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Leviatã, de Boris Akunin (tradução de Adalgisa Campos da Silva; Objetiva; 282 páginas; 39,90 reais) – Nos anos 90, o filólogo Grigori Tchkartchvili trocou seu emprego de tradutor de textos científicos por uma carreira de escritor de romances policiais. Sob o pseudônimo de Boris Akunin, tornou-se um dos autores mais populares da Rússia. Já escreveu treze livros do gênero, que somam 8 milhões de exemplares vendidos. Suas obras são ambientadas no século XIX e têm como protagonista o jovem detetive moscovita Erast Fandórin. Trata-se de aventuras criminais à moda antiga, com um quê das histórias de Sherlock Holmes. Leviatã não foge à regra. A bordo do navio do título, que zarpa da Inglaterra com destino à Índia, Erast Fandórin investiga o assassinato de um colecionador de arte inglês.

Leia trecho do livro

Em Port-Said, quando um novo passageiro embarcou no Leviatã e instalou-se na cabine nº18, a última da primeira classe ainda vaga, o humor de Gustave Gauche logo melhorara. O recém-chegado parecia promissor: gestos lentos e atitude reservada, belo rosto de expressão impenetrável. À primeira vista, pareceu muito jovem, mas, ao tirar, o chapéu-coco, o homem deixara à mostra têmporas grisalhas totalmente inesperadas. Espécime curioso, concluíra o comissário. Nele, reconhecia-se imediatamente um homem de personalidade, uma pessoa vivida, como se diz. Em resumo, um cliente incontestável para o velho Gauche.

O passageiro caminhara pela escada de acesso com uma sacola balançando no braço, enquanto dois carregadores levavam sua volumosa bagagem: valises caras de marroquim, resistentes sacos de viagem de couro de porco, grandes pacotes de livros, sem esquecer a bicicleta dobrável (uma roda grande, duas pequenas e todo um feixe de tubos metálicos cintilantes). Enfim, fechando o cortejo, dois pobres-diabos arrastavam imponentes halteres.

Tomando pelo delírio do caçador, o coração de Gauche, este velho policial (como ele próprio gostava de se qualificar), começou a palpitar quando pareceu que o recém-chegado não estava usando seu distintivo, fosse na lapela de seda do elegante casacão de verão, no paletó ou na corrente do relógio. Está esquentando, Gauche pensou com seus botões, lançando de sob as grossas sobrancelhas olhares inquisidores ao dândi e pitando seu cachimbo de barro preferido. E aliás de onde o velho cretino que ele era tirara que o criminoso necessariamente tomaria o navio em Southampton? O crime fora cometido no dia 15 de março e era 1 º de abril. Enquanto o Leviatã contornava o sul da Europa, nada era mais fácil do que chegar a Port-Said. E agora, ele só tinha de prender o homem. Tudo estava de acordo: seu tipo fazia dele um cliente especial, ele possuía uma passagem de primeira classe e, o mais importante de tudo, não tinha a baleia de ouro.

O maldito distintivo com as iniciais da companhia de navegação Jasper-Artaud Partnership, há algum tempo, não saía dos sonhos de Gauche, cada qual mais horrível que o outro. O último, por exemplo.

O comissário estava passeando de barco no loga do bois de Boulogne em companhia de sua mulher. Um sol suave brilhava, passarinhos cantavam. De repente, em cima das árvores, surgiu uma gigantesca cabeça dourada de olhos redondos e olhar vazio. Ela abriu uma boca onde cabia até o Arco do Triunfo e começou a sorver a água do lago. Molhado de suor, Gauche começou a remar. Mas aí era como se a ação não se passasse num parque, mas sim no meio do oceano sem limites. Os remos se dobravam como hastes de palha, a Sra. Gauche lhe enfiava a sombrinha nas costas, enquanto o enorme animal cintilante cobria o horizonte todo. Quando este lançou um jato d’água no que restava do céu, o comissário acordou e tateou na mesa-de-cabeceira: onde diabos estavam seu cachimbo e seus fósforos?

Foi na rue de Grenelle que Gauche vira a pequena baleia de ouro pela primeira vez, enquanto examinava os restos mortais de lorde Littleby. O inglês estava estendido, a boca aberta num grito mudo. Tinha a dentadura meio deslocada, e em cima da testa um talho aberto ensangüentado. Julgando perceber o brilho dourado entre os dedos do morto, Gauche se agachara e, olhando mais de perto, emitira um grunhido de satisfação. Uma chance rara, absolutamente extraordinária, se oferecia a ele, uma chance como as que só existem nos romances policiais. Esperto, o falecido acaba de trazer um indício importante ao inquérito – se não numa bandeja, pelo menos na mão. Olhe, Gustave, é para você. E não vá deixar escapar quem me arrebentou a cabeça, senão você vai morrer de vergonha, sua besta.


 
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