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A Tenda, de Margaret Atwood (tradução de Léa Viveiros de Castro; Rocco; 168 páginas; 25 reais) – Margaret Atwood é autora de romances caudalosos como O Assassino Cego, em que passeia pelos mais diversos gêneros, do romance histórico à ficção científica. Em A Tenda, a escritora canadense mostra que também tem pleno domínio das formas breves. O livro reúne 35 histórias muito curtas, ilustradas com desenhos da própria autora. Todos os contos trazem algum elemento inusitado, um pequeno abalo sísmico nas expectativas do leitor. Há, por exemplo, a história de um gato que morre e se encontra com um deus felino (e cruel), ou a de uma dançarina de strip-tease que atualiza a história bíblica de Salomé. A Tenda pode ser um livro estranho – mas sempre fascinante.

Leia trecho

Nosso gato vai para o céu

Nosso gato foi conduzido ao céu. Ele nunca gostou de alturas, então tentou enfiar as garras em alguma serpente invisível, mão gigante ou águia que o estava fazendo subir daquele jeito, mas não teve sorte.

Quando chegou ao céu, este era um vasto campo. Havia um bocado de coisinhas cor-de-rosa correndo que ele a princípio achou que fosse camundongos. Então ele viu Deus sentado numa árvore. Anjos voavam de um lado para o outro com suas asas brancas; eles faziam ruídos como se fossem pombos. De vez em quando Deus estendia sua enorme pata peluda e agarrava um deles e o mastigava. O chão sob a árvore estava coberto de asas de anjos arrancadas a dentadas.

Nosso gato se aproximou educadamente da árvore.

Miau, nosso gato disse.

Miau, Deus respondeu. Na verdade, foi mais como um rugido.

Eu sempre achei que você fosse um gato, afirmou o nosso gato, mas não tinha certeza.

No céu todas as coisas são reveladas, disse Deus. Essa foi a última que escolhi para você.

Estou contente por você não ser um cachorro, revelou nosso gato. Você acha que eu posso ter os meus testículos de volta?

É claro, consentiu Deus. Eles estão ali atrás daquele arbusto.

Nosso gato sempre soubera que os seus testículos deviam estar em algum lugar. Um dia ele tinha acordado de um pesadelo e descoberto que tinham desaparecido. Tinha procurado por eles em toda parte – debaixo de sofás, debaixo de camas, dentro de armários – e o tempo todo estavam ali, no céu! Ele foi até o arbusto e, de fato, lá estavam eles. Voltaram sozinhos ao lugar imediatamente.

Nosso gato ficou muito satisfeito. Obrigado, ele disse para Deus.

Deus estava limpando seus longos e elegantes bigodes. De rien, respondeu Deus.

Eu poderia ajudá-lo a agarrar alguns desses anjos?, perguntou o nosso gato.

Você nunca gostou de alturas, afirmou Deus, espreguiçando-se no galho, sob o sol. Esqueci de dizer que havia sol.

É verdade, disse o nosso gato. Nunca mesmo. Havia alguns episódios desconcertantes que ele preferia ignorar. Bem, e quanto a esses camundongos?

Eles não são camundongos, retrucou Deus. Mas pode agarrar quantos quiser. Não os mate na mesma hora. Faça-os sofrer.

Você quer dizer, brincar com eles?, indagou o nosso gato. Eu costumava me encrencar por isso.

É uma questão de semântica, explicou Deus. Você não vai ficar encrencado aqui por isso.

Nosso gato preferiu ignorar a observação, já que não sabia o que era "semântica". Ele não queria fazer papel de bobo. Se não são camundongos, o que são?, ele perguntou. Ele já tinha agarrado um. Estava mantendo-o preso sob a pata. A coisa estava chutando e guinchando.

São almas de seres humanos que foram maus na Terra, disse Deus, semicerrando seus olhos verde-amarelados. Agora, se não se importar, está na hora da minha sesta.

O que elas estão fazendo então no céu?, questionou o nosso gato.

Nosso céu é o inferno delas, disse Deus. Eu gosto de um universo equilibrado.


 
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