Os
Loureiros Estão Cortados, de Édouard Dujardin (tradução
de Hilda Pedrollo; Brejo; 117 páginas; 24 reais) Embora seja uma
figura esquecida, o francês Édouard Dujardin (1861-1949) influenciou
muita gente. Ele foi um precursor da literatura modernista ao lançar mão
do chamado "fluxo de consciência" técnica narrativa calcada
na introspecção e que seria consagrada pelo irlandês James
Joyce e pela inglesa Virginia Woolf. Joyce creditava a Os Loureiros
Estão Cortados sua inspiração em Ulisses. Publicada
em 1888, a novela acompanha os pensamentos de um jovem que, durante seis horas,
caminha por Paris à espera de sua pretendente. Simbolista, Dujardin tem
uma prosa próxima da poesia.
Leia
trecho Capítulo
1 Um
entardecer de sol se pondo, ar distante, céu profundo, e massas confusas,
ruídos, sombras, multidões, espaços de extensão infinita;
um vago entardecer... Pois
sob o caos aparente, entre o tempo e o espaço, na ilusão das coisas
que se engendram e se criam, um entre os outros, um como os outros, distinto dos
outros, semelhante aos outros, um igual e um a mais, do infinito das possíveis
existências, surjo eu; e eis que o tempo e o espaço se precisam 1;
é o hoje; é o aqui; a hora que bate; e, em volta de mim, a vida;
a hora, o lugar, um entardecer de abril, Paris, um entardecer claro de sol se
pondo, os ruídos monótonos, as casas brancas, a sombra das árvores;
um entardecer agradável, e uma alegria de ser alguém, de ir; as
ruas e as pessoas, e lá muito longe o céu; Paris em volta canta
e, na bruma das formas percebidas, suavemente emoldura o quadro. ...
A hora soou; seis horas, a hora esperada. Eis a casa onde devo entrar, onde encontrarei
alguém; a casa; o vestíbulo; entremos. A tarde cai; o ar está
bom; existe alegria no ar. A escada; os primeiros degraus. Se por acaso ele tiver
saído antes da hora? isso acontece às vezes; mas eu queria lhe contar
o que fiz hoje. O primeiro andar; a escada larga e clara; as janelas. Confiei
a ele, a este bravo amigo, minha história de amor. Que bela noite eu terei!
Finalmente ele não vai mais zombar de mim. Que noite deliciosa será!
Por que o tapete da escada está virado no canto? isso deixa sobre o vermelho
uma mancha cinzenta, sobre o vermelho que sobe de degrau em degrau. O segundo
andar; a porta à esquerda; "Estudo". Tomara que ele não
tenha saído; onde eu iria encontrá-lo? Paciência, eu iria
ao bulevar. Entramos vivamente. A sala de Estudo. Onde está Lucien Chavainne?
A vasta sala, as cadeiras dispostas em círculo. Ali está ele, perto
da mesa, inclinado; está com seu sobretudo e seu chapéu; arruma
papéis apressadamente com um outro empregado. A prateleira de brochuras
azuis, no fundo, amarradas com cordões. Paro na entrada. Que prazer em
contar esta história! Lucien Chavainne ergue a cabeça; me vê;
boa tarde. –
É você? Chegou bem na hora; você sabe que às seis nós
saímos. Quer me esperar? Desceremos juntos. –
Está bem. A
janela está aberta; atrás, um pátio cinza, cheio de luzes;
os altos muros cinzentos iluminados pelo bom tempo; o dia feliz. Tão gentil
foi Léa ao me dizer: Até à noite... Ela tinha seu belo sorriso
travesso, como há dois meses. Em frente, numa janela, uma criada; ela olha;
enrubesce; por quê? Retira-se. –
Cá estou. É
Lucien Chavainne; ele pegou sua bengala; abre a porta; saímos; descemos
os dois a escada. Ele: –
Você está usando seu chapéu-coco... –
Sim. Ele
fala num tom de censura. Por que eu não usaria um chapéu-coco? Esse
rapaz pensa que a elegância consiste nessas futilidades. O cubículo
do porteiro; vazio, como sempre; casa estranha. Será que Chavainne vai
pelo menos me acompanhar um pouco? ele nunca quer aumentar seu trajeto; é
tão aborrecido. Chegamos na rua; um carro à porta; o sol incendeia
as fachadas; a torre Saint-Jacques a nossa frente; vamos em direção
à praça do Châtelet. –
E a sua paixão? Ele
me pergunta; respondo-lhe. –
Sempre mais ou menos a mesma coisa. Caminhamos
lado a lado. –
Você está vindo da casa dela? –
Sim, eu fui vê-la. Durante duas horas conversamos, cantamos, tocamos piano.
Ela marcou encontro comigo esta noite, depois do seu teatro. –
Ah! E
com que graça! –
E você, o que tem feito de bom? –
Eu? Nada 1. Silêncio.
Moça encantadora! ela zangou-se por não conseguir completar as estrofes.
Eu, da minha parte, estava fora do compasso, mas não confessei o erro;
estarei mais atento esta noite, quando recomeçarmos. –
Você sabe que ela agora só aparece quando a cortina levanta? Irei
esperá-la por volta das nove horas, no Nouveautés 2;
passearemos juntos de carro; no Bois 3, sem dúvida; o tempo
está tão agradável. Depois eu a levarei para casa. –
E você tratará de ficar? –
Não. Deus
me perdoe! Chavainne nunca compreenderá meus sentimentos? –
Você é espantoso, diz ele, com esse platonismo. Espantoso...
platonismo... –
Sim, meu caro, é assim que eu entendo as coisas; sinto mais prazer em agir
de maneira diversa da que outros agiriam. –
Mas, meu caro amigo, você não pensa no que é a mulher com
quem está envolvido. –
Uma moça de teatro, certamente, e é por isso mesmo que tenho prazer
em agir como ajo. –
Você espera tocá-la? Ele
caçoa; é insuportável. Não, ela não é
a moça que se poderia supor. Assim mesmo... A rue de Rivoli; atravessemos;
cuidado com os carros; quanta gente! Seis horas, é a hora do tumulto, principalmente
neste bairro; o bonde; deixemo-lo passar. –
Tem um pouco menos de gente do lado direito, digo. Seguimos
pela calçada, um perto do outro. Chavainne: –
Bom, um prazer desses não vale o que custa. Faz três meses que você
conhece essa jovem... –
Eu freqüento a casa dela há três meses, mas você sabe
muito bem que faz mais de quatro meses que a conheço. –
Seja. Há quatro meses que você está se arruinando em vão. –
Você está caçoando de mim, meu caro Lucien. –
Sem nunca lhe ter dirigido uma palavra sequer, você deu a ela, por intermédio
da camareira, quinhentos francos. Quinhentos
francos? não, trezentos. Mas, de fato, eu havia dito a Chavainne quinhentos. |