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Hiroshima,
de
John Hersey (tradução de Hildegard Feist; Companhia
das Letras; 172 páginas; 26 reais) Quando veio à
tona, na forma de um artigo publicado na revista The New Yorker
em agosto de 1946, essa reportagem teve grande repercussão
e acabou se tornando um marco do jornalismo. Um ano depois de a
bomba atômica ser lançada sobre Hiroshima, o americano
John Hersey viajou à cidade japonesa com a missão
de fazer um relato sobre os efeitos da explosão. O resultado
foi um contundente registro da tragédia sob o ponto de vista
de seis pessoas comuns. Mais tarde, em 1985, Hersey adicionou um
apêndice em que mostra o destino que os personagens tiveram
nas décadas seguintes. Depois de anos fora de catálogo
no Brasil, esse clássico retorna às livrarias.
Leia
trecho do livro
1.
Um clarão silencioso
No
dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da
manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica
explodiu sobre Hiroshima, a srta. Toshiko Sasaki, funcionária
da Fundição de Estanho do Leste da Ásia, acabava
de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica,
e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha
ao lado. Nesse exato momento o dr. Masakazu Fujii se acomodava para
ler o Asahi de Osaka no terraço de seu hospital particular,
suspenso sobre um dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima;
a sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, observava,
da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha,
situada num local que a defesa aérea reservara às
faixas de contenção de incêndios; o padre Wühelm
Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a Stimmen der Zeit,
revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e
último andar da casa da missão de sua ordem; o dr.
Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores
do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando uma
amostra de sangue para realizar um teste de Wassermann e o reverendo
Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava
na porta de um ricaço de Koi, bairro oeste da cidade, para
descarregar um carinho de mão cheio de coisas que resolvera
transferir para ali por temer o maciço ataque dos B-29, que
a população aguardava. Uma centena de milhares de
pessoas foram mortas pela bomba atômica, e essas seis são
algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão
vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribui sua sobrevivência
ao acaso ou a um ato da própria vontade um passo dado
a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um
bonde e não outro. Agora cada uma delas sabe que no ato de
sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais mortes do
que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam
nada disso.
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