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Contos Fantásticos, de Ryûnosuke Akutagawa (tradução de Diogo Kaupatez; Z; 96 páginas; 25 reais) – Nome essencial da literatura de seu país, o japonês Akutagawa (1892-1927) foi um escritor atormentado, que se suicidou aos 35 anos. Ele converteu sua angústia em ingrediente de contos que se equilibram entre o macabro e a sátira dos costumes de seu país. Vários dos cinco textos reunidos na antologia são inéditos no Brasil – e todos foram traduzidos diretamente do japonês. Constam da seleção seus dois contos mais famosos, nos quais se baseia o filme Rashomon (1950), de Akira Kurosawa. A obra homônima é uma fábula de horror: narra o encontro de um servo com uma ladra de cabelos de cadáveres. Já Dentro da Mata reconta o assassinato de um samurai pela visão de diferentes personagens.

Leia trecho

Caía a tarde. Debaixo do Rashômon, um servo aguardava a chuva passar. Com exceção deste homem, não havia mais nin­guém sob o amplo portal. Apenas um grilo, pousado em uma grande coluna circular, cujo avermelhado do verniz dava mostras de desbotamento aqui e acolá. Uma vez situado na Avenida Suzaku, seria normal haver, afora este homem, mais duas ou três pessoas sob o Rashômon à espera de uma pausa na chuva, com seus chapéus largos e pontudos no topo, tran­çados com casca de bambu. No entanto, não havia ninguém. Apenas este homem.

Kyôto era vítima, nos últimos dois ou três anos, de calamidades sucessivas. Terremotos, tufões, incêndios, fome e carestia assolavam a cidade. Por conta disso, os ânimos não podiam estar senão arrefecidos dentro da capital. Segundo crônicas antigas, imagens e acessórios feitos de madeira envernizada e folheados a ouro e prata, utilizados nos altares budistas, foram despedaçados, amontoados e vendidos a preço de lenha nas margens dos caminhos. Sendo este o panorama geral, coisas supérfluas, tais como a restauração do Rashômon, foram deixadas de lado. Estando o portal abandonado e em ruínas, outros seres com interesses particu­lares passaram a tirar vantagem da situação e a habitar o local. Texugos. E ladrões. Por fim, tornou-se hábito levar ao Rashômon cadáveres sem reclamantes e deitá-los ali, aban­donados. As pessoas sentiam que algo maligno emanava da área e, quando a luz do sol se fazia ausente, não se escutava som de passos em suas cercanias. Daí o porquê do homem estar sozinho naquele instante.


 
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