Homem
Lento,
de J.M. Coetzee (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia
das Letras; 278 páginas; 46 reais) As primeiras páginas deste
novo romance do sul-africano J.M. Coetzee já bastariam para justificar
o Prêmio Nobel que lhe foi conferido em 2003. Trata-se da descrição
do atropelamento de um ciclista, com base na percepção confusa que
ele mesmo tem do evento. Seu nome é Paul Rayment, fotógrafo aposentado
em Adelaide, Austrália. Como é comum na produção do
autor basta lembrar sua obra-prima, Desonra , não há
muita esperança em Homem Lento. O romance acompanha a excruciante
recuperação de Paul, depois de ter a perna amputada uma história
na qual intervém a escritora Elizabeth Costello, personagem da obra anterior
de Coetzee.
Leia
trecho O
choque o colhe pela direita, duro, surpreendente e doloroso, como uma faísca
elétrica, e levanta seu corpo da bicicleta. Relaxe!, ele diz a si mesmo
enquanto voa pelo ar (voa pelo ar tão cheio de graça!)* e de fato
sente os membros obedientemente moles. Como um gato, diz a si mesmo: role, depois
se ponha de pé, pronto para o que vier em seguida. A palavra pouco usual
limber ou limbre** também está à vista.
Mas não é bem assim que as coisas acontecem. Seja porque suas pernas
desobedecem, seja porque de momento está tonto (ouve, mais do que sente,
o impacto do crânio no asfalto, distante, oco, como um golpe de marreta),
ele absolutamente não se levanta; ao contrário, desliza metro após
metro, sem parar, até se sentir quase embalado pelo deslizar. *
"He flies through the air with the greatest of ease, this daring young man
on his flying trapeze" ["Ele voa pelo ar tão cheio de graça,
o ousado rapaz do trapézio voador"]: verso de uma conhecida canção
norte-americana. (N. T.) ** Maleável. (N. T.)
Fica esticado no chão, em paz. É uma manhã gloriosa. O toque
do sol é suave. Há coisas piores do que largar o corpo, esperar
a força voltar. Na verdade, pode haver coisas piores do que tirar uma soneca
rápida. Fecha os olhos; o mundo oscila debaixo dele, roda; ele apaga.
Por um momento, breve, volta a si. O corpo que voou tão leve no ar ficou
pesado, tão pesado que não consegue levantar nem um dedo. E alguém
está parado em cima dele, tirando-lhe o ar, um jovem de cabelo arrepiado
e espinhas na testa. "Minha bicicleta", ele diz ao rapaz, enunciando
a palavra difícil sílaba por sílaba. Quer perguntar o que
aconteceu com sua bicicleta, se cuidaram dela, já que, como é bem
sabido, uma bicicleta pode desaparecer num relâmpago; mas antes de chegarem
essas palavras ele apaga de novo. 2. Está
sendo embalado de um lado para outro, transportado. De longe, chegam-lhe vozes,
um tumulto que sobe e desce com ritmo próprio. O que está acontecendo?
Se abrisse os olhos, saberia. Mas não consegue ainda. Alguma coisa está
vindo até ele. Uma letra de cada vez, claque claque claque, uma mensagem
sendo datilografada em uma tela rosada que treme como água cada vez que
ele pisca e é, portanto, muito provavelmente, a parte interna de sua própria
pálpebra. e-r-t-y, dizem as letras, depois f-r-i-v-o-l, depois um tremor,
depois e, depois q-w-e-r-t-y, e assim por diante
Frivole.* É tomado por algo como pânico. Se retorce; da caverna interior
um gemido cresce e explode de sua garganta. "Dói
muito?", diz uma voz. "Calma." A picada de uma agulha. Um instante
depois, a dor é lavada, depois o pânico, depois a consciência
em si.
Desperta em um casulo de ar morto. Tenta sentar-se, mas não consegue; é
como se estivesse revestido de concreto. Em torno dele, uma brancura inexorável:
teto branco, lençóis brancos, luz branca; também uma brancura
granulosa como pasta de dentes velha em que sua mente parece envolta, de forma
que não consegue pensar direito e se desespera. "O que é isso?",
pronuncia ou talvez grite mesmo, querendo dizer O que é isto que está
acontecendo comigo? ou Que lugar é este onde eu me encontro? ou mesmo Que
destino é esse que me coube? *
Em francês, "frívolo". (N. T.)
Aparece do nada uma garota de branco, faz uma pausa, olha para ele vigilante.
Em sua confusão mental, ele tenta criar uma interrogativa. Tarde demais!
Com um sorriso e um tapinha tranqüilizador no braço que ele parece
estranhamente ouvir, mas não sentir, ela segue seu rumo.
Isto é grave?: se houver tempo para uma pergunta apenas, a pergunta deverá
ser essa, embora ele prefira não se deter no que a palavra grave possa
significar. Ainda mais urgente, porém, que a questão da gravidade,
mais urgente que a espreita da pergunta do que realmente aconteceu na rua Magill
para atirá-lo nesse lugar morto, é a necessidade de encontrar seu
rumo para casa, fechar a porta, sentar-se em ambiente familiar, recuperar-se.
Tenta tocar a perna direita, a perna que manda obscuros sinais de que agora é
a perna errada, mas sua mão não sai do lugar, nada sai do lugar.
Minha roupa: talvez essa deva ser a inócua questão preparatória.
Onde está minha roupa? Onde está minha roupa e até que ponto
é grave a minha situação?
A garota flutua de novo para seu campo de visão. "Roupa", ele
diz, com um imenso esforço, levantando o mais que pode as sobrancelhas
para indicar urgência. "Não
se preocupe", diz a garota e dá-lhe a bênção de
mais um de seus sorrisos, seus sorrisos positivamente angélicos. "Está
tudo certo, tudo sob controle. O médico vem falar com o se- nhor daqui
a pouquinho." E, de fato, antes que se passe um minuto um jovem que deve
ser o médico mencionado se materializa ao lado da garota e murmura no ouvido
dela. "Paul?",
diz o jovem médico. "Está me ouvindo? É esse mesmo o
seu nome, Paul Rayment?" "É",
ele responde com cuidado. "Bom
dia, Paul. Deve estar se sentindo um pouco tonto agora. É porque tomou
uma dose de morfina. Vamos entrar em cirurgia daqui a pouquinho. Você levou
uma trombada, não sei até que ponto se lembra, e a sua perna ficou
muito comprometida. Vamos dar uma olhada e ver quanto podemos salvar."
Ele arqueia as sobrancelhas de novo. "Salvar?", tenta dizer.
"Salvar sua perna",
repete o médico. "Vamos ter de amputar, mas vamos salvar o que for
possível."
Algo deve acontecer com o rosto dele nesse momento, porque o jovem faz uma coisa
surpreendente. Estende a mão para tocar seu rosto e deixa a mão
pousada ali, aninhando sua cabeça de velho. É o tipo de coisa que
uma mulher poderia fazer, uma mulher com uma pessoa que amasse. O gesto o deixa
constrangido, mas por educação não pode recuar.
"Vai confiar
em mim?", diz o médico.
Tonto, ele pisca os olhos. "Ótimo."
Uma pausa. "Não temos escolha, Paul", diz ele. "Este não
é um daqueles casos em que temos escolha. Você entende? Dá
sua permissão? Não vou pedir que assine nada, mas temos o seu consentimento
para prosseguir? Vamos salvar o que for possível, mas você levou
uma pancada e tanto, o dano foi muito grande, não sei dizer agora se vamos
conseguir salvar o joelho, por exemplo. O joelho foi quase completamente esmagado
e uma parte da tíbia também."
Como se soubesse que estão falando a respeito dela, como se essas terríveis
palavras a acordassem de um sono inquieto, a perna direita emite uma pontada de
dor branca e aguda. Ele ouve a própria respiração entrecortada
e depois o sangue latejando nos ouvidos "Certo",
diz o jovem, e dá-lhe um tapinha no rosto. "Hora de ir." |