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Em Busca da América, de Anne Tyler (tradução de Maria José Silveira; Record; 320 páginas; 35 reais) – Conhecida principalmente por O Turista Acidental, a americana Anne Tyler fez da classe média de seu país o seu grande tema. O novo romance investe na mesma linha, com a diferença de que, desta vez, a classe média inclui também os imigrantes. A história acompanha dois casais que resolvem adotar crianças coreanas – os impecavelmente americanos Brad e Bitsy Donaldson e os exilados iranianos Sami e Ziba Yazdan. Ironicamente, os Donalson tentam cultivar a "identidade" coreana da criança, mantendo seu nome original, Jin-Ho, enquanto os iranianos tentam integrar a filha adotada à cultura americana.

Leia trecho

1 Às oito horas da noite, o aeroporto de Baltimore estava quase deserto. Os amplos corredores cinza estavam vazios, as bancas de jornais estavam escuras e as lanchonetes estavam fechadas. A maioria dos portões tinha deixado passar seus últimos vôos. Os letreiros estavam em branco e as fileiras de cadeiras de vinil, desocupadas e fantasmagóricas.

Mas era possível ouvir um zumbido distante, um murmúrio de expectativa, bem no final do Saguão D. Podia-se ver uma criança hiperativa rodopiar até ficar tonta no meio do corredor, e depois um adulto aparecendo para pegá-la e levá-la, rindo e se contorcendo, de volta para a área de espera. E uma retardatária, uma mulher de vestido amarelo, se apressava em direção ao portão com uma braçada de rosas de hastes longas.

Avance pela curva, então, e você encontrará o que parece um gigantesco chá-de-bebê. Toda a área de espera do vôo de São Francisco estava entulhada de pessoas carregando presentes embrulhados em papel rosa e azul, ou segurando flotilhas de balões prateados onde estava impresso É UMA MENINA! com rabos de fita cor-de-rosa espiralada. Um homem agarrava a alça de um berço de vime com rodinhas e babados como se planejasse empurrá-lo para dentro do avião, e uma mulher estava a postos com um carrinho de bebê com tantos detalhes de aço cromado e tão cheio de alavancas que parecia pronto para entrar na fórmula Indy. Pelo menos meia dúzia de pessoas segurava câmeras de vídeo, e muitas outras tinham máquinas fotográficas em volta do pescoço. Uma mulher falava em um gravador de maneira urgente e misteriosa. O homem a seu lado segurava junto ao peito uma cadeirinha de carro estofada de veludo.

MAMÃE, dizia o button no ombro de uma mulher — um desses buttons laminados que você vê em ano de eleições. E o do homem dizia PAPAI. Um casal bonito, não tão jovem como se podia esperar — a mulher de pantalonas pretas largas e uma blusinha rebuscada preta-e-branca em um padrão geométrico, o cabelo curto com riscos grisalhos; o homem um tipo grandalhão, sorridente e jovial com um cabelo grosso e louro cortado curtinho, os joelhos nus se projetando timidamente de bermudas cáqui volumosas.

E não estavam lá apenas MAMÃE e PAPAI; estavam também VOVÓ e VOVÔ, duas vezes — os dois conjuntos completos. Uma das avós era uma mulher amarrotada e à vontade em um vestido de verão de brim e um boné de beisebol com a estampa colorida de lenços de caubóis; a outra era magra, dourada e maquiada à perfeição, usando um conjunto de calça comprida de linho cru e sapatilhas na mesma cor. Os avós também combinavam — o marido da mulher amarrotada também amarrotado, seus cachos cinza metálicos necessitando de um corte, enquanto o marido da mulher dourada usava calças de linho e um tipo de camisa tropical fina, e uma parte do brilhante cabelo amarelo possivelmente não era dele.

É verdade que havia outras pessoas esperando, pessoas que claramente não foram incluídas na comemoração. Uma mulher com rolinhos no cabelo e de olhos cansados; uma mulher mais velha com outra mais jovem que podia ser a filha; um pai com duas crianças pequenas já vestidas de pijamas. Esses intrusos estavam nas margens, quietos e de alguma forma obscurecidos, de tempos em tempos lançando olhares sorrateiros em direção a MAMÃE e PAPAI.

O avião estava atrasado. As pessoas iam ficando impacientes. Uma criança mostrava acusadoramente que o aviso de chegada ainda dizia NA HORA — uma óbvia mentira. Vários adolescentes vagavam pela área de espera não-iluminada do outro lado do corredor. Uma menina de rabo-de-cavalo tinha caído no sono em uma cadeira de vinil, o button de sua blusa de listras verdes proclamando PRIMA.

Então alguma coisa mudou. Não houve nenhum aviso — o sistema de som estava em silêncio há algum tempo — mas, aos poucos, as pessoas gradualmente pararam de falar e se acotovelaram em direção à passagem, esticando o pescoço, pondo-se nas pontas dos pés. Uma mulher de uniforme digitou um código e a porta da passagem se abriu. Um carregador chegou com uma cadeira de rodas. Os adolescentes reapareceram. MAMÃE e PAPAI, até agora bem no centro da multidão, foram empurrados para a frente com palmadinhas de estímulo, uma passagem magicamente se abriu para deixá-los se aproximar da porta.

O primeiro a sair foi um jovem muito alto de jeans, com o olhar confuso de alguém que tinha voado por tempo demais. Ele localizou mãe e filha e se dirigiu a elas, curvando-se para beijar a filha, mas só na face, porque ela estava muito ocupada tentando olhar para além dele, apenas devolvendo brevemente seu abraço enquanto mantinha os olhos nos recém-chegados.

Dois executivos com pastas, avançando com determinação pelo terminal. Um adolescente com uma mochila tão grande que parecia uma formiga com uma migalha de pão de tamanho exagerado. Outro executivo. Outro adolescente, este reclamado pela mulher com rolinhos nos cabelos. Uma ruiva sorridente, de faces rosadas, instantaneamente engolfada pelas duas crianças de pijamas.

Agora uma pausa. Uma espécie de concentração de foco.

Uma asiática impecavelmente vestida apareceu na porta com um bebê. Esse bebê tinha talvez cinco ou seis meses de idade — capaz de se sustentar confiantemente na vertical. Tinha um rosto acolchoado e uma cabeça de cabelos negros surpreendentemente volumosos, cortados bem retos na testa e bem retos no alto das orelhas, e usava um macacão rosa com pezinhos. "Ah!" todos suspiraram — até os estranhos, até a mãe com a filha crescida. (Embora o jovem da filha ainda parecesse confuso.) A futura mãe estendeu os braços, deixando o gravador quicar na ponta da alça. Mas a asiática imediatamente parou de uma maneira autoritária que repelia qualquer aproximação. Ela se deteve e disse:

— Donaldson?

— Donaldson. Somos nós — disse o futuro pai. Sua voz falhava. De alguma forma ele se livrara da cadeirinha de carro, passando-a sem ver para quem, mas tinha ficado um pouco atrás da esposa, com uma das mãos nas costas dela como se fosse preciso um suporte.

— Meus parabéns — disse a asiática. — Esta é Jin-Ho. — Ela transferiu o bebê para os braços ansiosos da mãe e desencaixou uma sacola rosa de fraldas dos ombros e a passou para o pai. A mãe mergulhou o rosto na curva da nuca do bebê. O bebê continuou ereto, olhando com calma para a multidão. "Ah", as pessoas continuavam dizendo, e "Ela não é uma gracinha!" e "Você já viu coisa mais linda?"

Lâmpadas de flash, insistentes câmeras de vídeo, todos querendo chegar perto. Os olhos do pai ficaram molhados. Os de muita gente também; houve sons de fungadas por toda a área de espera e narizes sendo assoados. E quando a mãe finalmente ergueu o rosto, sua face estava tomada de lágrimas.

— Toma — ela falou com o pai. — Segure-a.

— Ah, não, tenho medo de... Você segura, querida. Eu fico olhando.

A asiática começou a mexer em um maço de papéis. As pessoas que ainda desembarcavam tinham que passar por ela, passar pela pequena família e os que desejavam boa sorte e o emaranhado de apetrechos de bebê. Por sorte, o vôo não estava cheio. Os passageiros chegavam em ondas: homem com uma bengala, pausa; casal de aposentados, pausa...

E então outra asiática, mais nova do que a primeira e mais comum, com um jeito acanhado, olhando ao redor como quem pede desculpas. Estava puxando pela alça um carrinho de criança em forma de balde, e você podia dizer que o bebê lá dentro não pesava muito. Esse bebê, também, era uma menina, se você pudesse adivinhar pela camiseta cor-de-rosa, mas era menor do que a primeira, amarelada e de faces encovadas, com finos cachos de cabelos pretos caindo em sua testa. Como a jovem que a transportava, mostrava uma espécie de interesse ansioso pela multidão. Seus olhos negros observadores moviam-se rápidos demais de um rosto a outro.

A jovem mulher disse alguma coisa que soou como "Yaz-dun?"

— Yaz-dan — uma mulher chamou do fundo. Soou como uma correção. A multidão se abriu outra vez, sem ter certeza de para onde se mover mas ansiosa para ajudar, e três pessoas que ninguém havia percebido antes se aproximaram em fila única: um casal bem jovem, parecendo estrangeiro, de pele morena e atraente, seguido por uma mulher mais velha e esbelta com um coque de cabelo liso e preto preso bem embaixo na nuca. Deve ter sido ela quem disse alto o nome deles, porque agora ela o disse outra vez com a mesma voz clara e forte. — Aqui estamos nós. Yazdan. — Havia apenas um sinal de sotaque evidente nos s’s dobrados.

A jovem virou o rosto para eles, segurando o carrinho de maneira desajeitada a sua frente.

— Parabéns, esta é Sooki — ela disse, mas tão baixo e sem fôlego que as pessoas tiveram que se perguntar uma para a outra: "O quê?", "Quem ela disse?", "Sooki, acho que foi isso.", "Sooki! Não é um amor?"

Houve um problema para desamarrar a correia que segurava o bebê no carrinho. Os novos pais tiveram que fazer isso porque as mãos da asiática estavam cheias, e os pais estavam aturdidos e atrapalhados — a mãe sorrindo levemente e jogando para trás seu explosivo volume de cachos tingidos de hena, o pai mordendo os lábios e parecendo vexado consigo mesmo. Ele usava miúdos óculos sem aros, muito limpos, que brilhavam quando ele se virava de um lado para outro, lutando com o fecho de plástico. A avó, se era isso que ela era, fazia muxoxos solidários.

Mas finalmente o bebê foi solto. Um pedacinho de gente! O pai a puxou para fora com os braços estendidos e cautelosos e a passou para a mãe, que a aninhou e a embalou, pressionando o rosto no topo da frágil cabeça escura do bebê. O bebê levantou as sobrancelhas mas não ofereceu resistência. Os espectadores assoaram outra vez os narizes e o pai teve que tirar seus óculos e limpar as lentes, mas a mãe e a avó permaneceram de olhos secos, sorrindo e murmurando baixinho. Elas não prestavam atenção na multidão. Quando alguém perguntou "A sua também é da Coréia?", nenhuma das mulheres respondeu, e foi o pai que finalmente disse: "Hummm? Ah, sim, é."

— Ouviram isso, Bitsy e Brad? Outra neném coreana!

A primeira mãe olhou ao redor — ela estava deixando que as duas avós fizessem uma inspeção mais próxima — e disse: "É mesmo?". Seu marido lhe fez eco: "É mesmo!" Deu um passo em direção aos outros pais e estendeu sua mão.

— Brad Donaldson. Aquela ali é minha esposa, Bitsy.

— Muito prazer — disse o segundo pai. — Sami Yazdan. — Ele apertou a mão de Brad, mas sua falta de interesse era quase cômica; não conseguia tirar os olhos do seu bebê. — Hum, minha esposa, Ziba — acrescentou depois de um momento. — Minha mãe, Maryam. — Ele tinha o sotaque normal de Baltimore, embora pronunciasse os nomes das duas mulheres como nenhum americano faria — Zi-bá e Mar-yam. A esposa não levantou os olhos. Estava embalando o bebê e dizendo o que soava como "Su-su-su". Brad Donaldson agitou uma das mãos cordialmente na direção dela e retornou para sua família.

Quando as transferências foram feitas oficialmente — ambas as asiáticas mostraram-se aferradas aos detalhes — a multidão dos Donaldson começou a se dispersar. No entanto, evidentemente algum tipo de reunião fora planejada para mais tarde, porque as pessoas ficavam gritando "Encontro vocês lá!" enquanto se dirigiam para a saída. E então os próprios pais estavam livres para sair, Bitsy na frente enquanto a mulher com o carrinho o empurrava logo atrás dela como uma dama de companhia. (Claramente nada persuadiria Bitsy a renunciar a segurar o bebê.) Brad ia atrás dela, seguido por alguns extraviados e, no final da fila, os Yazdan. Um dos avós dos Donaldson, o amarrotado, ficou para trás para perguntar aos Yazdan:

— Então. Vocês tiveram que esperar muito por sua nenê? Montes de papéis para preencher e interrogatórios rigorosos?

— Sim — disse Sami —, uma espera muito longa. Um processo muito longo e exaustivo. — E deu um olhar para a esposa. — Houve momentos em que pensamos que isso nunca aconteceria — ele disse.

O avô tagarelou para desabafar:

— E eu não sei!? Deus, o que Bitsy e Brad tiveram que agüentar!

Eles passaram ao lado da segurança, que consistia em um único funcionário sentado em um banquinho, e começaram a descer a escada-rolante — todos, menos o homem com o berço-carrinho. Ele teve que pegar o elevador. A mulher com o carrinho, no entanto, parecia decidida. Com destreza, ela inclinou para trás a frente do carrinho e avançou para o degrau sem hesitar.

— Escuta — do degrau mais baixo, Brad gritou para os Yazdan. — Vocês todos não querem vir para nossa casa? Para comemorar conosco?

Mas Sami estava absorto em guiar sua esposa para a escada rolante, e como ele não respondeu, Brad agitou a mão outra vez naquele jeito afável dele de ah-tudo-bem. "Talvez outra hora", ele disse para ninguém em particular, e se virou para seguir com os outros.

As portas de saída se abriram e os Donaldson saíram em ondas. Dirigiram-se para o estacionamento em dois, três e quatro, e logo depois disso os Yazdan apareceram e ficaram de pé no meio-fio por um momento, sem se mexer, como se precisassem de tempo para se adaptarem à noite quente, úmida, pouco iluminada, com cheiro de gasolina.

Sexta-feira, 15 de agosto de 1997. A noite em que as meninas chegaram.


 
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