Contos
Completos,
de Virginia Woolf (tradução de Leonardo Fróes; Cosac &
Naify; 472 páginas; 59 reais) Autora de romances como Mrs. Dalloway
e Orlando, a inglesa Virginia Woolf (1882-1941) também era uma
grande contista, empregando nesse gênero a mesma evocação
impressionista de atmosferas e sentimentos que caracteriza suas narrativas longas.
É a primeira vez que se editam seus contos completos no Brasil, e o texto
Um Diálogo no Monte Pentélico, inspirado por uma viagem que
ela fez à Grécia em companhia do irmão, é inédito
no país. O livro é organizado em ordem cronológica, o que
permite acompanhar a evolução de Virginia no caminho de se tornar
a maior voz feminina do modernismo inglês. A edição traz um
apêndice com notas sobre as circunstâncias em que a autora produziu
cada conto.
Leia
trecho Um
diálogo no Monte Pentélico "Aconteceu,
e não há muitas semanas, que um grupo de turistas ingleses desceu
a encosta do Pentélico. Eles porém teriam sido os primeiros a reti?car
esta frase e a assinalar o quanto de inexatidão e injustiça se continha
nessa descrição de seu grupo. Porque chamar um homem de turista,
quando o encontramos no exterior, é de?nir não apenas suas circunstâncias,
mas também sua alma; e suas almas inglesas, teriam dito mas os burros
assim tropeçam nas pedras , não estavam sujeitas a limitações
desse tipo. Os alemães são turistas e os franceses são turistas,
mas os ingleses são gregos. Tal era o sentido da conversa entre eles, e
devemos ouvir suas palavras, que nisso, de fato, eram de muito bom senso. O monte
Pentélico, como sabemos nós que lemos o Baedeker, traz porém
em seu ?anco a nobre cicatriz dos ferimentos sofridos nas mãos dos canteiros
gregos que o talhavam, recebendo de Fídias um sorriso, quando não
um insulto, como recompensa por seu trabalho.1 Assim, para fazer justiça
ao monte, deve-se meditar sobre vários temas à parte e combiná-los
da melhor maneira possível. Não se deve tomá-lo apenas por
aquele contorno que passava por tantas janelas gregas Platão erguia
os olhos da página, nas manhãs ensolaradas , mas também
como o?cina de trabalho e local de moradia onde inumeráveis escravos iam
perder a vida. Para o grupo, quando ao meio-dia eles desmontaram, foi salutar
ter de cambalear penosamente por entre os blocos de mármore em bruto que,
por alguma razão, tinham sido esquecidos ou deixados de lado quando as
carretas desciam para Atenas. Foi salutar porque na Grécia pode-se esquecer
que as estátuas sejam feitas de mármore; foi bené?co ver
como se opõe o mármore, sólido e fragoso e intratável,
ao cinzel do escultor. Assim eram os gregos! Quem ouvisse tal grito
poderia supor que cada um dos falantes tinha alguma conquista pessoal a celebrar,
sendo ele mesmo o generoso vencedor da pedra. Que outrora a forçara, com
suas próprias mãos, a entregar seus Hermes, seus Apolos. Mas então
os burros, cujos ancestrais tinham sido estabulados na gruta, deram ?m à
meditação e os cavaleiros, seis em ?la, foram descendo gravemente
pelo ?anco do monte. Tinham visto Maratona e Salamina, e Atenas, se não
houvesse uma nuvem que a acariciava, também teria sido deles; de alguma
forma, sentiam-se municiados, de ambos os lados, por presenças tremendas.
E, para mostrarem-se devidamente inspirados, não só repartiram sua
garrafa de vinho com o séquito de jovens gregos do campo, imundos, mas
até condescenderam em dirigir-se a eles na própria língua
local, como a falaria Platão, se tivesse aprendido grego em Harrow. Que
outros decidam se foram justos ou não; mas o fato de palavras gregas faladas
em solo grego serem mal compreendidas por gregos destrói de um só
golpe toda a população da Grécia, homens, mulheres e crianças.
Uma palavra apropriada, em face da crise, lhes veio aos lábios; uma palavra
que Sófocles poderia ter dito e que Platão teria sancionado; eles
eram bárbaros. Denunciá-los assim era não só
desincumbir-se de um dever em relação aos mortos, mas também
proclamar os legítimos herdeiros, e as pedreiras de mármore do Pentélico,
por alguns minutos, estrondearam a notícia a todos que pudessem dormir
debaixo dos seus calhaus ou ocupar as cavernas. O povo espúrio foi condenado;
a raça escura e tagarela, de língua solta e instável de intenções,
que por tanto tempo havia parodiado a fala e surrupiado o nome dos grandes, foi
pega e condenada. Obediente ao grito do arrieiro ao descer aos locais de sua guarda
uma mula branca puxava a ?la com a boa vontade de alguém
que livra as próprias costas a cada golpe que aplica sobre costas alheias.
Pois o inglês, quando gritou, julgou que era melhor ir mais rápido.
Não poderia ter-se mostrado mais feliz como crítico; o momento possuía
sua própria palavra; poeta algum faria mais do que isso; e a um prosador
seria fácil ter feito menos. Assim, com aquele simples grito, os ingleses
saíram aos tropeções de seu clímax para descer a montanha
em algazarra, tão despreocupados e jucundos como se a terra fosse deles.
Mas a descida do Pentélico a certa altura se aplaina numa chapada verde
onde a natureza parece soerguer-se um momento antes de mergulhar novamente encosta
abaixo. Há grandes plátanos de mãos benevolentes abertas,
e há cômodas moitinhas, dispostas em estrita ordem caseira; há
um riacho do qual se pode pensar que cante loas e as delícias do vinho
e da canção. Poder-se-ia ouvir a voz de Teócrito, na queixa
que fazia nas pedras, e alguns dos ingleses a ouviram mesmo, embora o texto, nas
prateleiras em casa, andasse bem empoeirado. Aqui, seja como for, a natureza e
o cantar do espírito clássico impulsionaram os seis amigos a desmontar
e descansar um pouco. Seus guias se recolheram, mas não tão longe
que não pudessem ser vistos em seus trejeitos de bárbaros, pulando
e cantando, puxando-se uns aos outros pela manga e falando das uvas já
maduras que pendiam nos campos. Mas se há coisa que sabemos dos gregos
é que eram gente tranqüila, muito expressiva ao gesticular e falar,
e aqueles, ao sentarem-se à beira do riacho, sob um plátano, dispuseram-se
como um pintor de vasos teria certamente gostado de retratá-los: o rosto
escuro do velho, quando seu queixo caiu sobre o cajado, virou-se para cima do
jovem estendido no gramado a seus pés. Mulheres sérias, caladas,
passavam de roupa branca por trás, equilibrando ânforas nos ombros.
Nenhum especialista da Europa poderia recompor esse quadro, nem convencer nossos
amigos de que algum teria mais direito de construir tais visões do que
eles mesmos. Estenderam-se pois na sombra, e não foi culpa deles, nem dos
antigos, se seu discurso não esteve à altura, na concepção
pelo menos, de seu nobre modelo. Mas como, em se tratando de diálogos,
escrever é ainda mais difícil do que falar, como é duvidoso
se diálogos escritos foram jamais falados ou se diálogos falados
jamais foram escritos, trataremos de salvar tão-somente fragmentos concernentes
à nossa história. Não deixaremos de dizer todavia que a conversa
entre eles era a melhor conversa do mundo." |