Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

O Homem dos Círculos Azuis, de Fred Vargas (tradução de Dorothée de Bruchard; Companhia das Letras; 35 reais) – Pequenos objetos – um brinco, um novelo de lã, uma touca de natação – começam a aparecer nas calçadas de Paris no centro de um círculo traçado com giz azul. Parece apenas uma curiosidade inocente, até surgir o cadáver de uma mulher degolada no centro de um desses círculos azuis. O mistério será investigado pelo detetive Jean-Baptiste Adamsberg, a grande criação da francesa Fred Vargas, uma arqueóloga especialista em Idade Média que se consagrou como autora de ficção policial. Como todos os heróis do gênero, Adamsberg tem suas manias características: conduz sua investigação rabiscando em papéis de rascunho e sempre mexe o açúcar do café com impassível lentidão.

Leia trecho

Mathilde pegou a agenda e anotou: "Esse sujeito sentado à minha esquerda está de gozação comigo".

Tomou um gole de cerveja e deu mais uma olhada no homem ao seu lado, um sujeito imenso que estava há uns dez minutos tamborilando na mesa.

Ela ainda escreveu na agenda: "Ele se sentou bem perto de mim, como se a gente se conhecesse, mas eu nunca tinha visto ele antes. Tenho certeza que nunca vi. Não há muito mais o que dizer sobre esse sujeito que usa óculos escuros. Estou nas mesas da calçada do Café Saint-Jacques e pedi um chope. Estou bebendo. Me concentrando bem nessa cerveja. Não me ocorre nada melhor para fazer".

O homem ao lado de Mathilde continuava tamborilando.

- Está acontecendo alguma coisa? - ela perguntou.

Mathilde tinha uma voz grave e bem enrouquecida. O homem deduziu que se tratava de uma mulher e que ela fumava até não poder mais.

- Não, nada. Por quê? - perguntou o homem.

- É que eu acho que estou ficando nervosa de ver você tamborilando na mesa. Hoje tudo está me deixando tensa.

Mathilde terminou a cerveja. Estava insípida, coisa típica de domingo. Mathilde tinha a impressão de sofrer mais que as outras pessoas desse mal bastante comum que ela chamava de mal do sétimo dia.

- Você tem uns cinqüenta anos, mais ou menos? - perguntou o homem, sem se afastar.

- É possível - disse Mathilde.

Ela ficou contrariada. O que é que aquele sujeito tinha a ver com isso? Ela acabava de perceber que o fio d’água da fonte em frente, desviado pelo vento, estava molhando o braço de um anjo esculpido um pouco mais embaixo, e aqueles talvez fossem uns instantes de eternidade. No fundo, aquele sujeito estava estragando o único instante de eternidade do seu sétimo dia.

Além disso, em geral as pessoas lhe davam uns dez anos a menos. Foi o que ela lhe disse.

- E daí? - disse o homem. Eu não sei avaliar pelo "em geral" dos outros. Mas imagino que você esteja mais para bonita, ou estou enganado?

- Tem alguma coisa errada com o meu rosto? Você não está me parecendo muito seguro - disse Mathilde.

- Olha, imagino que você esteja mais para bonita, mas não posso jurar.

- Pois faça como achar melhor - disse Mathilde. - Em todo caso, você é bonito e eu até posso jurar, se achar necessário. Na verdade, sempre é necessário. Mas vou ter que ir embora. No fundo, hoje estou tensa demais e não estou a fim de falar com caras feito você.

- Eu também não estou muito relaxado. Fui ver um apartamento para alugar e ele já estava ocupado. E você?

- Deixei escapar uma pessoa importante para mim.

- Uma amiga?

- Não, uma mulher que eu vinha seguindo no metrô. Eu tinha feito um bocado de anotações e, de repente, a perdi de vista. Veja só que situação.

- Não. Não vejo nada.

- É que você nem tenta ver, essa é que é a questão.

- É lógico que eu não tento.

- Você é um homem bem difícil.

- Sou difícil, sim. E ainda por cima sou cego.

- Puxa vida - disse Mathilde -, sinto muito.

O homem se virou para ela com um sorriso meio maldoso.

- Sente muito por quê? - disse ele. - Não é culpa sua, caramba.

Mathilde pensou que seria melhor parar de falar. Mas também sabia que não iria conseguir.

- É culpa do quê? - ela perguntou.

O cego bonito, como Mathilde já o vinha chamando mentalmente, posicionou-se quase que de costas para ela.

- De uma leoa que eu estava dissecando para compreender o sistema de locomoção dos felinos. E quem é que dá a mínima para o sistema de locomoção dos felinos! Às vezes eu pensava, é o máximo, e outras vezes pensava, caramba, os leões caminham, recuam, pulam, e é só o que a gente precisa saber. Um dia, peguei no escalpelo de mau jeito...

- E respingou para todo lado.

- Isso mesmo. Como é que você sabe?

- Teve um cara, o cara que construiu a colunata do Louvre, que morreu assim, por causa de um camelo podre deitado numa mesa. Mas já faz muito tempo, e era um camelo. Até que é bem diferente.

- Mas podre é sempre podre. O podre entrou dentro dos meus olhos. Eu fui despachado para o escuro. Fim de papo, não tem mais como olhar. Droga.

- Era uma sacana de uma leoa. Conheci um animal assim. Isso foi há quanto tempo?

- Onze anos. A tal leoa deve estar dando risada a uma hora dessas. Enfim, agora eu também dou risada, às vezes. Mas na hora não dei. Um mês depois, voltei para o laboratório e destruí tudo, espalhei podre para todo lado, queria que o podre entrasse nos olhos de todo o mundo e acabei com todo o trabalho da equipe sobre locomoção dos felinos. É claro que aquilo não me trouxe nenhuma satisfação. Fiquei frustrado.

- De que cor eram os seus olhos?

- Eram pretos feito a graúna, pretos feito as foices celestes.

- E agora, como é que eles são?

- Ninguém teve coragem de descrever para mim. Preto, vermelho e branco, acho. As pessoas engasgam quando olham para eles. Imagino que seja um espetáculo abominável. Não tiro mais os óculos.

- Eu posso olhar para eles - disse Mathilde -, se você realmente quiser saber como eles são. O abominável não me incomoda.

- É o que todos dizem. E depois saem chorando.

- Um dia, quando eu estava mergulhando, um tubarão mordeu a minha perna.

- Concordo que não deve ser lá muito bonito.

- O que é que você mais sente falta de ver?

- As suas perguntas estão me assassinando. Não vamos ficar o dia inteiro falando de leões, tubarões e outras porcarias de bichos.

- Não, claro que não.

- Sinto falta das mulheres. Bastante banal.

- As mulheres foram embora depois da leoa?

- Parece. Você não me disse por que estava seguindo aquela mulher.

- Por nada. Eu sigo um monte de gente, sabe. É mais forte que eu.

- O seu amante foi embora depois do tubarão?

- Foi, e outros vieram.

- Você é uma mulher incomum.

- Por que você está dizendo isso?

- Por causa da sua voz.

- O que é que você escuta na voz das pessoas?

- Ora, isso eu não posso contar! O que é que ia sobrar para mim, puxa vida? Tem que deixar alguma coisa para o cego, minha senhora - disse o homem, com um sorriso.

Ele se levantou para ir embora. Não tinha sequer tomado a sua bebida.

- Espera. Como você se chama? - disse Mathilde.

O homem hesitou.

- Charles Reyer.

- Obrigada. Eu me chamo Mathilde.

O cego bonito disse que era um nome bastante chique, que a rainha Mathilde reinara na Inglaterra no século XII, e foi-se embora, guiando-se com o dedo pela parede. Mathilde não estava nem aí para o século XII e esvaziou o copo do cego, franzindo o cenho.

Durante muito tempo, semanas, quando de suas excursões pelas calçadas, Mathilde procurou pelo cego bonito com o canto dos olhos. Sem encontrar. Ela daria para ele uns trinta e cinco anos.

* * *

Ele tinha sido nomeado delegado em Paris, no quinto arrondissement. A pé, rumava para o seu novo local de trabalho pela décima segunda vez.

Ainda bem que era em Paris.

Era a única cidade do país de que ele conseguia gostar. Durante muito tempo, acreditara que tanto fazia para ele o lugar onde vivia, como tanto fazia o alimento que comia, tanto fazia os móveis que o rodeavam, tanto fazia para ele as roupas que usava, dadas, herdadas, achadas sabe-se lá onde.

Mas, no fim das contas, quanto ao lugar onde se vive não era assim tão simples. Jean-Baptiste Adamsberg percorrera, descalço, toda a montanha pedregosa dos baixos Pireneus. Lá ele vivera e dormira e, mais tarde, quando já era tira, trabalhara com assassinatos, assassinatos nas aldeias de pedra, assassinatos nas trilhas minerais. Conhecia de cor e salteado o som das pedras debaixo dos pés, e a montanha que abraça e ameaça feito um velho musculoso. Na delegacia onde começara, aos vinte e cinco anos, diziam que ele era "silvestre". Talvez em referência à selvageria, à solidão, não sabia ao certo. E não achava isso original, nem elogioso.

Ele tinha perguntado o porquê a uma das jovens inspetoras, sua superior direta, que ele teria gostado de beijar mas que era dez anos mais velha e ele não tinha coragem. Ela ficou sem graça, e disse: "Dê uma olhada no espelho, Adamsberg, você vai acabar entendendo!". Naquela noite ele analisara, com despeito porque gostava dos altões brancos, a sua silhueta baixa, forte e morena e, no dia seguinte, dissera: "Fiquei na frente do espelho, olhei, mas não entendi muito bem o que a senhora quis dizer".

"Adamsberg", respondeu a inspetora, meio cansada, meio atordoada, "para que falar sobre essas coisas? Para que fazer perguntas? Estamos trabalhando num roubo de relógios e é só o que a gente tem para saber, não tenho a menor intenção de ficar falando sobre o seu corpo." E acrescentou: "Eu não sou paga para falar sobre o seu corpo".

"Está bem", disse Jean-Baptiste, "não precisa ficar nervosa desse jeito."

Uma hora depois, ele ouvira a máquina de escrever parar e a inspetora chamá-lo. Ela estava chateada. "Vamos acabar com isso", ela disse, "digamos que é um corpo de criança silvestre, só isso." Ele respondeu: "A senhora quer dizer que o meu corpo é primitivo, feio?". Ela pareceu ainda mais atordoada. "Não me obrigue a dizer que você é bonito, Adamsberg, mas você tem o encanto de mil pessoas, ajeite-se com isso na vida", e havia na voz dela cansaço e carinho, disso ele tinha certeza. Tanto que ele ainda lembrava daquele cansaço e carinho na voz com um estremecimento, principalmente porque nunca mais se repetira com ela. Com o coração aos trancos, ele esperara pelo resto. Ela talvez fosse beijá-lo, talvez, porém deixou de tratá-lo por você e não disse mais nada. A não ser isso, como que desesperançosa: "E o senhor não tem mais o que fazer na polícia. A polícia não é silvestre".

Ela estava enganada. Durante os cinco anos seguintes, ele destrinçara quatro assassinatos, um em seguida do outro, de um jeito que os colegas tinham julgado alucinante, ou seja, injusto, provocante. "Adamsberg, você não faz coisa nenhuma", eles diziam. "Fica aí zanzando, viajando, contemplando as paredes, rabiscando uns desenhos em cima da perna, como se possuísse a ciência infusa e a vida inteira pela frente e aí, um belo dia, aparece todo indolente, simpático, e diz: ‘A gente teria que prender o padre, ele matou o menino para o menino não falar’."

E, assim, a criança silvestre dos quatro assassinatos tinha se tornado inspetor, depois delegado, sempre rabiscando horas a fio uns desenhos miúdos em cima da perna, com aquelas calças informes. Quinze dias atrás, tinham-lhe proposto Paris. Deixara para trás a sala coberta com os grafites que rabiscara durante vinte anos sem que nunca a vida o cansasse.

E às vezes, no entanto, como as pessoas o entediavam! Como se vezes demais ele soubesse de antemão o que iria ouvir. E cada vez que ele pensava: "Agora esse sujeito vai dizer tal coisa", ficava mal consigo mesmo, se achava nojento, ainda mais quando o sujeito dizia mesmo a tal coisa. Então ele sofria, suplicando a um deus qualquer que lhe concedesse um dia a surpresa, e não o conhecimento.

Jean-Baptiste Adamsberg mexia o café num botequim em frente à sua nova delegacia. Será que ele agora entendia melhor por que o tinham achado silvestre? Sim, ele enxergava com um pouco mais de clareza aquilo tudo, mas as pessoas empregam as palavras a torto e a direito. Principalmente ele. O certo é que só Paris sabia lhe restituir o mundo mineral cuja necessidade ele percebia dentro de si.

Paris, a cidade de pedra.

É claro que havia árvores, era inevitável, mas e daí, era só não olhar para elas. E era só não passar pelas praças, que ficava tudo bem. Adamsberg, em matéria de vegetação, só gostava de arbustos raquíticos e legumes subterrâneos. O certo também é que ele não devia ter mudado muito, já que o olhar dos seus novos colegas lhe lembrava os dos Pireneus de vinte anos atrás, com o mesmo pavor discreto, as palavras murmuradas às suas costas, os meneios de cabeça, o vinco contrariado das bocas e os dedos se abrindo em sinal de impotência. Animações essas que, dentro do silêncio, significam todas: mas de onde é que saiu esse cara?

Ele sorrira de mansinho, apertara as mãos, explicara e escutara de mansinho, porque Adamsberg sempre fazia tudo de mansinho. Mas ao cabo de onze dias os seus colegas continuavam se aproximando com aquela expressão de quem se pergunta com que nova espécie de ser vivo estará lidando, e como deve ser alimentado, e como é que se fala com ele, e como se distrai e como se atrai o seu interesse. Há onze dias que a delegacia do quinto arrondissement estava mergulhada em cochichos, como se um mistério delicado tivesse suspendido o seu dia-a-dia normal.

A diferença com o seu início de carreira nos Pireneus é que agora a sua reputação tornava as coisas um pouco mais fáceis. Ainda assim, nem por isso esqueciam que ele vinha de outro lugar. Ontem, escutara o mais velho parisiense da equipe dizendo em voz baixa: "Ele é lá dos Pireneus, já viu, é o mesmo que dizer que ele é lá do fim do mundo".

Adamsberg já deveria estar na delegacia há meia hora, mas continuava mexendo o seu café no botequim em frente.

E não era porque hoje, aos quarenta e cinco anos, havia aquele respeito à sua volta, que ele se permitia chegar atrasado. Aos vinte anos ele já se atrasava. Até para nascer ele se atrasara dezesseis dias. Adamsberg não tinha relógio, mas não saberia dizer por quê, ele aliás não tinha nada contra relógios. Nem contra guarda-chuvas. Nem contra nada, na verdade. Não é que quisesse fazer só o que tivesse vontade, ele só não sabia se esforçar para fazer uma coisa caso o seu humor estivesse contrário a ela naquele momento. Nunca soubera, nem mesmo para agradar a bela inspetora. Nem por ela. Disseram que Adamsberg era um caso perdido, e essa era às vezes a sua própria opinião. Mas nem sempre.

E hoje o seu humor estava para mexer o café, com vagar. Um sujeito fora assassinado em seu próprio depósito de tecidos, três dias atrás. Os seus negócios pareciam tão escusos que três inspetores estavam esquadrinhando o cadastro de clientes, certos de que o assassino estaria entre eles.

Adamsberg deixara de se preocupar com aquele caso desde que vira a família do morto. Enquanto os seus inspetores procuravam por algum cliente espoliado, e tinham até uma pista consistente, ele olhava para o enteado do morto, Patrice Vernoux, um rapaz bonito de vinte e três anos, delicado, romântico. Olhar para ele era só o que ele fazia. Já o tinha convocado à delegacia três vezes, com pretextos variados, fazendo-o falar sobre qualquer coisa: o que é que ele achava da calvície do padrasto, se tinha nojo dela, se gostava das fábricas de tecido, o que significava para ele uma greve de energia elétrica, como é que ele explicava o fato de tantas pessoas serem apaixonadas por genealogia?

Na última vez, ontem, tinha sido assim:

- O senhor se acha bonito? - perguntara Adamsberg.

- Fica difícil eu dizer que não.

- Tem razão.

- O senhor pode me dizer por que é que eu estou aqui?

- Posso. Por causa do seu padrasto, é claro. O senhor me disse que se incomodava um pouco com o fato de ele dormir com a sua mãe, não é?

O rapaz deu de ombros.

- De qualquer modo, não havia nada que eu pudesse fazer, a não ser matar o homem, o que eu não fiz. Mas é verdade, sim, isso me revolvia um pouco o estômago. O meu padrasto era meio que um javali. Com pêlo até nas orelhas, francamente, não consigo entender. O senhor ia gostar de uma coisa assim?

- Sei lá. Um dia eu vi a minha mãe na cama com um colega da escola. E olhe que a coitada até que era fiel. Fechei a porta de volta e lembro que a única coisa que pensei foi que o menino tinha um sinal verde nas costas, mas que a minha mãe não devia ter notado.

- Não entendo muito bem o que eu tenho a ver com isso - o rapaz resmungou, encabulado. - Se o senhor é mais corajoso que eu, problema seu.

- Não sou, mas não tem importância. E a sua mãe, o senhor tem achado ela triste?

- É evidente que sim.

- Certo. Muito bem. Não vá demais à casa dela.

E então ele dissera para o rapaz ir embora.

 


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio