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Cidade
Pequena,
de Lawrence Block (tradução de Anna Vianna; Companhia
das Letras; 576 páginas; 52 reais) A "cidade pequena"
referida no título é nada menos do que Nova York.
Não é a única ousadia desse thriller policial
com doses de erotismo: a história tem como pano de fundo
os atentados de 11 de setembro de 2001. Depois dos ataques terroristas,
a cidade é abalada por uma série de assassinatos que
envolvem uma curiosa galeria de personagens: o faxineiro gay, a
marchande sadomasoquista, o escritor esquecido que passa a ser disputado
pelas editoras quando se torna o principal suspeito dos crimes.
Rematado artífice das tramas policiais, Block consegue cruzar
a trajetória de todos esses personagens na sua cidade pequena.
Leia
trechos
Quando
Jerry Pankow sentiu que era hora do café-da-manhã,
já havia passado por três bares e um bordel.
Tinha
descoberto uma ótima frase para puxar conversa. "Na
hora dos meus ovos com bacon hoje de manhã..." Sempre
que dizia isso, na sala dos fundos de bares ou no porão de
igrejas, chamava a atenção. Ficava parecendo interessante
- e não foi exatamente para isso que viera a Nova York? Viver
uma vida interessante, claro, e ser interessante para os outros.
Além
de, tinha de admitir, mergulhar nas profundezas da depravação,
o que combinava bem com a idéia de três bares e um
bordel antes do café-da-manhã.
Hoje,
estava tomando café no Joe Jr., uma cafeteria grega na esquina
da Sexta Avenida com a rua 12 Oeste. Não era exatamente um
cliente constante ali. O bordel ficava na Vinte e Oito, duas portas
depois da esquina com a Lexington, no quarteirão das lanchonetes
e restaurantes indianos que levavam as pessoas a chamar a região
de rua do Curry. Mas samosa com aloo gobi não
era o que ele imaginava para o café-da-manhã e, de
qualquer jeito, aqueles estabelecimentos só abriam para o
almoço. Gostava da cafeteria Girassol na Terceira Avenida,
e parava ali muitas vezes depois que deixava o bordel.
Hoje,
porém, estava bem longe de sentir fome e sua próxima
parada era no Village, na Charles com a Waverly. Então atravessou
a Vinte e Três com a Sexta. Antes aquele pedaço da
Sexta Avenida permitia uma bela vista das torres gêmeas, mas
agora mostrava o espaço vazio delas, mostrava um buraco na
silhueta da cidade. Uma imagem de omissão, pensou, mais de
uma vez.
E
agora estava ali, numa das baias do Joe, com um suco de laranja,
uma omelete e uma xícara de café, light, sem açúcar.
Que depravação havia naquilo? Dez horas. Chegaria
à casa de Marilyn às onze para sair à uma e
ficar com o resto do dia livre. Talvez pegasse a reunião
das duas e meia na rua Perry. Quando saísse da Marilyn podia
passar lá para deixar o chaveiro numa cadeira e garantir
um lugar quando voltasse na hora da reunião. Lá, era
preciso fazer isso porque depois que a reunião começava
só havia lugares em pé.
Recuperação,
pensou. A onda mais quente da cidade.
Deixou
o garçom completar sua xícara de café, sorriu
agradecendo, automaticamente conferiu o sujeito enquanto se afastava,
e revirou os olhos diante da própria atitude. Belo rabo,
pensou, mas e daí?
Se
aparecesse numa reunião dos Viciados em Sexo Anônimos,
pensou, ninguém haveria de expulsá-lo. Mas será
que isso tornava sua vida incontrolável? Não muito.
A questão mesmo era saber se conseguiria agüentar mais
um programa de recuperação. Estava no Alcoólicos
Anônimos, sóbrio fazia pouco mais de três anos,
e como as drogas já tinham desempenhado um papel na sua história
conseguia encaixar algumas reuniões do Narcóticos
Anônimos nas atividades da semana. Por seus pais serem ambos
bêbados - o pai morreu disso, a mãe viveu com isso
-, era um Filho Adulto de Alcoólicos, e também ia
às reuniões deles de vez em quando. (Mas não
muito, porque ficava com dor de dente quando ouvia toda aquela choradeira,
as reclamações e aquele "entrar em contato com
minha mui justificada raiva".)
E
como John-Michael era alcoólico (às vezes sóbrio
também, só que não eram mais amantes), ia ao
Al-Anon umas duas vezes por mês. Detestava essas reuniões,
tinha vontade de bater na cara da maioria das pessoas que encontrava
lá: aqueles seres Al-Anon, dizia sua madrinha. Mas isso só
confirmava o quanto ele precisava do programa, não é?
Ou talvez não. Difícil dizer.
Três
anos sóbrio, e começava cada dia visitando três
bares e um bordel, sentindo o fedor de cerveja choca e de sêmen
rançoso. Os bares ficavam em Chelsea, todos a poucos quarteirões
de seu apartamento de cobertura no prédio sem elevador na
17 Oeste com a Nona, e é claro que estavam fechados quando
chegava para a limpeza da manhã. Tinha as chaves e entrava,
tentando não reparar no fedor do lugar, no cheiro de bebida
e corpos e vários tipos de fumaça, no cheiro de nitrato
de amila das meias sujas e em alguma outra coisa; um fedor indefinível
de manhã seguinte que, de alguma forma, era mais que a soma
de suas partes. Ele observava isso e esquecia. Varria, passava pano
no chão e lavava os banheiros, meu Deus, como seres humanos
são nojentos, e por fim baixava as cadeiras de cima das mesas,
os banquinhos de cima do balcão e colocava tudo em seu devido
lugar. Aí, trancava e partia para o próximo.
Pensava
que atacar a limpeza dos bares era como emergir das profundezas,
começando com o Death Row, um leather bar do lado
oeste da Décima Avenida que tinha uma sala nos fundos onde
o sexo seguro exigia não só camisinha, mas couraça
corporal completa. Depois, um outro, chamado Cheek, na Oitava com
a Vinte, com uma freqüência de gente do bairro que ia
de estudantes a bichas velhas que adoravam os estudantes. E, por
fim, um bar careta da rua 23, bom, na verdade misturado, típico
do bairro, careta e gay, homem e mulher, moço e velho, uma
insaciável sede pelo denominador comum. O lugar chamava Harrigan's
- alguns diziam Harridan's - e não tinha cheiro de maconha,
nem de poppers, nem de ejaculações noturnas,
mas isso não significava que um homem cego fosse tomar o
local pelo Jardim Botânico do Brooklyn.
Na
época em que bebia, Jerry podia ter começado a noite
no Harrigan's. Diria a si mesmo que ia dar uma parada só
para um trago social rápido antes de cair na noite. Não
estaria caçando, claro, porque ninguém ia a um lugar
como aquele para procurar um parceiro sexual. Talvez as pessoas
que se embebedavam ali fossem às vezes juntas para casa,
só que isso não vinha ao caso.
Depois
de uns drinques, e talvez uma ou duas carreirinhas de cocaína
no banheiro masculino, um bar gay podia ser uma boa idéia,
e procurava então um lugar como o Cheek. De lá, ou
levava alguém para casa ou ia para a casa de alguém,
mas nem sempre, e antes de a noite acabar caía no Death Row
ou em algum equivalente, sem saber direito o que estava fazendo,
nem com quem estava fazendo, e acordava horas depois, enojado com
o que lembrava ou aterrorizado com o que não lembrava, dependendo
do momento em que havia apagado.
Agora,
só freqüentava bares de manhã, para varrer, passar
pano e arrumar, e na saída pegava a nota de vinte dólares
que lhe deixavam. A gerência do Death Row, talvez para compensar
a pobreza das instalações, enfiava o pagamento dentro
de um envelope com o nome dele; no Harrigan's e no Cheek deixavam
a nota de vinte dólares solta no balcão, perto da
caixa registradora.
Depois,
o bordel, que demorava mais, mas onde, mesmo assim, entrava e saía
em menos de uma hora, e onde o envelope - com Jerry escrito
em roxo com caneta Pentel numa caligrafia caprichada de mulher -
continha cem dólares. Sempre uma única nota, e sempre
novinha, e, pensando bem, um pagamento indecente pelo tempo que
tomava.
Mas
também, pensava às vezes, veja o quanto elas ganham
por um simples boquete.
O
apartamento de Marilyn Fairchild ficava no terceiro andar de um
prédio de quatro, nos quarteirões de tijolos marrons
da rua Charles, saindo do Waverly Place, menos de cinco minutos
a pé do Joe Jr. Nublado ao amanhecer, o céu estava
limpo agora. Era a segunda semana de junho e o tempo andava glorioso
naqueles últimos dias. A caminho da casa de Marilyn, percebeu
que tinha uma melodia rondando dentro da cabeça, no limiar
da consciência, e às vezes era assim que mandava um
recado para si mesmo, que descobria o que estava sentindo de fato.
Registrou a canção, era aquela que fala de gostar
de batatas chips, de viajar de carro e, principalmente, de Nova
York em junho.
Bom,
pensou, quem não gostaria? Tinha morado por um tempo em San
Francisco, onde todo dia era primavera, e em L. A., onde todo dia
era verão, e resolvera que o problema do Paraíso era
que a gente acaba se cansando dele. Se o tempo não ficasse
horrível um bom pedaço do ano, que graça tinha
um dia bonito? O tempo aqui podia ficar uma grande merda de uma
porção de jeitos: chuvoso, com garoa, triste, gelado,
brusco, ventoso, quente, úmido, sufocante. Cada estação
tinha as suas próprias características desagradáveis,
e cada estação brindava um ou outro dia perfeito,
e que tesouro eram eles quando chegavam! Como faziam o coração
cantar!
Amo
Nova York
mais do que nunca...
O novo
slogan, o slogan pós-11 de setembro, com o logotipo de Milton
Glaser adaptado mostrando o coração rasgado, como
um coração humano depois de um enfarte. A primeira
vez que viu a nova versão, no peito de uma camiseta em uma
vitrina de loja, comoveu-se até as lágrimas. Mas por
algum tempo tudo ali comovia. As biografias compactas dos mortos
que apareciam todo dia no Times, por exemplo. Não
conseguia ler aqueles textos e não conseguia deixar de ler.
Porém
acabou cansando. Podia estar machucado como o coração,
mas era lamber as feridas e seguir em frente, e assim se curava.
Mais
ou menos.
A
entrada para o prédio de Marilyn ficava meio lance de escada
acima da rua. Subiu os degraus, tocou a campainha. Deu um bom tempo
para ela atender, depois usou sua chave. Subiu os degraus de dois
em dois: três anos atrás, afundado nas drogas e no
álcool, mal conseguia se arrastar um lance de escada e, baby,
olhe só para mim agora. Apertou o botão ao lado da
porta. Estava com a chave na mão - levava mais chaves que
um super-herói e até que gostava do efeito machão
daquilo. Como ninguém atendeu à campainha, ele abriu
a porta.
O
lugar estava um chiqueiro.
Bom,
exagero dizer isso. Não estava imundo. Limpava para ela uma
vez por semana e o apartamento nunca ficou seriamente sujo, só
que às vezes era uma bagunça, e sem dúvida
estava parecendo uma zona de catástrofe aquela manhã.
Cinzeiros
transbordando de pontas de cigarros, algumas sujas de batom, outras
não. Dois copos de uísque, um contendo ainda um dedo
de líquido âmbar, claro, o outro seco. O seco sujo
de batom, o outro não.
O
Times da véspera, com os seus muitos cadernos, estava
espalhado por toda a sala. Em cima da mesa de centro de mogno, um
espelho de bolso oval que, era capaz de apostar, devia ter resíduos
de cocaína, ao lado de uma garrafa destampada de Wild Turkey
ainda pela metade e um balde plástico de gelo com metade
de água. Um sutiã do outro lado do balde, parte em
cima, parte caindo da mesa, e, sim, aquilo era a blusa dela, de
seda rústica verde-lima, ele tinha visto uma vez no corpo
dela, e agora estava jogada sobre a poltrona Queen Anne. Será
que a saia estava longe? Nada de saia, concluiu, mas havia uma calça
preta no chão, perto da outra poltrona. E seria aquilo a
calcinha preta vestida no canto da poltrona?
Elementar,
meu caro Holmes; acho que é, sim.
Uma
almofada do sofá estava jogada no meio da sala e ele imaginou
como aquilo teria acontecido. De cada lado do sofá havia
uma mesinha de mogno, iguais à mesa de centro, todas da Bombay
Company, baratas mas bonitas. Em cima de uma delas, três romances
de capa dura apoiados por dois suportes de bronze: Susan Isaacs,
Nelson DeMille e o Procurando por Mr. Goodbar, de Judith
Rossner, que ele sempre achou que tinha uma espécie de valor
simbólico para Marilyn. Na outra mesa, à direita do
sofá, três estatuetinhas de animais, fetiches zunhi
do sudoeste. Havia um bisão esculpido em mármore Picasso,
um urso de quartzo rosa com um feixe de flechas nas costas e um
coelho de turquesa, todos agrupados em torno de um pires branco
de um jogo de louça infantil. O pires continha farinha de
milho - só que o conteúdo havia sido derramado na
mesa e no chão -, o bisão e o urso estavam caídos
de lado, e onde estava o coelhinho?
Derramada
a farinha, pensou, vai ver que o urso ficou com tanta fome que comeu
o coelho. Não sendo isso, acabaria achando a estatueta no
caos do apartamento.
Comparou,
não pela primeira vez, a casa de Marilyn com o último
local que arrumara, o bordel da rua 28 Leste. Em todos aqueles meses
que vinha fazendo a limpeza, nunca haviam deixado uma bagunça
de verdade. Na realidade, o salão e os quartos individuais
estavam sempre surpreendentemente arrumados. Podia haver pratos
e copos sujos no balcão da cozinha, esperando que ele os
colocasse na máquina de lavar, e havia os cestos de lixo
a serem esvaziados de seus conteúdos inomináveis,
lixo a ser ensacado e levado para baixo. Mas o lugar estava sempre
desinfetado e em geral arrumado.
Bem,
não era essa a diferença entre profissionais e amadoras?
Revirou
os olhos, com vergonha de si mesmo. Marilyn era um doce, por que
haveria de chamá-la de puta? Mesmo assim, podia imaginar
ela chegando com uma versão própria dessa frase, um
meio sorriso nos lábios carnudos e um tom irônico na
voz rouca de bourbon e cigarro. O humor autodepreciativo era uma
das coisas de que mais gostava nela...
Meu
Deus, será que estava em casa?
A porta
do quarto estava fechada, e isso não era normal. O que explicava
também a dimensão da desordem. O apartamento geralmente
estava bagunçado, ela não era do tipo que dá
uma arrumada por se preocupar com o que o faxineiro podia pensar,
mas nunca antes tinha encontrado roupas de baixo na sala, e ela
teria pelo menos tampado a garrafa de bourbon, guardado o espelhinho.
Dormindo
até tarde, será? Bom, provavelmente tinha ido deitar
muito tarde. Ia deixar que dormisse, esperar para passar o aspirador
quando tivesse acabado todo o resto. Se acordasse com o barulho,
poderia arrumar o quarto quando ela saísse; se não,
deixava para a semana que vem.
Será
que estava acompanhada?
Concluiu
que não era muito provável. As roupas na sala eram
todas dela e o sujeito, fosse quem fosse, não devia ter ficado
vestido se ela tirou tudo. Em algum momento ele devia ter saído
do quarto, fechado a porta gentilmente, se vestido e saído
do apartamento, puxando a porta. Não estava fechada com duas
voltas quando chegou, lembrou-se, mas isso não queria dizer
nada. Marilyn vivia esquecendo de dar duas voltas quando estava
em casa e também quando passava o dia fora.
Começou
a assobiar, a mesma canção, "Nova York em junho",
que não conseguia tirar da cabeça, e entrou na cozinha
para começar a limpeza.
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