Jane
Mingay/AP
 |  | | Ruth
Rendell: um suspense da "rainha do crime" | |
A
Verdade Através da Névoa, de Ruth Rendell (tradução
de Rolf Wyler; Rocco; 426 páginas; 68,50 reais) A inglesa Ruth Rendell
se consagrou por seus romances policiais, disputando com P.D. James o trono de
"rainha do crime" que já foi de Agatha Christie. A Verdade Através
da Névoa, porém, não é uma história de
crime e investigação, mas um drama familiar. Mesmo afastada de seu
gênero habitual, Ruth mostra que sabe armar um bom mistério. A história
começa quando Sarah, uma professora universitária frustrada, é
convidada a escrever uma biografia do pai, escritor famoso que morreu há
pouco. Nas pesquisas para o livro, Sarah aos poucos vai descobrindo que o pai
não era o homem que ela imaginava. Leia
trecho Capítulo
2 Os
mansos poderão herdar a terra, mas não a reterão por
muito tempo. The Eye in the Eclipse Sarah
e Hope compuseram, juntas, o comunicado do falecimento. A
palavra "amado" foi acrescentada por Sarah porque ela achava que não
se podia dizer apenas "marido de", ao passo que as irmãs favoreciam,
no seu caso, a palavra "adorado". As frases de Heráclito, na
versão de Cory, foram escolha de Hope, que as foi buscar em seu passado
escolar e voltou a descobri-las em O livro de ouro da poesia lírica
inglesa, de Palgrave. Sarah achou as frases um pouco embaraçosas, mas
cedeu à sua inclusão porque Hope desandou a chorar quando ela, Sarah,
ensaiou um discreto protesto. O comunicado foi publicado em vários jornais. Candless,
Gerald Francis, faleceu aos setenta e um anos, dia 6 de julho, em sua residência
em Gaunton, condado de Devon, amado marido de Ursula e adorado pai de Sarah e
Hope. Seu sepultamento será em Ilfracombe, dia 11 de julho. Não
mandem flores. Destinem os donativos à Fundação Britânica
do Coração. Chorei
quando me vieram à memória as inúmeras vezes em que eu e
você cansamos o sol com nossas conversas que o despacharam para o poente. No
dia seguinte a coluna de obituários do The Times registrava: Gerald
Francis Candless, detentor da comenda da Ordem do Império Britânico,
romancista, faleceu dia 6 de julho, aos setenta e um anos. Ele nasceu em 10 de
maio de 1926. Gerald
Candless foi autor de dezenove romances, publicados ao longo de quarenta e dois
anos, com início em 1955. É provável que seja lembrado mais
por seu Hamadryad, obra que constou da lista dos indicados para o Prêmio
Booker de 1979. Seus
romances eram considerados fora do comum na medida em que, sendo do gênero
de ficção literária, agradavam, pelo menos nos anos intermediários,
ao público em geral e eram tidos em alta conta pelos críticos. Foi
somente a partir de meados dos anos oitenta, no entanto, que seus trabalhos de
ficção passaram a fazer parte da lista de best-sellers, fenômeno
que coincida com o arrefecimento do entusiasmo de parte dos críticos. Eles
insinuavam que seus livros se "orientavam por demais pela trama" e,
por vezes, se assemelhavam à "ficção sensacionalista"
que predominara cem anos atrás. Apesar disso, ele foi incluído numa
lista compilada em 1995 por críticos periodistas que o definiam como um
dos vinte e cinco mais preeminentes romancistas de Segunda metade do século
vinte. Candless
nasceu e se criou em Ipswich, condado de Suffolk, filho único de um tipógrafo
e uma enfermeira, George e Kathleen Candless. Os estudos iniciais lhe foram ministrados
por aulas particulares que, mais tarde, foram complementadas no Trinity College
de Dublin, universidade pela qual se formou em literatura clássica. Ingressou
no jornalismo trabalhando para diversos periódicos semanais e diários
provincianos, inicialmente no Walthamstow Herald, sediado no leste londrino
e, com mais destaque, no Wester Morning News de Plymouth. Foi
durante a estada em Plymouth que ele escreveu seu primeiro livro. Tinha então
vinte e oito anos. Anos depois, ao ser entrevistado pelo Daily Telegraph,
disse ter se mirado no exemplo de Anthony Trollope e acordava todos os dias às
cinco da manhã para escrever durante três horas antes de ir para
o trabalho. O romance The Center of Attraction só encontrou um editor
receptivo na terceira tentativa. O livro foi publicado no outono de 1955. Merecedores
de crescentes aplausos, seguiram-se mais três livros até que Candless
pudesse viver exclusivamente do produto de seus romances. Mas passou-se muito
tempo até que ele pusesse de lado, de forma definitiva, o jornalismo. Porque
no início dos anos sessenta, por volta da época de seu casamento,
ele trabalhou para o Daily Mail como crítico do gênero ficção
e passou, a seguir e por uns bons tempos, a ser o editor da página literária
do jornal. Transferindo-se para o caderno de literatura do Observer, foi
seu editor substituto. Por
volta dessa época ele morava em Londres, em Hampstead, onde suas filhas
nasceram. Mais tarde ele se mudou com a família para um trecho do campo
que tinha sido um de seus locais favoritos desde os dias em que morou em Plymouth,
o litoral norte de Devon, entre Bideford e Ilfracombe. Ali, nas franjas do vilarejo
de Gauton, lugar onde viveu e trabalhou desde 1970 até a sua morte. Candless
se tornou membro da Real Sociedade de Literatura em 1976 e foi agraciado com a
comenda da Ordem do Império Britânico por ocasião das Honras
Natalícias* de 1986. Sua morte foi provocada por uma trombose coronária.
Deixa viúva Ursula Wick Candless, e tinha duas filhas, Sarah e Hope. Não
foram muitos os que compareceram ao enterro. Gerald Candless não tinha
parentes, nem seque um primo. As meninas estavam presentes, e também Fabian
Lerner, que era o namorado de Hope, e a irmã viúva de Ursula e sua
sobrinha casada, Pauline. Ao
lavar os cáciles de xerez, Daphne Batty disse: -
Quando minha mãe era mocinhas as mulheres nunca acompanhavam enterros. A
velha Sra. Batty estava com noventa e três anos. -
Eles chamavam a isso de "cortejo" e mulheres não participavam
desses acontecimentos. -
Por que não? – perguntou Ursula. -
Elas eram do sexo fraco e talvez não agüentassem. -
Então elas não são mais o sexo frágil? -
Elas foram ficando mais fortes com o passar dos anos, não é mesmo?
Você sabe disso. Daphne
espiou sobre os ombros, certificando-se de que ninguém mais a ouvia, e
acrescentou: -
O Fabian só veio porque nunca tinha assistido a um enterro antes. Foi o
que ele me disse. Ele queria ver como era. -
Espero que tenha correspondido às expectativas – disse Ursula ao se lembrar
da demonstração de pesar que Hope exibiu quando o caixão
foi baixado na cova forrada de grama sintética. Por um instante ela achou
que sua filha ia se jogar em cima do caixão, como Laertes o fez sobre o
túmulo de Ofélia. O
editor de Gerald também deve ter achado isso. Ele dera um passo à
frente e ela ouviu murmurar: "Ah, não, não!" Mas
Hope só havia se agachado sobre o cintilante relvado plástico para
chorar o desaparecimento do pai. Chorou
muito, e quando Pauline – por que ela? Quem pediu que ela fizesse isso? – jogou
um punhado de cascalho sobre o caixão, soluçou e oscilou para a
frente e para trás, agarrando mãos cheias do cabelo que despontava
de sua boina de veludo. Sarah
falou: -
Para Hope o choque foi profundo. Para todas nós. Também o sentimos,
mas não deixamos que nossas emoções transpareçam de
maneira como ela deixa. Ursula
nada disse. -
Ele foi o pai mais maravilhoso que qualquer pessoa poderia ter tido. Quando penso
nos pais das outras garotas de minha idade...! Quando éramos pequenas;
mas não devo pensar nisso agora. Não nesse momento. Caso contrário
começarei a chorar, como Hope. -
Mas você não faz escâdalo – disse Ursula. Sarah
examinou a mãe atentamente. Ela estava sentada à mesa da cozinha
com uma caneca de café à frente. Ursula era uma mulher robusta,
de costas retas, traços bonitos, mas não marcantes, dona de um rosto
suave, ainda sem vincos, um ar tranqüilo, olhos cinza-azulados, cabelos de
um louro pálido raiado de cinza e em constante desalinho porque se desprendiam
a toda hora do coque. Os cabelos compridos enrolados para fazer um coque do qual
sempre estavam a fugir uns fios eram coisa que caía bem numa adolescente,
mas pegava mal numa mulher mais velha, pensou Sarah. Mas eram poucas as pessoas
a visitar sua mãe, na verdade ninguém, a não ser Daphne Batty,
agora que Gerald se foi. Esses
pensamentos a trouxeram de volta ao que tinha em mente dizer. Não exatamente
o que ela queria dizer, mas o que ela achava que deveria. -
Como sabe, não posso continuar aqui. E Hope também não. Só
podemos ficar até amanhã. Portanto, não gostaria de aproveitar
a ocasião para voltar comigo? – Dito dessa maneira, a coisa não
pareceu muito afável. Ela fez nova tentativa. "Eu
ficaria feliz em hospedá-la. Pelo tempo que quiser. Você poderia
ficar tranqüila em casa durante as horas em que eu estiver no trabalho, ou
poderia ir às compras e, bem, ir ao cabeleireiro. – Ela pensou em acrescentar
que Hope daria umas passadinhas ao fim da tarde, mas não tinha certeza
de que isso corresponderia à verdade." Sarah
continuou: -
Você poderia ir ao shopping de Camden Lock. Você é uma exímia
andarilha. O percurso a pé até St. John’s Wood é um passeio
agradável. Ursula
repondeu: -
A caminhada pela praia até Franaton Burrows também é um passeio
agradável. É bondade sua, Sarah, mas eu estarei bem aqui. Acho que
devo ficar sozinha e ir me acostumando com essa condição. Ela
não falou da solidão sofrida, em todos os aspectos importantes,
durante três décadas. A convivência com outra pessoa na mesma
casa, uma presença espaçosa, brilhante, dominadora, mas indiferente,
não contribui nem um pouco para mitigar a solidão. Mas Ursula nada
disse, porque ela nunca falou dessas coisas para suas filhas ou, na verdade, para
quem quer que fosse. Ela
disse: -
Em todo caso, Pauline vem me fazer companheira por alguns dias. Embora
levantasse os olhos, Sarah não fez nenhum comentário a favor ou
contra a solução que considerava ser um problema de Ursula. As duas,
mãe e filha, estavam tão desacostumadas a dizer uma para a outra
o que realmente sentiam, tão habituadas a expressar trivialidades ou eventuais
observações sem importância, que Sarah, em vez de dizer agora
"antes você do que eu" ou "por que está se penitenciando?",
disse apenas: -
Suponho que ela lhe serviria de companhia. Pauline
certamente lhe serviria. Ela seria mais companheira do que Gerald tinha sido porque
realmente não importava muito o que você dissesse a ela, se é
que, na maioria das vezes, você tinha alguma coisa a dizer. Pauline estava
com trinta e oito anos de idade e tinha vindo muitas vezes ficar uns tempos com
as meninas quando elas eram pequenas. A diferença de idade de Pauline era
suficiente para que ela gostasse de tomar conta delas. E como todas as crianças
do sexo feminino que passaram pela casa, a casa de Hampstead e mais tarde por
essa, ela achava que Gerald Candless era o mais gentil, bondoso e amável
adulto que ela jamais conhecera. Aos catorze anos ela se apaixonou por ele. Então
houve aquele problema. Ninguém soube exatamente de que tipo, a não
ser Pauline e Gerald, mas o que quer que tenha sido ele o superou, e ela também,
e quando Pauline se casou, aos vinte e um, ela pediu que ele desempenhasse o papel
do pai da noiva e a conduzisse ao altar, pois seu próprio pai a essa altura
estava morto. |