Napoleão
Uma Biografia Literária,
de Alexandre Dumas (tradução de André Telles; Jorge Zahar;
240 páginas; 29,50 reais) Em romances como Os Três Mosqueteiros,
Alexandre Dumas (1802-1870) recorria à história francesa para compor
o pano de fundo de suas aventuras. Em Napoleão, que até hoje
era inédito no Brasil, o mestre das histórias de capa e espada toma
menos liberdades com os fatos: trata-se de uma biografia do imperador francês,
de seu nascimento na Córsega ao exílio na ilha de Santa Helena.
Filho de um general de Napoleão, Dumas tem alguns rasgos patrióticos
na descrição dos feitos militares do imperador. Mas seu talento
narrativo nas cenas de batalha torna a leitura muito interessante. A edição
vem enriquecida com mapas, notas históricas sobre fatos, lugares e personagens
citados no texto e um anexo com o testamento de Napoleão.
Leia
trecho Soldados
A Rússia jurou eterna aliança com a França e guerra à
Inglaterra. Hoje ela viola seus juramentos. Além disso, não se dispõe
a dar explicação alguma para sua estranha conduta; afinal as águias
francesas atravessaram o Reno, deixando ali nossos aliados à mercê
dela. Acredita ela que degeneramos? Que não seríamos mais os soldados
de Austerlitz? Ela nos coloca entre a desonra e a guerra, e a escolha não
poderia ser outra. Marchemos adiante, atravessemos o Niemen, levemos a guerra
ao território da Rússia: ela será gloriosa para os exércitos
franceses. A paz que fi rmaremos porá termo à funesta infl uência
que o gabinete moscovita vem exercendo há cinqüenta anos nos assuntos
da Europa. O
exército ao qual Napoleão dirigia essas palavras era o mais belo,
numeroso e pujante que já conduzira. Dividia-se em quinze corpos, comandados
cada qual por um duque, um príncipe ou um rei, formando a massa de quatrocentos
mil homens de infantaria, setenta mil cavaleiros e mil bocas de fogo. A travessia
do Niemen levou três dias: 23, 24 e 25 de junho foram empregados nessa operação.
Napoleão
parou por um instante, pensativo e imóvel na margem esquerda desse rio,
onde, três anos antes, o imperador Alexandre lhe jurara amizade eterna.
Ao atravessá-lo, observou:
A fatalidade arrasta os russos disse ele. Que os destinos sejam
consumados. Seus
primeiros passos, como sempre, foram os de um gigante.Ao cabo de dois dias de
uma marcha ágil, o exército russo, surpreendido em flagrante delito,
viu-se encurralado e partido, com um destacamento inteiro dele isolado. Alexandre,
reconhecendo Napoleão por aqueles golpes rápidos, terríveis
e decisivos, mandou-lhe dizer que, se quisesse evacuar o terreno invadido e retornar
ao Niemen, estava pronto a negociar. Napoleão achou o procedimento tão
estranho que respondeu entrando no dia seguinte em Vilna. Ali
permaneceu vinte dias, estabelecendo um governo provisório, enquanto uma
dieta se reunia em Varsóvia para se ocupar da reconstrução
da Polônia. Depois voltou à perseguição do exército
russo. No
segundo dia de marcha, começou a se assustar com o sistema de defesa adotado
por Alexandre. Os russos tinham devastado tudo durante sua retirada, safras, castelos,
choupanas. Um exército de quinhentos mil homens avançava por desertos
que não foram capazes de alimentar Carlos XII e seus vinte mil suecos.
Do Niemen até Willia, a marcha foi sob o clarão do incêndio
e sobre cadáveres e ruínas. Nos últimos dias de julho, o
exército chegava a Vitebsk, já aturdido com uma guerra que não
se parecia com outra alguma, na qual não se encontravam inimigos, em que
parecia lidar-se apenas com o gênio da destruição. O próprio
Napoleão, estupefato com aquele plano de campanha, que não tivera
lugar em suas previsões, só via diante de si imensos desertos cujo
fim precisaria de um ano para atingir, e onde cada etapa fazia-o afastar-se mais
da França, de seus aliados, enfim, de todos os seus recursos. Ao chegar
a Vitebsk, atirou-se esgotado numa poltrona; depois mandou chamar o conde Daru:
Vou ficar por aqui disse ele. Pretendo explorar o lugar, me reabastecer,
descansar meu exército. A campanha de 1812 terminou; a de 1813 fará
o resto. Quanto ao senhor, cavalheiro, pense em nos fazer sobreviver aqui, pois
não cometeremos a loucura de Carlos XII. Depois,
dirigindo-se a Murat:
Pousemos nossas águias aqui acrescentou. Mil oitocentos e
treze nos verá em Moscou, 1814 em São Petersburgo. A guerra da Rússia
é uma guerra de três anos. |