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Roteiro da Poesia Brasileira – Arcadismo, Parnasianismo, Simbolismo (Global; 160 páginas; 26 reais cada volume) – Não será exagero dizer que as antologias cumprem um papel civilizador, selecionando o essencial de cada época ou escola literária para o leitor comum. Com direção editorial da escritora Edla van Steen, a coleção Roteiro da Poesia Brasileira pretende compor um painel amplo do verso brasileiro. Serão quinze volumes, cada um organizado por um especialista, que abarcarão dos poetas do Brasil colônia aos que estão em atividade no Brasil de hoje. Dos anos 1930 em diante, o recorte se torna mais específico, com um livro por década. Os três primeiros volumes estão chegando às livrarias. São dedicados ao arcadismo, ao parnasianismo e ao simbolismo.

Leia trecho

Arcadismo poema de José Basílio da Gama

Soneto: A uma senhora natural do Rio de Janeiro, onde se achava então o autor

Já, Marfiza cruel, me não maltrata
Saber que usas comigo de cautelas,
Que inda te espero ver por causa d’elas,
Arrependida de ter sido ingrata.

Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças d’oiro converte-se em prata.

Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos,
Porque me negas hoje esta ventura?

Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco aflor dos anos.


Parnasianismo poema de RAIMUNDO CORREIA

MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!


Simbolismo poema de Alphonsus de Guimaraens

ISMÁLIA
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar.
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar.

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar.
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar.
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Pastoral aos crentes do amor e da morte (1923)


 
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