|
A
Intimação, de
John Grisham (tradução de Aulyde Soares Rodrigues;
Rocco; 284 páginas; 32 reais)
Especialista em criar eletrizantes suspenses de tribunal, o americano
John Grisham decepcionou seus fãs no ano passado ao lançar
A Casa Pintada, um romance de cores autobiográficas
dos mais insossos. Com A Intimação, o escritor
voltou ao terreno que melhor domina. O livro evoca, em tudo, best-sellers
de sua boa fase, como A Firma. Tem ação, mistério
e, claro, advogados. Essa é a profissão do
protagonista, Ray Atlee. Ele recebe uma carta de seu pai, um velho
juiz à beira da morte, solicitando que esteja em sua casa
num determinado dia e horário, para tratar da divisão
da herança com seu irmão mais novo um drogado.
Ao comparecer ao local, Ray encontra o pai morto, num cenário
para lá de suspeito.
Trechos
do primeiro capítulo
CHEGOU
PELO CORREIO COMUM, o modo antiquado, já que o juiz tinha
quase oitenta anos e não confiava nas coisas modernas. Esqueça
e-mail e até fax. Ele não tinha secretária
eletrônica e jamais gostou de telefone. Escrevia com os dois
dedos indicadores, batendo de leve em uma tecla de cada vez, inclinado
sobre sua Underwood manual, na escrivaninha de tampa corrediça
debaixo do retrato de Nathan Bedford Forrest. 0 avô do juiz
lutara com Forrest em Shiloh e por todo o interior do sul, e para
ele nenhuma figura da história era mais reverenciada. Durante
trinta e dois anos, o juiz discretamente se negara a presidir um
julgamento no dia 13 de julho, o aniversário de Forrest.
Chegou
com outra carta, uma revista e duas faturas e foi, seguindo a rotina,
deixada na caixa do correio do professor Ray Atlee, na faculdade
de direito. Ele a reconheceu imediatamente uma vez que aqueles envelopes
eram parte de sua vida desde que podia se lembrar. Era do seu pai.
Um homem que ele também chamava de "o juiz".
0 professor
Atlee examinou o envelope, sem saber se devia abrir ali mesmo ou
esperar um pouco. Boas ou más notícias, ele nunca
sabia com o juiz, embora o velho homem estivesse morrendo e as boas
notícias fossem raras. 0 envelope era fino e parecia conter
apenas uma folha de papel, nada fora do comum. 0 juiz era frugal
com a palavra escrita, embora fosse famoso por suas perorações
no tribunal.
Era
uma carta comercial, disso ele tinha certeza. 0 juiz não
era de conversa fiada, detestava fofocas e bate-papo vazio, escrito
Ou falado. Chá gelado com ele, na varanda, seria uma repetição
da Guerra Civil, provavelmente em Shiloh, onde mais uma vez ele
jogava, toda a culpa da derrota dos Confederados nas botas brilhantes
e intocadas do general Pierre G. T. Beauregard, um homem que ele
odiaria mesmo no céu, se por acaso se encontrassem lá.
Logo
ele estaria morto. Setenta e nove anos, com câncer no estômago.
Estava com excesso de peso, era diabético, fumante de cachimbo
inveterado, tinha o coração fraco que sobrevivera
a três ataques e uma porção de doenças
menores que o atormentavam havia vinte anos, e que agora se reuniam
para o golpe final. A dor era constante. Na sua última conversa
por telefone, três semanas atrás, um telefonema dado
por Ray, porque o juiz achava que ligações interurbanas
eram um roubo, o velho homem parecia fraco e cansado. Tinham falado
menos de dois minutos.
O endereço
do remetente era dourado, em relevo: Chanceler Reuben V. Atlee,
25ª Chancelaria Distrital, Tribunal do Condado Ford, Clanton,
Mississípi. Ray pôs o envelope dentro da revista e
começou a andar. 0 juiz Atlee não ocupava mais o posto
de chanceler. Os eleitores o tinham aposentado havia nove anos,
uma derrota amarga da qual ele nunca se recobraria. Trinta e dois
anos servindo diligentemente seu povo e eles o puseram para fora
em favor de um homem jovem com anúncios no rádio e
na televisão. O juiz recusou-se a fazer campanha. Alegava
que tinha muito trabalho e, o mais importante, o povo o conhecia
bem e, se quisesse que fosse reeleito, o reelegeriam. Para muitos,
sua estratégia pareceu arrogante. Ele ganhou no condado Ford,
mas foi derrotado nos outros cinco.
Foram
precisos três anos para tirá-lo do tribunal. Seu escritório
no segundo andar havia sobrevivido a um incêndio e por duas
vezes deixou de ser reformado. O juiz não permitiu que fosse
tocado por tinta ou martelos. Quando os supervisores do condado
finalmente o convenceram de que teria de sair ou seria despejado,
ele arrumou em caixas três décadas de pastas inúteis
e velhos livros empoeirados, levou-as para casa e as empilhou no
seu escritório. Quando o escritório ficou cheio, empilhou
nos corredores, na sala de jantar e até no vestíbulo
de entrada.
|