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Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed (tradução de Denise Tavares Gonçalves; Ediouro; 536 páginas; 59 reais) – Misto de jornalista e aventureiro, o americano John Reed estava na Rússia no calor da revolução comunista de 1917. Testemunha ocular da história, ele acabou produzindo esse relato do episódio que até hoje é considerado um exemplo de bom jornalismo. Não é o caso. Como a introdução derramada do líder bolchevique Lenin já denuncia, Dez Dias que Abalaram o Mundo está longe de ser uma narrativa neutra. Militante socialista, Reed tem uma visão apaixonada a favor dos revolucionários – e por isso é parcial e muitas vezes ingênuo. Mas há que se fazer justiça: seu livro continua a ser um documento de um dos momentos-chave do século XX.

Leia trechos do livro

Em fins de setembro de 1917, um professor de sociologia em viagem à Rússia veio visitar-me em Petrogrado. Ele ouvira de homens de negócios e intelectuais que a revolução estava arrefecendo. Escreveu um artigo refletindo essas opiniões e iniciou uma viagem pelo país, visitando cidades industriais e comunidades camponesas -lugares em que, para sua surpresa, o ritmo da revolução parecia estar acelerando. Entre os assalariados e os trabalhadores rurais era comum ouvir conversas em que se dizia "a terra para os camponeses, as fábricas para os operários". Tivesse o professor visitado as frentes de batalha, teria ouvido o exército inteiro falando em fazer a paz...

o professor ficou aturdido, mas não precisava ter ficado, uma vez que ambas as observações eram corretas. As classes proprietárias assumiam um crescente conservadorismo, as massas populares radicalizavam-se.

Entre os homens de negócios e entre a inteligência, havia o sentimento de que a revolução já tinha ido longe demais e também se estendido por tempo demais; já era tempo de as coisas se acalmarem. Este sentimento era compartilhado pelos grupos socialistas “moderados” pelos mencheviques oborontsi e pelos socialistas revolucionários, que davam sustentação ao Governo Provisório de Kerenski.

No dia 14 de outubro, o órgão oficial dos socialistas "moderados" proclamava:­ o drama do revolução tem dois atos: a destruição do antigo regime e a criação do novo. o primeiro ato já durou o suficiente. É tempo, agora, de passar ao segundo ato e encená-lo tão rapidamente quanto possível. Como disse um grande revolucionário: "Apressemo-nos, amigos, em concluir a revolução. Quem a faz durar demasiado não colhe seus frutos."

No entanto, entre as massas de soldados, operários e camponeses persistia um renitente sentimento de que o primeiro ato ainda não havia terminado. Nas frentes de combate os comitês de exército entravam em choque com oficiais que não aceitavam tratar os soldados como seres humanos; na retaguarda, os comitês agrários eleitos pelos camponeses eram encarcerados por ousar a implementação das regulamentações governamentais sobre a terra; os operários', nas fábricas, enfrentavam listas negras e paralisações patronais. Além disso, exilados políticos que retornavam estavam sendo expulsos como indesejáveis; em alguns casos, os que retornavam eram processados e encarcerados por atos revolucio­nários cometidos em 1905.

Ao multifacetado des­contentamento do povo, os socialis­tas "moderados" ofereciam uma só resposta: esperar pela Assembléia Constituinte, que se reuniria em dezembro. Mas isso não satisfazia as massas. Apoiava-se e desejava-se a Assembléia Constituinte, mas havia questões pelas quais as revoluções tinham sido feitas, pelas quais os mártires da revolução tinham caído no Campo de Marte, e elas tinham sido resolvidas, com ou sem Assembléia Constituinte: paz, terra e controle operário sobre a indústria.


 
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