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Dinastias, de David Landes (tradução de Regina Lyra; Campus/Elsevier; 374 páginas; 69 reais) – No best-seller A Riqueza e a Pobreza das Nações, o historiador David Landes, da Universidade Harvard, investigou a influência dos fatores culturais no desenvolvimento das nações. Nesse novo livro, ele examina o modo como a cultura familiar molda tradições empresariais – e como, na via contrária, muitos herdeiros dispersam o patrimônio constituído por seus antecessores. São doze estudos de caso, incluindo dinastias dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. Os feitos de magnatas como o industrial Henry Ford e o banqueiro Alexander Baring são examinados a partir de uma perspectiva original, que conjuga a influência de fatores como a personalidade e o contexto histórico.

 

Leia trecho

Prólogo

A atividade bancária é o território mais fecundo para a empresa familiar se desenvolver por duas razões essenciais. Primeiro porque, historicamente, o sucesso nessa atividade se baseia em contatos pessoais - quem você conhece, em quem confia e quem confia em você. Segundo, porque, ao contrário de muitas indústrias que veremos mais à frente neste livro, a atividade bancária se apóia basicamente em uma única mercadoria homogênea: moeda corrente. Ao contrário, digamos, da indústria automobilística, a atividade bancária não exige o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais eficientes, o que faz com que seja menos necessário empreender, fora da família, uma busca constante de cientistas mais preparados para lidar com as inovações mais importantes da década ou do ano.

Sem dúvida, há no mundo uma montanha de moedas, e é preciso conhecer as taxas de câmbio e trabalhar com elas a fim de saber o valor dos passivos e dos ativos. Essas taxas, porém, são de conhecimento público e, em geral, um par de óculos e uma calculadora bastam para lidar com números. É o elemento humano, a natureza e a inteligência daqueles com quem trabalhamos e lidamos, que demanda talento e capacidade de avaliação. Outros campos da atividade comercial e industrial, com sua diversidade de bens e serviços, exigem um leque de reações sutis e diferenciadas às oportunidades de negócios, que decorre de perguntas fundamentais: O preço é justo? O produto é bom? A resposta a essas perguntas costuma ser óbvia na atividade bancária. A questão crucial diz respeito ao risco: Podemos confiar que essas pessoas cumpram a sua parte? Isso, como veremos, faz dos contatos pessoais, passados de geração a geração, o fator predominante no universo dos bancos.

A atividade bancária é uma extensão natural do comércio. Alguns comerciantes descobrem oportunidades de ajudar outros, emprestando-lhes dinheiro a juros ou mediante alguma outra forma de lucro, e outros comerciantes necessitados de dinheiro tomam conhecimento dessas ofertas e delas extraem proveito. Às vezes, as coisas não funcionam conforme os planos ou as expectativas, e quem empresta perde, a menos que se muna de alguma garantia para cobrir o risco. E, às vezes, o prejuízo de alguém é o ganho de outrem. Ao cabo de algum tempo, essas relações formais ou informais de empréstimo se tornam para alguns mais interessantes ou mais lucrativas do que o comércio, e assim nasce o banqueiro.

A atividade bancária, já se disse, trata do dinheiro alheio. Gente que controla ativos financeiros com liquidez imediata, que, em geral, não são seus, põe-nos à disposição de outros que deles precisam, cobrando destes o uso e o risco embutido. Historicamente, os primeiros banqueiros começaram a vida como comerciantes e acabaram abandonando suas próprias empreitadas comerciais para financiar as de terceiros. Comerciantes ricos, transformados em "comerciantes banqueiros", também descobriram outro tipo de clientela: desde simples proprietários até os nobres da mais alta estirpe e os governantes da terra onde operavam. Dificilmente, era possível dizer não a clientes como esses, mas o empréstimo a governantes comportava riscos intrínsecos, e os banqueiros mais ricos, os que possuíam os clientes mais poderosos, logo se viram enredados nas malhas desses devedores. Na Idade Média, por exemplo, mercadores italianos operavam nessas terras estrangeiras quando a Inglaterra se tornou a fonte derradeira de salvação de reis e cortes. Decerto, não podiam recusar-se a emprestar dinheiro à autoridade de cuja permissão dependiam para continuar a morar e trabalhar ali, podiam? Assim, Eduardo I (que reinou de 1272 a 1307) tinha seus Ricciardi e Frescobaldi, e Eduardo III (1327-1377), seus Bardi e Peruzzi. Alguns desses banqueiros enriqueceram e gozaram de fama por algum tempo, mas todos acabaram na bancarrota, pois não detinham poder para exigir a quitação de seus empréstimos. Empréstimos feitos a reis eram intrinsecamente arriscados; soberanos podem inadimplir, confundir, repudiar, enquanto os homens de negócios são regidos pela pontualidade. Sua reputação é tudo, e a base da reputação é a correção. Quando Edward III se tornou inadimplente na década de 1350 - as guerras custam caro -, isso foi um tiro em seus banqueiros. Tant pis. Ainda assim, o modelo se manteve durante séculos. Os credores individuais acabavam inevitavelmente falindo, mas a realeza sempre podia encontrar outros credores. Os banqueiros mais astutos sabiam como lançar mão dos contatos que faziam na corte para tirar proveito em outros lugares, e cada um achava que não repetiria os erros de seus antecessores.


 
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