No
País dos Homens, de Hisham Matar (tradução de Rubens
Figueiredo; Companhia das Letras; 258 páginas; 41 reais) Nascido
em Nova York e radicado em Londres, o escritor de ascendência líbia
Hisham Matar é filho de um prisioneiro político da ditadura de Muamar
Kadafi ou, pelo menos, Matar supõe que o pai ainda esteja preso,
já que não tem notícias dele desde 1995. Finalista do prêmio
Man Booker, No País dos Homens, romance de estréia do autor,
tem evidentes traços autobiográficos. Suleiman, o narrador da história,
é um menino que vive em Trípoli e cujo pai se envolve perigosamente
na oposição à ditadura líbia. A opressão do
governo Kadafi, com seus enforcamentos públicos de dissidentes, ganha um
retrato poderoso na visão infantil do protagonista.
Leia
trecho Capítulo
1 Estou
lembrando agora o último verão antes de me mandarem embora. Foi
em 1979 e o sol estava em toda parte. Trípoli estendia-se luminosa e imóvel
sob o sol. Todas as pessoas, animais e formigas andavam numa desesperada busca
por sombra, aquelas ocasionais manchas de clemência cinzentas entalhadas
na brancura geral. Mas a clemência verdadeira só chegava à
noite, uma brisa esfriada pelo deserto desabitado, umedecida pelo mar rumorejante,
uma visitante indecisa que percorria em silêncio as ruas vazias, insegura
quanto aos limites em que era permitido vagar naquele reino da estrela absoluta.
E ela subia agora, essa estrela, fiel como sempre, banindo a brisa abençoada.
Era quase de manhã. A
janela do quarto dela estava toda aberta, a árvore de noz-de-cola lá
fora não fazia barulho, com seu verde ainda tímido à primeira
luz do dia. Ela só pegou no sono depois que o céu ficou cinzento
com a aurora. E mesmo então eu me sentia tão agitado que não
conseguia sair do seu lado, imaginando se ela, como um desses bonecos de marionete
que se fingem de morto, se levantaria com um pulo outra vez, acenderia um cigarro
e, como tinha feito há alguns minutos, continuaria a me implorar para não
contar, não contar. Baba
nunca soube da doença de mamãe; ela só adoecia quando ele
estava fora, a negócios. Era como se, quando o mundo estava sem Baba, ela
e eu fôssemos apenas lembranças idiotas, páginas vazias que
tinham de ser preenchidas com as recordações de como os dois vieram
a casar. Sentei-me
e fiquei olhando o rosto lindo de mamãe, o seu peito a subir e descer com
a respiração, incapaz de sair do seu lado, continuando a ouvir as
coisas que ela havia acabado de me contar e que boiavam e se repetiam na minha
cabeça. Por
fim deixei-a e fui para a cama. Quando
acordou, veio juntar-se a mim. Senti seu peso afundar ao meu lado, depois os seus
dedos no meu cabelo. O barulho das unhas no meu couro cabeludo me fez lembrar
de uma vez em que tive azar. Eu tinha jogado uma tâmara dentro da boca antes
de parti-la, e só descobri que estava infestada de formigas quando os corpinhos
iguais a conchas estalaram entre os meus dentes. Fiquei ali calado, fingindo que
dormia, ouvindo a sua respiração perturbada pelas lágrimas. Durante
o café-da-manhã tentei falar o mínimo possível. O
meu silêncio deixou-a nervosa. Ela falou sobre o que poderíamos almoçar.
Perguntou se eu queria um pouco de geléia ou mel. Respondi que não,
mas ela foi até a geladeira e trouxe um pouco, assim mesmo. Mais tarde,
como era costume nas manhãs desde que ela ficou doente, me levou para um
passeio, para me arrancar do meu silêncio, para eu voltar ao normal. Enquanto
esperava o motor do carro esquentar, ela ligou o rádio, girou o botão
de sintonia das estações e só parou quando ouviu a linda
voz de Abd al-Basit Abd al-Sammad. Fiquei contente, porque, como todos sabem,
quando o Corão está sendo lido, devemos nos abster de falar, para
ouvi-lo com humildade. Pouco
antes de entrarmos na rua Gergarish, a rua que acompanha a orla do mar, o mendigo,
Bahloul, surgiu do nada. Mamãe pisou no freio e disse ya satir.
Ele veio andando até o lado dela, devagar, as mãos sujas apertadas
contra a barriga, os lábios trêmulos. "Oi,
Bahloul", disse mamãe, enquanto vasculhava a bolsa. "Eu
vi você, eu vi você", disse ele, e embora essas fossem as palavras
que Bahloul balbuciasse com mais freqüência, dessa vez pensei em como
ele era idiota e desejei que simplesmente desaparecesse. Observei-o pelo espelho
lateral, parado no meio da rua, agarrando contra o peito o dinheiro que mamãe
lhe dera, como um homem que acabou de capturar uma borboleta. Ela
me levou ao centro da cidade, até o vendedor de gergelim, no mercado da
praça dos Mártires, a praça que dava para o mar, a praça
onde se erguia orgulhosa uma estátua de Sétimo Severo, o imperador
romano nascido muitos e muitos anos atrás, em Leptis. Ela me comprou todos
os palitos de gergelim que eu quis, embrulhados um a um em papel encerado branco,
torcido nas duas pontas. Recusei-me a deixar que ela os guardasse na bolsa. Em
manhãs como aquela eu sempre me mostrava teimoso. "Mas
tenho de fazer outras compras", disse ela. "Desse jeito você vai
acabar deixando cair." "Não",
respondi, franzindo as sobrancelhas. "Vou esperar você do lado de fora",
e saí aborrecido, sem ter receio de perdê-la ou de me perder dela
na cidade grande. "Escute",
chamou-me, atraindo a atenção das pessoas. "Espere por mim
perto do Sétimo Severo." Havia
de um lado um grande café que se espalhava até a calçada.
Homens, alguns rostos eu reconhecia de outras vezes, estavam jogando dominó
e baralho. Ficavam de olho em mamãe. Pensei se não seria melhor
que seu vestido fosse mais folgado. À
medida que me afastava de mamãe sentia o meu poder sobre ela esmorecer.
Comecei a ficar triste e a lamentar que em manhãs como aquela ela sempre
se mostrasse generosa e tímida, como se tivesse saído de casa nua.
Quis correr para ela, segurar sua mão, aferrar-me ao seu vestido enquanto
fazia as compras e lidava com o mundo, um mundo cheio de homens e da cobiça
dos homens. Forcei-me a não olhar para trás e em vez disso concentrei-me
nas lojas instaladas entre vãos encimados por arcos, situadas dos dois
lados da calçada coberta. Xales de seda preta ondulavam suavemente no alto
de uma loja, colunas de chapéus vermelhos empilhados erguiam-se até
a altura de um homem, diante de outra. O teto era feito de tiras de pano escuro.
As brancas lâminas de luz que penetravam pelos vãos ocasionais iluminavam
a poeira flutuante e brilhavam imóveis e lindas nos arcos e no chão,
mas se mexiam rápidas, como fagulhas, na cabeça e no corpo dos passantes,
tornando as sombras muito mais escuras do que eram. Lá
fora, a praça estava inundada de sol. O chão era quase branco de
tão brilhante, o que fazia com que os sapatos escuros e as pessoas que
o percorriam tomassem o aspecto de coisas que pairavam acima do mundo. Eu preferia
ter deixado com ela os palitos de gergelim. Pequenas agulhas agora pinicavam meus
braços. Dei uma bronca em mim mesmo por ser teimoso e por deixar que ela
comprasse para mim tantos palitos de gergelim. Eu os via em meus braços
e não sentia o menor apetite. Recostei-me
no frio pedestal de mármore da estátua de Sétimo Severo.
O imperador romano erguia-se acima de mim, seu cinturão tacheado em prata
fazia uma curva abaixo da barriga, o braço apontado para o mar, "Clamando
à Líbia que olhasse na direção de Roma", era
assim que Ustath Rashid descrevia a pose. Ustath Rashid dava aula de história
da arte na universidade El Fateh e era pai do meu melhor amigo, Karim. Lembrei-me
do nosso Guia, de pé, em um de seus uniformes militares semelhantes àquele,
acenando com o braço enquanto os tanques desfilavam à sua frente
no Dia da Revolução. Voltei-me
para o mar, o brilhante mar azul-turquesa além da praça. Parecia
um monstro gigante e azul que se erguia nos confins do mundo. "Grrr",
grunhi, depois tive receio de que alguém tivesse escutado. Bati com o calcanhar
no pedestal várias vezes. Olhei para o chão, o calor e o brilho
me davam vontade de dormir de olhos abertos. Só que aí, sem buscar
por isso, mas acertando bem o alvo, avistei Baba. Estava
parado na beira da calçada numa rua em frente à praça, olhando
o trânsito dos dois lados da rua, curvando-se para a frente como se fosse
cair. Antes de dar o primeiro passo na rua, fez um movimento com a mão,
e depois estalou os dedos duas vezes. Era um gesto que eu conhecia. Às
vezes ele acenava para mim daquele jeito, como se dissesse: "Vamos lá,
vamos lá", depois estalava os dedos: "Ei, acorde". Atrás
dele surgiu Nasser, o secretário de Baba, carregando uma máquina
de escrever debaixo do braço, esforçando-se para segurá-la.
Baba já estava atravessando a rua, caminhava na minha direção.
Por um momento achei que ele talvez estivesse trazendo Nasser para perto da estátua
de Sétimo Severo a fim de ensinar-lhe tudo o que me havia ensinado sobre
o imperador romano, Leptis Magna e Roma. Pois Baba via Nasser como um irmão
mais novo, como ele mesmo muitas vezes dizia. "Baba?",
sussurrei. Duas
lentes escuras curvavam-se como a corcova de uma tartaruga por cima dos seus olhos.
O céu, o sol e o mar eram pintados por Deus em cores que podíamos
identificar e dizer o mar é turquesa, o sol é cor de banana, o céu
é azul. Óculos escuros são terríveis, eu pensava,
porque modificam tudo isso e mantêm à distância quem os usa.
Naquele momento recordei como, apenas alguns dias antes, ele se despedira de nós
com um beijo. "Que
Deus o traga de volta a salvo", disse-lhe mamãe, "e permita que
sua viagem seja lucrativa." Beijei
sua mão do jeito que ele me ensinara. Baba curvou-se e sussurrou no meu
ouvido: "Cuide
da sua mãe, agora você é o homem da casa", e sorriu para
mim do jeito que as pessoas fazem quando acham que fizeram um elogio. Mas olhe
só, olhe ele aí. Andando onde eu podia tocá-lo, aqui, onde
deveríamos estar juntos. Meu coração acelerou. Ele estava
chegando mais perto. Será que queria vir ao meu encontro?, pensei. Era
impossível enxergar seus olhos. Observei-o
andar daquele modo bem conhecido - a cabeça apontava um pouco para cima,
os sapatos de couro lustrosos abriam caminho à frente, passo a passo -,
na esperança de que chamasse o meu nome, acenasse com a mão, estalasse
os dedos. Juro que se tivesse feito isso eu afundaria em seus braços. Quando
ele ficou bem ali, tão perto que se eu esticasse o braço poderia
tocá-lo, prendi a respiração e meus ouvidos encheram-se de
silêncio. Observei sua fisionomia solene - uma fisionomia que eu admirava
e temia -, senti o aroma pronunciado de sua água de colônia, senti
o ar inchar em torno dele enquanto passava por mim. Era seguido bem de perto por
Nasser, que carregava debaixo do braço uma máquina de escrever preta
e reluzente. Eu gostaria de ser ele, caminhando atrás de Baba que nem uma
sombra. Entraram num dos prédios que davam para a praça. Era um
prédio branco, de venezianas verdes. Verde era a cor da revolução,
mas raramente se viam venezianas pintadas de verde. "Não
mandei você me esperar ao lado da estátua?", ouvi a voz de mamãe
a meu lado. Olhei para trás e vi que eu tinha me afastado bastante de Sétimo
Severo. Eu
me senti mal, aflito, por ter agido de maneira errada. Baba não estava
numa viagem de negócios, e sim ali, em Trípoli, onde devíamos
estar juntos. Eu poderia ter esticado a mão e puxado Baba, desviando-o
da direção para onde se encaminhava; por que não agi? Sentei-me
no carro enquanto mamãe arrumava as compras. Eu ainda segurava os palitos
de gergelim. Olhei para o alto do prédio onde Baba e Nasser tinham entrado.
Uma janela no último andar estremeceu e depois se abriu. Baba apareceu
nela. Contemplou a praça, já não estava de óculos
escuros, e inclinou-se com as mãos apoiadas no parapeito, como um líder
à espera de que os aplausos e as louvações cessassem. Pendurou
uma toalhinha vermelha na corda de secar e sumiu lá dentro. A
caminho de casa fiquei mais calado do que antes, e dessa vez não havia
nisso o menor esforço. Assim que deixamos para trás a praça
dos Mártires, mamãe começou a esticar o pescoço na
direção do espelho retrovisor. Ao parar no sinal seguinte, sussurrou
uma prece para si mesma. Um carro parou ao nosso lado, tão perto que eu
poderia ter tocado na bochecha do motorista. Quatro homens vestidos em safáris
pretos ficaram olhando para nós. De início não os reconheci,
depois lembrei. Lembrei tão de repente que senti o coração
dar um pulo. Eram os mesmos homens do Comitê Revolucionário que uma
semana antes tinham vindo e levado Ustath Rashid. Mamãe
olhava para a frente, as costas a alguns centímetros do encosto do banco,
os punhos seguravam com força o volante. Soltou uma das mãos, levou-a
até o meu joelho e sussurrou em tom severo: "Olhe para a frente". Quando
a luz do sinal ficou verde, o carro ao nosso lado não se mexeu. Todos sabem
que não se deve ultrapassar um carro do Comitê Revolucionário.
Se isso for necessário, é preciso fazê-lo de forma discreta,
sem demonstrar o menor prazer. Alguns carros, ignorando quem estava ao nosso lado,
começaram a tocar a buzina. Mamãe avançou lentamente, olhando
mais para o espelho retrovisor do que para a rua à sua frente. Em seguida,
falou: "Estão nos seguindo. Não olhe para trás". Olhei
fixo para os meus joelhos nus e repeti a mesma prece várias vezes. Sentia
o suor acumular-se entre a palma das mãos e o papel encerado do embrulho
dos palitos de gergelim. Só quando já estávamos quase em
casa, mamãe disse: "Tudo bem, já foram embora." E depois
resmungou consigo: "Não têm nada melhor para fazer do que nos
dar uma escolta, aqueles ratos imundos". Meu
coração sossegou e minhas costas ficaram mais eretas. A prece abandonou
os meus lábios. Como
tinha me dito o xeique Mustafá, o imã de nossa mesquita local, o
inocente não tinha motivos para temer; só o culpado vive com medo. Não
a ajudei a trazer as compras para dentro de casa como costumava fazer. Fui direto
para o meu quarto, larguei os palitos de gergelim em cima da cama e sacudi os
braços para reativar a circulação. Apanhei meu livro ilustrado
sobre Leptis Magna. Dez dias antes eu havia visitado a cidade antiga pela primeira
e, viu-se depois, última vez. Imagens da cidade deserta e em ruínas
à beira-mar ainda perduravam com nitidez na minha mente. Eu tinha vontade
de voltar para lá. Só
saí do quarto quando fui obrigado: depois que ela fez o almoço,
pôs a mesa e chamou o meu nome. Ela
partiu o pão e me deu um pedaço; eu, percebendo que ela não
tinha posto salada no seu prato, passei-lhe a saladeira. No meio da refeição,
mamãe se levantou e ligou o rádio. Deixou-o sintonizado num homem
que falava sobre a agricultura no deserto. Levantei-me, e disse: "Que Deus
abençoe suas mãos", e fui para o meu quarto. "Vou tirar
um cochilo", disse ela às minhas costas. O meu silêncio levava
mamãe a falar coisas que não precisava dizer, sempre tirava um cochilo
de tarde, todos faziam isso, todos menos eu. Eu jamais conseguia cochilar. Esperei
no meu quarto até que ela terminasse de lavar a louça e guardasse
a comida, até eu ter certeza de que ela tinha ido dormir, depois saí
do quarto. Estava
andando pela casa em busca de alguma coisa para fazer quando o telefone tocou.
Corri para atender antes que ela acordasse. Era Baba. Ao ouvir sua voz, meu coração
disparou. Pensei que havia telefonado depressa, depois de me ver na rua, para
explicar por que não havia me cumprimentado. "Onde
está?", perguntei. "No
exterior. Deixe-me falar com a sua mãe." "Em
que lugar?" "No
exterior", repetiu, como se fosse óbvio onde isso ficava. "Amanhã
estarei em casa." "Estou
com saudade", falei. "Eu
também. Chame sua mãe." "Ela
está dormindo. Quer que eu a acorde?" "Apenas
avise a ela que estarei em casa amanhã, na hora do almoço." Eu
não queria que a conversa terminasse, por isso falei: "Nós
fomos seguidos hoje pelo mesmo carro branco que levou Ustath Rashid. Ficamos emparelhados
no semáforo e eu vi a cara deles. Fiquei tão perto que podia tocar
a bochecha do motorista e não tive medo. Nem um pouco. Nem um pouquinho,
não tive." "Vejo
você amanhã", disse ele e desligou. Fiquei
parado um tempo junto ao telefone e ouvi o denso silêncio que parecia descer
sobre a nossa casa durante aquelas horas da tarde, um silêncio margeado
pelo zumbido da geladeira na cozinha e pelos estalidos do relógio no corredor. Fui
ver mamãe dormir. Sentei ao seu lado, verificando primeiro se o seu peito
estava subindo e descendo com a respiração. Lembrei as palavras
que ela me dissera na noite anterior: "Somos duas metades da mesma alma,
duas páginas abertas do mesmo livro", palavras que pareciam um presente
que eu não queria ganhar. |