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livros

Solaris, de Stanislaw Lem (tradução de José Sanz; Relume Dumará; 272 páginas; 38 reais)

Lançado em 1961, Solaris é um clássico da ficção científica. O livro do polonês Lem já vendeu mais de 25 milhões de exemplares e, nos anos 70, deu origem a um filme cultuado do diretor russo Andrei Tarkovsky. Às vésperas da estréia nos cinemas de uma nova adaptação, estrelada por George Clooney, a obra ganha uma reedição brasileira. Ela narra a ida de um astronauta a uma estação espacial num planeta coberto por um misterioso "oceano vivo", que se comunica com o protagonista. Por trás da história, uma reflexão sobre os limites da ciência.

Leia trechos do livro

A Chegada

Às Dezenove horas, tempo de bordo, dirigi-me para a área de lançamento. À volta dos poços, os homens se puseram em Filas para me deixar passar. Desci a escada e penetrei na cápsula.

No interior da estreita bitácula, eu mal podia afastar os bra­ços do corpo. Fichei o tubo da bomba a válvula do meu escafan­dro, que se encheu rapidamente, A partir desse instante, fiquei impossibilitado de fazer qualquer movimento. La estava eu de pé, ou, melhor, suspenso, envolto no meu macacão espacial integrado na carapaça metálica.

Olhei para cima. Vi, através do globo transparente, uma parede lisa e, bem no alto, a cabeça de Moddard inclinada sobre a abertura do poço. Moddard desapareceu e, bruscamente, fez­ se noite. O pesado cone protetor havia sido colocado no lugar. Ouvi oito vezes seguidas o zumbir dos motores elétricos que apertavam as porcas e depois o siflar do ar comprimido nos amortecedores. Meus olhos começaram a se habituar à escuri­dão. Divisei a moldura fosforescente do único medidor.

Uma voz ressou nos fones:

- Pronto, Kelvin?

Respondi:

- Pronto, Moddard.

- Não se preocupe - continuou ele. - A Estação colhera você em vôo. Boa Viagem!

Houve um rangido c a capsula oscilou. Contraí os músculos quase sem querer. Não ouvi nenhum outro ruído, nem qual­quer novo movimento.

- Quando é a partida? - perguntei.

Ouvi um barulho no exterior da cápsula, como um chuvis­co de areia fina.

- Você Já está a caminho, Kelvin. Felicidades! - respondeu a voz de Moddard, tão próxima quanto antes.

Unia fenda alargou-se na altura dos meus olhos e vi as estre­las. 0 Prometeu navegava nos arredores de Alfa do Aquário. Mas foi em vão que tentei me orientar. Uma poeira brilhante enchia a vigia; não reconheci nenhuma constelação; o céu da­quela região da galáxia me era desconhecido. Esperei pelo mo­mento de passar pela primeira estrela nítida; fui incapaz de dis­tinguir alguma. Seu esplendor diminuía; elas fugiam, submersas num vago clarão púrpura. Foi assim que tive consciência da distância percorrida. Com o corpo inteiriçado metido no meu envoltório pneumático eu fendia o espaço com a impressão de continuar imóvel no vácuo, tendo como único derivativo o ca­lor que subia lentamente, progressivamente.


 
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