O
Sr. Pip,
de Lloyd Jones (tradução de Léa Viveiros de Castro;
Rocco; 272 páginas; 34 reais) O jornalista neozelandês Lloyd
Jones cobriu o bloqueio que o governo de Papua-Nova Guiné impôs à
ilha de Bougainville durante uma guerra civil nos anos 90. Essa crise compõe
o cenário histórico deste delicado romance: o único homem
branco que permanece em Bougainville durante o bloqueio torna-se professor em
uma escola local. Nas aulas, lê Grandes Esperanças, clássico
do inglês Charles Dickens. Os alunos nativos em particular a pequena
Matilda, narradora do livro se identificam com o órfão Pip,
o herói de Grandes Esperanças. O Sr. Pip é um dos
seis finalistas do prêmio Man Booker deste ano (o vencedor será anunciado
em outubro).
Leia
trecho Nos
trópicos, a noite cai rapidamente. Não fica pairando nenhuma lembrança
do dia que passou. Num instante, conseguem-se ver os cachorros magros e famintos,
no outro, eles já se transformaram em sombras escuras. Se não estivermos
com as velas e os lampiões de querosene à mão, o rápido
cair da noite é como ser trancado numa cela escura, de onde só se
é libertado na manhã seguinte. Durante
o bloqueio, não podíamos desperdiçar combustível nem
velas. Mas, enquanto os rebeldes e os peles-vermelhas continuavam a trucidar uns
aos outros, tínhamos outro motivo para nos refugiarmos na escuridão
da noite. O sr. Watts nos dera um outro mundo no qual passar a noite. Podíamos
fugir para outro lugar. Não importa que fosse a Inglaterra vitoriana. Descobrimos
que podíamos chegar lá com facilidade. Eram só os malditos
cachorros e os malditos galos que tentavam nos manter aqui. Quando
o sr. Watts chegou ao final do capítulo um, tive a impressão de
que aquele garoto Pip falara comigo. Aquele garoto que eu não podia ver
nem tocar, mas que conhecia de ouvido. Eu tinha encontrado um novo amigo. O
surpreendente era onde eu o tinha encontrado - não no alto de uma árvore
ou encostado num canto, ou nadando num dos riachos da montanha, e sim num livro.
Ninguém tinha nos dito para procurar um amigo ali. Nem que podíamos
nos colocar na pele de outra pessoa. Ou viajar para outro lugar com pântanos,
e onde, aos nossos ouvidos, as pessoas más falavam como piratas. Acho que
o sr. Watts gostava das partes faladas. Quando ele as lia, tornava-se aquelas
vozes. Essa foi outra coisa que nos impressionou - quando estava lendo, o sr.
Watts tinha um jeito de se ausentar. E nós esquecíamos que ele estava
ali. Quando Magwitch, o criminoso fugitivo, ameaça arrancar o coração
e o fígado de Pip se ele não levar um rango para ele, e uma lima
para os seus grilhões, não era o sr. Watts que ouvíamos,
e sim Magwitch, e era como se o criminoso estivesse na sala conosco. Só
tínhamos de fechar os olhos para ter certeza. Tinha
também um bocado de coisa que eu não entendia. À noite, eu
ficava deitada na minha esteira imaginando o que era pântano; e o que era
rango e o que eram grilhões. Eu tinha uma idéia a partir do som.
Pântanos. Imaginei se seria o mesmo que areia movediça. Eu
sabia sobre areia movediça porque um homem lá da mina tinha afundado
nela e nunca mais tinha aparecido. Isso aconteceu muitos anos antes, quando a
mina ainda estava aberta e havia gente branca rastejando sobre Panguna como formigas
sobre um cadáver. O
sr. Watts nos dera um outro pedaço do mundo. Descobri que podia ir para
lá sempre que quisesse. E, o que era melhor, podia escolher qualquer momento
da história. Não que eu considerasse o que estávamos ouvindo
como sendo uma história. Não. Eu estava ouvindo alguém falando
sobre si mesmo e sobre tudo o que tinha acontecido. Eu ainda estava descobrindo
os meus trechos favoritos. Pip no cemitério cercado pelas lápides
dos pais mortos e dos cinco irmãos mortos era um dos mais cotados. Sabíamos
o que era a morte - tínhamos visto todos aqueles bebês enterrados
na montanha. Eu e Pip tínhamos mais uma coisa em comum; eu tinha onze anos
quando o meu pai partiu, então nenhum de nós dois conheceu realmente
o pai. Eu
tinha conhecido o meu, é claro, mas só como uma filha conhece um
pai, como uma espécie de esboço feito com uma ou duas cores. Nunca
tinha visto o meu pai assustado ou chorando. Nunca o ouvi admitir qualquer tipo
de erro. Não faço idéia de com que ele sonhava. E uma vez
vi um sorriso estampado de um lado do rosto e uma sombra do outro, depois que
minha mãe gritara com ele. Agora ele tinha partido, e fiquei apenas com
uma impressão - de um entusiasmo masculino, de braços grandes e
risada alta. A
forma das letras nas lápides deu a Pip a idéia de que seu pai era
um "homem forte, rubusto, moreno, de cabelos negros e crespos." Encorajada
pelo exemplo de Pip, tentei construir uma imagem do meu pai. Encontrei amostras
da letra dele. Ele escrevia com pequenas letras de forma. O que isso dizia sobre
ele? Ele queria ser notado, mas não demais? Havia aquela risada retumbante
dele, é claro. Eu dormia no mesmo quarto que a minha mãe, e aquela
noite, no escuro, eu perguntei a ela se papai era um homem alegre. Ela disse:
- Nunca na hora certa, mas geralmente depois de ter bebido. Perguntei
se ela achava que ele era um "homem robusto". No escuro, percebi que ela se apoiou
num cotovelo. -
Robusto! De onde foi que você tirou essa palavra, menina? -
Do sr. Watts. -
Olho Arregalado. Ele - ela disse, e tornou a deitar. -
Estava num livro. -
Que livro é esse? -
Grandes esperanças. |