Esqueletos
no Saara, de Dean King (tradução de Ana Maria Mandim e Sergio
Nunes de Caldas; Companhia das Letras; 464 páginas; 54 reais) Em
1815, o navio americano Commerce naufragou na costa ocidental da África.
O naufrágio foi o início de uma série de provações:
atacados por nativos, o capitão James Riley e seus marinheiros voltaram
ao mar a bordo de um bote. Desembarcaram à entrada do Deserto do Saara,
onde seriam escravizados por nômades árabes. Colaborador da revista
National Geographic Adventure e do jornal The New York Times, o
americano Dean King reconstitui com detalhes a aventura desses sobreviventes até
serem libertados no Marrocos.
Leia
trecho 7.
Capturados Os
homens chegaram à conclusão de que a luz fraca que viam tremular
ao longe era de uma fogueira de acampamento. Uma onda de alegria e medo os trouxe
de volta à vida. Ao menos havia a possibilidade de aliviar a sede e a fome
que queimavam suas entranhas como uma febre. O medo, disse Robbins, era de que
o remédio pudesse ser pior — como se isso fosse possível — do que
a doença. Apesar de miseráveis, ainda eram livres, e era sabido
que os cativos não costumavam ser bem alimentados entre os saaráuis
da costa. Mercadores de caravana que vinham do norte eram roubados e assassinados.
Espanhóis cujos barcos de pesca ficavam baseados nas Canárias e
por vezes encalhavam ali eram habitualmente assassinados, e outros ocidentais
eram submetidos a uma brutal escravidão. O bando de saaráuis que
capturara Pierre de Brisson se divertira olhando corvos famintos bicarem um de
seus companheiros de barco, que estava inconsciente, mas ainda vivo. Mais tarde,
Brisson encontraria o cadáver emaciado de seu escravizado capitão,
os dentes cravados na mão: seu amo havia parado de alimentá-lo quando
o cativo ficara doente demais para trabalhar. Embora
Riley sentisse as esperanças reavivar-se à vista da fogueira, manteve
a cautela. Recomendou que descansassem ali naquela noite para não surpreender
os homens acampados em volta do fogo e levá-los a uma reação
de frenesi assassino. A tripulação concordou. Na
senda aberta nos penhascos, eles pouco a pouco tomaram o caminho de descida em
meio a uma confusão de rochas partidas e tombadas até a areia que
haviam avistado, bem acima do mar, sobre uma encosta difícil de transpor.
A terra dura que cruzaram esfriou assim que o sol se pôs, mas a areia reteve
o calor. De acordo com Riley, ainda estava quente o bastante para "fritar
ovos", mas eles se encontravam exaustos demais para ir adiante. Os Commerces
escavaram até a areia fria abaixo da superfície, fazendo covas rasas
para seus corpos e jogando a areia quente para baixo da encosta. Dividiram um
pouco da urina que ainda tinham, rezaram e depois, sem dizer uma palavra, caíram
no sono. Todos, exceto Riley, cuja mente estava em um turbilhão. Apesar
do cansaço, ficou acordado, pensando no futuro deles e sofrendo de sede.
Ele levava muito a sério a responsabilidade em relação a
seus homens, em especial os mais jovens: Savage e Robbins — cujas famílias
tinham laços tão estreitos com sua própria família
—, e Horace, cujo pai morto tinha sido grande amigo seu e cuja mãe iria
agora, ao que tudo indicava, perder um filho. No dia seguinte, os saaráuis
acabariam por matá-los ou escravizá-los. O melhor que poderiam esperar
era serem resgatados. Era quase impossível para Riley suportar tais pensamentos. Estava
desesperado por dar um fim a sua sede, ainda que fosse pela morte. O remorso desaparecia
na agonia da sede. Pensava pouco em sua vida, nos filhos, não mais se despedia
em silêncio de sua mulher. Confessou depois, com a franqueza de um homem
compulsivo pela verdade, que todos os pensamentos sobre a família haviam
sido "quase inteiramente expulsos de minha mente"; ele venderia a vida,
admitiu, por um "gole de água fresca". Embora
rezasse para dormir pelo menos por uma hora, o sono não vinha. Pensamentos
amargos o atormentavam. Invejou o bem-sucedido estupor de seus homens. Por fim,
em desespero, sucumbiu. Em vez de trocar a vida por um arroio de água fresca,
negociou a honra por algumas gotas de urina velha. "Roubei um sorvo da água
do cozinheiro, que ele havia urinado e guardado em uma garrafa", Riley confessou
tempos depois. A substância salgada apenas aumentara a sede atroz. Ao
raiar do dia 10 de setembro, Riley despertou os homens. Eles careciam totalmente
de provisões: não tinham nada que pudesse ser chamado de comida
ou bebida — alguns possuíam urina engarrafada e pequenas tiras de carne
de porco salgada —; sem abrigo, sem roupas, sem armas, estavam em um meio hostil,
que, a seus olhos, parecia desprovido de recursos. A equação agora
era simples, e o resultado final, claro. Era necessária uma força
externa para que se salvassem, e eles só conheciam uma força assim. Para
preparar os homens, Riley deu informações práticas. "Se
estiver ao alcance de vocês, devem escrever para o senhor James Simpson,
o cônsul-geral norte-americano em Tânger, e contar o que aconteceu
a nosso barco e à tripulação. Ou escrever para qualquer mercador
cristão em Mogador, Gibraltar, ou qualquer outro lugar", ele disse.
"Enderecem ao cônsul em Argel, Túnis ou Trípoli, se ouvirem
algum desses lugares ser mencionado." Riley
prosseguiu:
Lembrem-se,
a Providência tem trabalhado a nosso favor. Submetam-se a seu destino como
homens, e, se formos feitos escravos, sejam obedientes a seu amo, como requer
o costume. Devemos nos submeter para salvar nossa vida. Resistência e teimosia
nos tornarão apenas mais miseráveis, e provavelmente levarão
os nativos a se sentirem insultados e a nos matar. Quando
se aprontavam para se dirigir ao acampamento que viram na noite anterior, os homens
inclinaram a cabeça, e Aaron Savage os conduziu em uma prece: "Pai
Nosso, que estais no céu, vos imploramos que nos protejais e deis alento
em qualquer situação em que nos encontremos, em quaisquer circunstâncias
em que sejamos chamados a agir, e em quaisquer sofrimentos que tenhamos de suportar". "Amém",
disseram todos. Os
homens desceram para uma praia e caminharam para o nordeste, na direção
do acampamento. Depois de mais ou menos três quilômetros, chegaram
a uma duna maciça. Quando a escalaram, viram um vale, que se separava do
mar por uma faixa de areia e do deserto, pelos penhascos da costa. A pouco mais
de oitocentos metros de distância, camelos e saaráuis se aglomeravam
em torno de um poço. Os
marinheiros se encolheram à visão daquelas estranhas pessoas e de
seus animais desajeitados. Uma coisa era perseguir a fagulha distante da luz de
um fogo de acampamento, que, ao fim de um dia desesperado, poderia parecer um
bom presságio. Outra coisa era implorar clemência a homens que viam
como selvagens. A opinião da tripulação mudara. Alguns queriam
esperar e observar. "Eles poderiam nos ajudar", outros argumentavam.
"Pode ser uma caravana indo para o norte." Riley estava convencido de
que não tinham escolha. Então avançaram. Um
árabe, vestido com um haik que lhe ia até os pés,
e duas mulheres com um manto longo, de tecido macio, que, com algumas crianças,
caminhavam na direção deles, foram os primeiros a vê-los.
Assim que entendeu o que estava vendo, o homem empunhou sua cimitarra e avançou
na direção deles com as mulheres e as crianças em seus calcanhares.
Os que estavam em volta do poço logo compreenderam que o destino os havia
colocado em desvantagem e partiram na direção dos marinheiros com
o ardor de homens que se sentem trapaceados. Riley
tomou a frente com os imediatos Williams e Savage. Eles se inclinaram até
o chão e lentamente se levantaram. Riley continuou a indicar submissão,
mas logo ficou claro que essa não era a questão. O problema era
a posse. O
homem — que depois souberam que se chamava Mohammed — correu furioso na direção
de Riley, com a cimitarra levantada acima da cabeça. Riley pensou que o
homem estava pronto a cortá-lo em dois. Esperou, sabendo que qualquer sinal
de resistência precipitaria isso. Inclinou-se novamente. O homem deixou
cair a arma e começou a arrancar as roupas de Riley. Frenéticas,
as duas mulheres fizeram o mesmo com Williams e Savage. Depois, junto com as crianças,
e sem mostrar medo, assaltaram o resto da tripulação, arrancando-lhe
as roupas. Apenas Robbins e alguns outros conseguiram ficar com as calças.
Mohammed então avançou sobre os marinheiros, brandindo a cimitarra
contra o peito deles e movimentando de um lado para outro a lâmina curva
acima da cabeça dos tripulantes, até que estes se acocoraram juntos
perante ele. Agarrando Dick Deslisle, o árabe voltou para o lado dos oficiais
antes que a horda atacante chegasse a eles. O árabe arrancou seu próprio
haik, ficando nu, e nele jogou todas as roupas que estavam no chão.
Pôs a trouxa sobre os ombros de Deslisle, indicando a Riley que ele e Deslisle
agora lhe pertenciam e que se ficassem sem a trouxa ele os mataria. Lanças,
cimitarras, porretes e mosquetes brilharam em uma tempestade vertiginosa de poeira
e confusão quando homens tribais, vestidos com peles de animais ou esvoaçantes
haiks brancos e turbantes, caíram sobre os marinheiros. Alguns estavam
a pé, outros alojados em alturas absurdas sobre seus camelos babões.
Quando os animais subitamente fizeram alto, os homens pularam e atacaram. O
homem nu e as duas mulheres deram vazão à própria fúria,
gritando com ódio atávico, agachando-se e, desafiadoramente, atirando
punhados de areia no ar para manter afastados os atacantes. "Todos
pareciam ansiosos para ser os primeiros na pilhagem" — observou com tranqüilidade
Robbins, compreendendo tempos depois o que havia acontecido — "quando, oh
Deus!, não havia nada para pilhar, exceto nossos corpos miseráveis!"
Riley ainda estava à frente, com Williams e Savage, quando os recém-chegados
os rodearam e, desrespeitando a preferência de Mohammed, começaram
a lutar pela posse deles. Meia dúzia de homens aos gritos disputava Riley,
o agarrando e puxando em direções diferentes. O mesmo acontecia
com Deslisle. Como
um ciclone em uma tempestade, Mohammed saltava de um lado para outro, afastando
os agressores com ameaças e golpes de cimitarra. Berrou que dividissem
o resto dos marinheiros como lhes agradasse, mas que ficassem longe daqueles dois.
Alguns concordaram, fazendo gestos enfáticos de cabeça, e foram
pegar outros homens, mas o número de marinheiros era pequeno demais para
satisfazer a todos. Continuaram a lutar por Riley, as armas brilhando a centímetros
do corpo do marinheiro e de sua cabeça, até que o zunido do choque
entre os metais pareceu a Riley mais alto do que os gritos. Ele era o indefeso
pivô de uma intensa batalha, na qual os observava "cortar os braços
uns dos outros aparentemente até o osso, e depois deixar as costelas nuas
com ferimentos profundos, enquanto cabeças, mãos e coxas recebiam
inúmeros talhos e feridas". O sangue empapava as roupas brancas. Era
um cenário de pandemônio, e, diante de tudo aquilo, os horrorizados
norte-americanos não podiam fazer nada além de rezar para que uma
lâmina não os jogasse por terra. Ao
longo de uma hora, facções de árabes se apossaram de vários
marinheiros, separando-os do grupo e voltando para o poço, até que
a confusão se fragmentou em várias disputas isoladas. Por volta
das oito horas, a questão foi acertada, ao menos por ora, e todos se reagruparam
em torno do poço. Alguns nômades estavam exultantes com seus troféus.
Outros cuidavam dos ferimentos, se remoíam e conspiravam. Outros ainda
voltavam com troféus menores, tendo pilhado a trouxa de roupas confiada
a Deslisle e quaisquer outros objetos que tivessem arrancado de seus donos durante
a confusão. O cozinheiro só logrou conservar o haik de seu
amo, um artigo que ninguém ousou agarrar. Apressando
Riley e Deslisle em direção ao poço, as irmãs de Mohammed
— mulheres vigorosas que usavam túnicas abertas dos lados e véus
azuis — batiam neles com varas. Enquanto iam adiante, tropeçando, Riley
apontou para sua boca, que sangrava, queimada pelo sal do mar e esbranquiçada
pela desidratação. Ele não se importava com nada mais, exceto
aplacar a sede. Um
por um, os marinheiros ingressaram no desnorteante cenário em torno do
poço. No meio da poeira que revoluteava e do fedor dos animais, os árabes
bebiam água, enchiam gamelas feitas de pele de camelo e levavam as bestas
de uma só corcova para a frente e para trás com gritos guturais
e duras pancadas de vara em seus pescoços e ancas. Os camelos, rangendo
os dentes manchados e rosnando uns para os outros e para seus amos, se empurravam
para conseguir espaço em volta dos cochos, que comportavam 76 litros de
água cada um e acomodavam meia dúzia de animais de uma só
vez. Quando um camelo conseguia espaço em torno do cocho, seu longo pescoço
se esticava para baixo; sua cabeça pontuda se imobilizava como em um momento
de êxtase; as amplas mandíbulas trabalhavam ritmicamente, emitindo,
ao tragar, sons obscenos. Exaustos,
famintos, cheios de adrenalina, amedrontados, mas não mais moribundos,
os marinheiros caminhavam de um lado para outro nervosamente como se fossem eles
próprios animais encurralados. Após quase duas semanas de exposição
aos elementos da natureza, dia e noite, eles estavam barbudos, macilentos e nus.
Crianças cor de bronze, também nuas, riam e escarneciam deles. Mulheres
de seios à mostra e homens semivestidos gritavam com eles, chamando-os
da coisa mais baixa em que podiam pensar: Kelb es-sahrawi, "cães
do deserto", ou kelb en-Nasrani, "cães cristãos". Robbins,
então, não conseguiu mais suportar a sede. Abriu caminho com os
ombros entre dois camelos e mergulhou a cabeça em um cocho. Isso espantou
os animais maciços, de três metros de altura, que começaram
a se mexer e bufar, atraindo a atenção dos saaráuis, que
afastaram Robbins do cocho com xingamentos e varadas. Impressionados com o tamanho,
a força e a iniciativa de Robbins, os homens tornaram a brigar por ele,
três ou quatro puxando-o em direções diferentes, como haviam
feito antes. Uma
mulher levou uma gamela grande de madeira cheia de um líquido escuro e
fétido, que Riley comparou com "água podre de fundo de porão
de navio". Quando ela pôs a gamela no chão, na frente de Riley
e Deslisle, as irmãs de Mohammed obrigaram os dois a se ajoelharem. Riley
advertira seus homens de que, se chegassem a um poço, deviam tomar cuidado
para não beber demais. A despeito de seu próprio aviso sobre a impureza
da água, ele e Deslisle beberam como animais, sorvendo quase dois litros
cada um sem levantar a cabeça. Trouxeram
mais água, e as mulheres juntaram a ela um tanto de leite azedo vindo de
um recipiente feito de pele de cabra. Riley declarou que a mistura, que os árabes
chamavam de zrig, era "deliciosa", e ele e seus companheiros
encheram o estômago. Quase de imediato, a diarréia roncou em seus
intestinos e foi expelida pernas abaixo. No imundo círculo em volta do
poço, a sujeira deles não fazia diferença. O mau cheiro dos
animais, somado ao fedor de estrume e urina de camelo, dominava tudo. O banquete
de mendigo dos marinheiros prosseguiu até que, torturados por violentos
espasmos estomacais, não agüentaram mais. Os
captores separaram seus respectivos marinheiros e os levaram para os lados para
serem vigiados. Um homem alto e magro da tribo tomou posse de Robbins e o entregou
aos olhos vigilantes de suas duas irmãs. Perto dali, Robbins encontrou
Savage, Williams e Barrett bebendo zrig e se juntou a eles. A sede deles
era imensa. Enquanto os árabes continuavam a dar água à manada
— cerca de quatrocentas cabeças de camelo que bramiam —, os marinheiros
bebiam copiosamente. Por volta das dez da manhã, começaram a ter
a sensação de que afinal haviam matado a sede. Agora, notavam que
o apetite começava a voltar. A
ciência moderna confirma essa seqüência de eventos. Se for dado
bastante líquido a uma pessoa seriamente desidratada, ela pode se hidratar
mais ou menos em 80% em meia hora, mas não consegue atingir esse índice
sem comer. O corpo dos marinheiros estava revelando isso. Loucos de fome, imploraram
por comida, mas os nômades indicaram que não tinham nada para dar
a eles. Foi uma notícia terrível: até mesmo os supostos salvadores
estavam de mãos vazias. Com comida e mais água ou zrig, os marinheiros
teriam se hidratado quase por completo em doze horas, desde que a disenteria não
fosse muito intensa. Do jeito como iam as coisas, os Commerces iniciavam seu cativeiro
no Saara com severas deficiências tanto de alimento quanto de líquido. O
sol inclemente do deserto trespassava agora o alarido humano e o estrépito
das bestas, e o suor escorria livre pelos poros dos marinheiros. "Nossa pele",
observou Riley, "parecia na verdade estar sendo fritada como carne ao fogo."
Os nômades lutavam para acabar de dar água aos animais. Os mais rápidos
separaram seus camelos e juntaram os cativos: Williams e Barrett com um amo, na
companhia de Robbins e seu amo; Porter, Hogan e Burns saíram, cada um,
com seu amo, enquanto Riley, Savage, Deslisle e Horace olhavam sem nada poder
fazer. A
separação da tripulação criou uma nova angústia.
Embora o Commerce lhes tivesse trazido má sorte, eles haviam sobrevivido
juntos. O brigue continuava a existir, ao menos como princípio organizador;
ainda eram companheiros de navio, marinheiros e oficiais, com cargos e responsabilidades.
De um único golpe, essa estrutura foi demolida. De repente cada homem estava
por conta própria, sem contar com a tripulação para receber
ou dar ajuda. Não sabiam para onde estavam indo ou se ainda se veriam outra
vez. "É
completamente impossível descrever os sentimentos em meu peito com aquele
adeus", escreveu Robbins, que esteve entre os primeiros a se despedirem dos
companheiros e sentiu um desespero palpável com a ruptura, como se estivesse
sofrendo a própria morte. "Aquilo me deixou em um estado de horror
e angústia tão grande que, na época, pensei que sobreviveria
por pouco tempo." Cada
amo fez um camelo se ajoelhar e conduziu seu escravo para que ele montasse no
animal no espaço atrás da corcova, sobre a traseira inclinada e
o osso da cauda. O camelo se levantava jogando primeiro a traseira para o ar,
e então o marinheiro ficava dependurado, desafiando a gravidade, olhando
por cima da cabeça do animal, direto para o chão. O quadrúpede,
então, se inclinava para trás; suas pernas frontais ossudas se esticavam
e firmavam, enquanto o marinheiro se agarrava desesperado ao curto pêlo
de verão do animal. Uma vez que o camelo estivesse em pé, era como
estar no tope do mastro de um navio em um mar agitado. Sem estribos ou selas,
os ossos das coxas e do traseiro dos marinheiros roçavam direto na anatomia
movediça dos camelos. Um a um, homem e besta subiram para fora do vale
onde ficava o poço, passando por uma estreita ravina no penhasco, em direção
ao deserto acima. |