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livros

Coleção Movimentos da Arte Moderna, vários autores (Cosac & Naify; 80 páginas; 28 reais cada um)

Os volumes desta coleção são o melhor meio disponível para quem deseja travar contato com os principais nomes e movimentos das artes plásticas do século XX. Quatro livros haviam sido lançados anteriormente. Esta nova leva fala do modernismo, do futurismo, do realismo e do expressionismo. Escritos por especialistas sob encomenda da Tate Gallery, de Londres, os textos são de grande didatismo, mas não caem no lugar-comum nem fogem ao desafio de trocar em miúdos conceitos abstratos do domínio crítico. Destaque para a qualidade gráfica e para as bibliografias – que ajudarão quem quiser ir mais longe.

. Confira os primeiros capítulos

INíCIOS DO REALISMO

Seria Impossível apresentar os temas, interesses e obras o realismo no século XX sem considerar, de alguma forma, o "Realismo", o movimento artístico que nasceu do romantismo em voga na década de 183o na França e que, por volta da metade do século, ganhou adeptos também na Inglaterra. Em 1789, ultra-romântico Friedrich von Harderiberg
(conhecido como Novalis) iniciava seu livro de aforismos: "Nós buscamos, acima de tudo, o Absoluto, sempre encontramos apenas coisas". Esse "apenas" é a quintessência da desilusão romântica corri o meramente material. Contudo, se invertermos a (destruido em 1945) máxima, de modo que as "coisas" se tornem o objetivo da busca, podemos vislumbrar algo do caeáter realista. Certamente Courbet, o artista Porta-voz do realismo, estava convicto de que "as coisas como elas são" deveriam ser o tema da pintura. Contudo, nessa época - a década de 1840 - não era essa a realidade. Uns poucos artistas, tais como Valencierines, haviam inconscientemente produzido esboços (ainda hoje impressionantes por sua novidade) que desafiaram os padrões acadêmicos de "composição" e "acabamento"; mas estes eram "meros" esboços. Courbet estava convencido de que deveriam ser descartadas as regras e prescrições dos ateliês e da academia - que se haviam tornado ainda mais rigorosas desde a virtual ditadura de Jean-Louis David em favor do neoclassicismo, durante a Revolução Francesa. Sua proposta era a de que o artista deveria deixar as coisas e sua aparência se sustentarem por si mesmas, ao contrário do que ocorrera na prática acadêmica do século XIXI quando o objetivo histórico, a moral, o sentimento ou a "história" da pintura determinavam o aspecto visual das obras. E foi o que ele fez em Enterro em Ornans, que chocou os críticos conservadores no Salão de 1851 e desconcertou até mesmo os liberais. Qual era o "tema": seria o buraco no chão' Como poderia ser este um tema sério para um quadro imenso, produzido especialmente para uma exposição anual tão prestigiada como era o Salão? Estaria Courbet simplesmente rindo de todos eles? (Sem dúvida, notaremos o viés satírico, ou no mínimo irônico, como um dos traços principais do realismo no século XX). E as pessoas! Que bando estranho de aldeões desencontrados! No entanto, eles não eram caricaturas, como Daumier os teria retratado. 0 padre de nariz vermelho parece realmente existir, graças ao cuidado de Courbet em registrar suas idiossincrasias. 0 efeito é surpreendente: o préstito desajeitado em nada lembra a graça das poses estudadas e de inspiração tradicional que os galeristas esperariam.
O realismo está presente aqui na Junção canhestra das figuras que se arrastam pesadamente por todo o espaço do quadro, no ritmo bastante sutil do desenho que Courbet utiliza para unir o grupo. Esse ritmo esforça-se para não atrair a atenção para si próprio, enquanto, em geral, as peças do Salão buscavam ostentar ao máximo a habilidade do artista em manipular o repertório de figuras no formato acadêmico tradicional, de modo a provar que o trabalho fora feito de acordo com as regras.
Eis o desafio que Courbet lançou aos seus contemporâneos: as regras deveriam ser provisórias e não princípios irrevogáveis. Esse foi o primeiro sinal do pluralismo na pintura - para o qual a técnica apropriada, e mesmo o estilo apropriado, era mais importante que a hierarquia acadêmica do tema. Na França, particularmente, tal pluralismo levaria a desenvolvimentos modernos, vanguardistas - de Courbet (e até mesmo de Delacrolx, no que se refere à cor), a Seurat e outros. Em suma, a vanguarda agrupava artistas para os quais, dia a dia, o modo como uma pintura era feita ia se tornando mais importante que seu tema aparente. Já na Primeira Guerra Mundial, o desenvolvimento da pintura abstrata, neo-representativa, significaria que o "como" da pintura era o tema.
Enquanto isso, pintores adotavam e adaptavam os motivos e as teorias que Courbet propusera ao longo de uma carreira tumultuada, que terminou em desilusão e doença, na década de 70, durante seu exílio na Suíça, onde morreu em 1877. Devemos lembrar também que nem toda a sua obra foi pictoricamente tio desafiadora quanto Enterro ein Ornans e que ele podia desovar também paisagens perfeitamente conservadoras, embebidas no sentimento de "filosofia da natureza" que agradava a seus clientes na burguesia alemã. Mas em torno da bandeira de Courbet, no início dos anos i85o, afluíram artistas tão diversos quanto o pintor camponês Jean François Millet e o brilhante e provocativo cartunista e ilustrador Honoré Daurnier, bem como Inúmeras figuras menos conhecidas, que produziram, uma ou duas obras realistas, mas para as quais a publicidade negativa ou o contato muito próximo com seus temas foram desgastantes demais, levando-os a optar por caminhos mais fáceis e lucrativos. Podemos citar Jeari-Pierre Antigna, cuja obra Incêndio foi exposta no mesmo Salão que exibiu Enterro em Ornans, e que retrata uma família camponesa em estado de choque por causa do fogo em sua pequena cabana. As poses da mãe e do filho parecem uma adaptação habilidosa de Medéia (1838), de Delacroix, um clássico tema da arte elevada, adaptado aqui para indicar coragem e força moral similares nas classes trabalhadoras. Tratava-se de um tema apropriado para a breve Segunda República (1848-52).



O QUE É O MODERNISMO

Modernização, modernidade e modernismo - três conceitos em torno dos quais tem girado a reflexão sobre o mundo moderno e sua cultura. Na definição dos dois primeiros, são raras as discordâncias. Modernização se refere a uma série de processos tecnológicos, econômicos e políticos associados à Revolução Industrial e suas conseqüências; modernidade das condições sociais e experiências, que são vistas como os efeitos desses processos. Sobre o significado de modernismo, no entanto, a concordância é bem mais difícil de ser obtida. No uso comum, significa a propriedade ou a qualidade de ser moderno ou atualizado. Contudo, tende também a implicar um certo tipo de posição ou atitude que se caracterizaria por formas específicas de resposta tanto à modernização como à modernidade. Quando a palavra é aplicada à arte, há, portanto, dois problemas a encarar. O primeiro é que "modernismo" não costuma ser utilizado como um termo genérico para cobrir toda a arte do período moderno. Trata-se antes de uma forma de valor, em geral associada apenas a algumas obras e que serve para distingui-las de outras. Selecionar tinia obra de arte como exemplo de modernismo é vê-Ia como pertencente a uma categoria especial no interior da cultura ocidental do período moderno. As obras que tendem a se enquadrar nessa categoria, porém, não são sempre facilmente vistas como relacionadas seja a processos de modernização soja à experiência da modernidade. De que maneira, por exemplo, entender o modernismo ele um Matisse ou de um Rothko, se não como uma forma de rejeição ou de evasão da evidência física da modernidade? O segundo problema é que existem pontos de vista divergentes sobre a situação histórica do modernismo: sobre quando teria supostamente começado e se já teria encerrado seu curso. As origens do modernismo foram localizadas em épocas que variam do final do século XVIII ao início do XX, enquanto a utilização recente do conceito de pós-modernismo sugere ou que o modernismo tenha encerrado seu curso ou que tenha se tornado sinônimo de uma forma de conservadorismo cultural - o que talvez seja a mesma coisa.
É difícil lidar com um desses problemas sem se enredar no outro. Por exemplo, o fato de que se considere ou não o modernismo virtualmente esgotado depende de que tipo de valor OU categoria se acredita que ele soja. É justamente essa dupla divergência, quanto à avaliação de um lado e quanto à periodização de outro, que torna complicado definir o conceito de modernismo. A dificuldade se aplica ao conceito de romantismo, de que o modernismo deriva muito de sua teoria estética, e com o qual coincide em outros aspectos importantes. Em relação à maioria dos outros ismos", pode-se chegar a um acordo quanto à época em que ocorreram sem que seja necessário concordar a respeito de seu valor ou significado. Mas, como acontece com o romantismo, escrever sobre o modernismo na arte é penetrar inevitavelmente numa área de intensa controvérsia. Deveríamos tentar estabelecer um solo mais firme a partir do qual pudéssemos começar. E comum associar o moderno na arte com um colapso do decoro tradicional na cultura ocidental, que previamente conectava a aparência das obras de arte à aparência do mundo natural. Os sintomas típicos desse colapso são a tendência de as formas, cores e materiais da arte ganharem vida própria, produzindo combinações inusitadas, oferecendo versões distorcidas ou das aparências da natureza e, em alguns casos, exagera perdendo todo contato óbvio corri os objetos comuns de nossa experiência visual. Desse modo, tinia pintura que não se assemelhe a nada está propensa a ser classificada - ao menos pelo comum dos mortais - como uma pintura-moderna", embora já possa ter quase um século. Perguntar-se por que esse colapso ocorre quando ocorre, e de que maneira, é inquirir a respeito do caráter e da forma historicamente assumidos pelo modernismo.



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