olhos dos documentos.

"Uns três meses, eu diria."

"Como é que você sabe?"

"Por acaso a Denice tinha mais algum assunto pendente por aquelas bandas?"

"Ela trabalha aqui em Washington. Não tem nenhum amigo em Virgínia..."

"Então. Lembra daquelas contas do cartão de crédito que você me forneceu? Há uns três meses, três meses e meio, a Denice vem pondo gasolina num posto de lá, perto da estação Franconia. O posto fica a um quilômetro e meio, se tanto, do apartamento do nosso garotão."

"E eu que pensei que ela fosse mais esperta." Simmons quase esboçou um sorriso de afeto. "A Denice nunca curtiu pagar o próprio combustível. Sempre abastece no cartão, assim quem paga sou eu, quando vem a conta. Ela é pão-dura com a grana dela. Gozado uma mulher ser assim. E, mesmo sabendo que quem vai bancar a conta sou eu, ela vai atrás de gasolina barata, ainda que isso signifique ter de dar a maior volta e rodar mais. Aposto que, se você for conferir, aquele posto deve vender gasolina a preço de banana."

"Um dólar e um centavo a comum", disse Strange.

Simmons se levantou da cadeira, a barriga e o rosto bamboleando como se a carne estivesse sendo soprada por uma súbita rajada de vento. "A gente se vê qualquer hora, Derek. E eu acerto com você assim que receber a conta."

"A Janine manda rapidinho."

"Tá bom. E obrigado por tudo."

"Eu detesto quando as coisas acabam desse jeito, Jimmy."

Simmons colocou na cabeçorra imensa um chapelão enfeitado com uma pena vermelha. "Você fez seu trabalho."

Strange continuou sentado em sua sala, esperando ouvir a saída de Simmons. Isso levaria alguns minutos, tantos quantos o cliente gastasse flertando com Janine e Janine se livrando dele. Ouviu a porta da frente fechar. Levantou então de trás da escrivaninha e vestiu um casaco de couro preto acolchoado com uma camada fininha de penugem de ganso. Pegou uma barra de cereais de cima da mesa, que Janine comprara para ele, e enfiou no bolso.

Na recepção, deu uma parada na mesa de Janine Baker. Atrás dela, um terminal de computador exibia um dos muitos sites da internet especializados em buscas. A roupa de cores fortes que ela usava contrastava com a pele escura e sadia. O vermelho do batom realçava o vermelho do vestido. Era uma mulher bonita, de meia-idade, olhar límpido, seios firmes, quadris largos e pernas esguias.

"Dessa vez foi rapidinho", disse ele.

"Ele não estava pra muita brincadeira hoje, não. Disse que eu estava muito bonita, mas..."

"E está mesmo."

Janine corou. "Mas não passou disso. Fiquei com a impressão de que ele estava meio desanimado."

"Eu acabei de dar a notícia. A mulher anda botando chifre nele com um sujeito que trabalha com autopeças. O cara vende bateria pra carro numa Pep Boys que tem no norte de Virgínia."

"Como será que eles se conheceram? Será que ela estava parada, com a bateria arriada, na beira da estrada?"

"Só se o nosso amigo trabalhasse pros bons samaritanos."

"Então quer dizer que o cara encostou pra dar uma faturada?"

"Janine, Janine..."

"Esse é o mesmo sujeito com quem ela andou transando faz uns dois anos?"

"Não, esse é outro. E também não é o mesmo com quem ela andou saindo três anos antes disso."

"E o que ele vai fazer a respeito?"

"Ele me deu uma idéia geral de tudo que pretende fazer com o sujeito. Mas no fim só vai fazer a Denice sofrer um bocadinho. Nada físico, nada que envolva força física. Jimmy jamais encostaria um dedo na mulher. O que eles vão fazer é encenar uma espécie de cerimônia de contrição durante alguns dias, com muito me desculpe pra lá, me perdoe pra cá, mas ele acaba deixando barato. Até surgir o próximo."

"Por que ele continua com ela?"

"Porque gosta dela. E eu acho que ela também gosta do marido. De modo que, ou muito me engano, ou não existe a menor chance pra você e o Grande Jimmy. Desconfio que ele não vai sair de casa tão cedo."

"Não tem importância. Eu espero."

Strange abriu um sorriso. "Assim dá pra ele engordar mais um pouco, né?"

"Se ele engordar mais, nós vamos ter de instalar um daqueles portões de garagem na entrada, caso contrário, ele não passa."

"Se ele engordar mais, o Fat Albert, a Roseanne, a Liz Taylor e o Sinbad é que vão se reunir pra contar piada de gordo pra ele."

"Se ele engordar mais..."

"Olha só que coisa, Janine. Você sabe qual é o nome disso que a gente tá fazendo?"

"Não. Qual é?"

"Fazer as dúzias."

"Não brinca."

"Pois é. Tinha um branco na NPR, ontem, sendo entrevistado a respeito de um livro que ele escreveu sobre a cultura afro-americana. Segundo o sujeito, esse negócio de "do the dozens ", essa gozação, essa achincalhação bem-humorada que a gente faz há gerações é a precursora do rap."

"Quer dizer que até isso tem nome? E eu aqui achando que a gente tava só tirando um sarro do Jimmy."

"Não é brincadeira, não, pode acreditar." Strange abotoou o blusão. "E vê se manda aquela conta pro Simmons, tá?"

"Já entreguei pra ele."

"Você é fantástica, mesmo, Janine. Nem sei por que eu me dou ao trabalho de achar que preciso te lembrar." Strange indicou com a cabeça uma das duas mesas vazias que ficavam em lados opostos da sala. "Por onde anda o Ron?"

"Tentando localizar aquele devedor, o vigarista que deu o golpe de dois mil dólares na velhinha."

"Na que mora numa travessa da Princeton?"

"Justamente. Aonde você vai?"

"Estou indo ver a mãe do Chris Wilson."

Strange atravessou a porta da frente, os ombros largos e musculosos sacudindo de leve sob o couro negro da jaqueta, a cabeça salpicada de cinza, bem como a barba, aparada bem rente.

Voltou-se assim que a mão tocou a maçaneta. "Alguma coisa mais que você queira?" Tinha sentido o olhar de Janine nas costas.

"Não... por quê?"

"Se precisar de mim, ou se o Ron precisar de alguma coisa, me avisa pelo bipe."

Fechou a porta e saiu na calçada da 9th, um trechinho comercial de rua entre a Upshur e a Kansas, quase encostada na Georgia Avenue. Sorriu, pensando em Janine. Tinham se conhecido numa boate dez anos antes, época em que começaram a ter um caso, uma porque ambos queriam que houvesse um caso, e outra porque o caso estava ali dando sopa.

Janine tinha um filho, Lionel, de um casamento anterior, e isso o assustara. Caramba, tudo que envolvesse compromisso o assustava, mas ser o pai de um jovem no mundo atual, isso o assustava mais do que qualquer outra coisa. Apesar dos temores, o tempo que haviam passado juntos parecia ter sido bom tanto para Strange como para Janine, e ele não arredara pé, sabedor de que tudo que é bom também é raro e que, salvo por algum motivo muito forte e imediato, nunca se deve desistir na metade. O caso fora adiante sem tropeços durante vários meses.

Quando perdeu seu gerente, a idéia de contratar Janine lhe veio naturalmente, já que, além de estar desempregada, ela era inteligente e tinha uma aptidão nata para organização. Ambos concordaram em romper o relacionamento amoroso assim que ela assumiu o cargo, e logo depois Janine começou a namorar sério com outro homem. Para Strange, não poderia ter havido saída melhor nem alívio maior, já que aquele namoro lhe permitia escapulir pela porta dos fundos sem fazer alarde, de manso, do jeitinho que gostava de se safar. O tal do namorado largou Janine logo depois.

Não fazia muito tempo, Strange e Janine tinham recomeçado. Mas o relacionamento não excluía a existência de terceiros, pelo menos não da parte dele. E o fato de ele ser o patrão e ela a funcionária não preocupava nem um nem outro, não no sentido ético. O amor que faziam apenas preenchia uma necessidade, e Strange se afeiçoara ao menino. Bem que os amigos disseram que ele estava procurando sarna para se coçar, mas Strange gostava de fato dela. E, depois de tantos anos, Janine ainda conseguia fazer despertar a natureza. Além disso, gostava de provocá-la, de deixar claro que ele sabia que ela continuava interessada. Mantinha as coisas mais animadinhas dentro da rotina sufocante do dia-a-dia.

Ele parou na calçada alguns instantes e olhou para cima, para o luminoso amarelo sobre a porta: "Investigações Strange", com metade das letras das duas palavras aumentadas pela lente de uma lupa. Adorava aquele logotipo. Não passava um dia sequer que não olhasse para aquela placa e, vendo seu nome, não se sentisse quase íntegro.

Construíra o negócio sozinho e fizera algo de positivo no lugar onde nascera. Os meninos do bairro viam um negro girar a chave na fechadura da porta da frente todas as manhãs, e quem sabe isso ficasse registrado em algum lugar lá dentro, quem sabe incutisse algo na cabeça da garotada, quer eles percebessem ou não. Estava no ramo fazia vinte e cinco anos, e os acidentes de percurso tinham sido apenas isso, acidentes de percurso. O negócio era o que ele era. Era ele todo e todo dele.

 

Strange dirigia bem afundado atrás do volante de seu Caprice preto-e-branco, modelo 89, escutando uma fita do Blackbyrds no gravador enquanto descia a Georgia na direção sul. A seu lado, no banco, ia uma minilanterna Maglite, um guia Rand McNally de ruas e um canivete Leatherman com ferramentas variadas que, em geral, usava guardado na bainha e enganchado na cinta. Costumava usar uma faca Buck da mesma maneira, presa na lateral do quadril, sempre que estava tratando de algum caso. O binóculo 10 x 50, o celular, um gravador acionado por voz, pilhas sobressalentes para as lanternas e a câmera ficavam no porta-luvas, protegidos por uma fechadura dupla. No porta-malas havia um arquivo de papelão contendo informações sobre os casos em andamento. E também uma caixa de aço de ferramentas da Craftsman dentro da qual guardava uma lanterna Maglite mais pesada, uma Canon AE-1 com teleobjetiva de quinhentos milímetros, óculos de fabricação russa para visão noturna, uma fita métrica de aço de trinta metros também da Craftsman, um rolo de fita isolante e diversas outras ferramentas, sempre da marca Craftsman, úteis para uma eventual falha mecânica ou troca de pneu. Quando possível, Strange comprava Craftsman — tinham garantia para a vida toda, e ele não era dos mais delicados no trato com elas.

Cruzou Petworth. Em Park View, pegou a Irving Street no sentido leste, dobrou na Michigan Avenue no sentido nordeste, passou pelo Hospital das Crianças, pela Universidade Católica e seguiu pela Brookland.

Estacionou diante da casa modesta de Leona Wilson, uma construção de tijolinho aparente entre a 12th e a Lawrence. Manteve o motor ligado, à espera de que terminasse o solo de flauta de "Walking in Rhythm", ainda que pudesse escutá-lo quando quisesse. Tinha ido até ali porque prometera a Leona Wilson que iria, mas não estava com a mínima pressa de fazer a visita.

No entanto, viu a cortina se mexendo na janela da sala. Desligou, saltou do carro, trancou a porta e caminhou pela alameda de concreto até a frente da casa. A porta já estava se abrindo quando ele se aproximou.

"Senhora Wilson", disse ele, estendendo a mão.

"Senhor Strange."


 
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