Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

O Ente Querido, de Evelyn Waugh (tradução de Cid Knipel; Globo; 154 páginas; 25 reais) – O inglês Evelyn Waugh (1903-1966) escreveu alguns dos mais brilhantes romances satíricos de seu tempo, como Declínio e Queda e Um Punhado de Pó. O Ente Querido, seu único livro ambientado nos Estados Unidos, resultou de uma curta passagem do autor por Hollywood. Na obra, que estava fora de catálogo havia algum tempo, ele lança um olhar para lá de cáustico sobre a meca do cinema. A história gira em torno de um bizarro triângulo amoroso. Ele envolve um embalsamador e uma maquiadora de defuntos que se apaixonam no local de trabalho – que vem a ser um cemitério onde são enterradas celebridades de Hollywood. O terceiro vértice da história é um poeta inglês que luta para fazer carreira no cinema, mas acaba arrumando um emprego temporário num cemitério de animais.

Leia trechos do livro

Primeiro capítulo

O DIA TODO 0 CALOR FORA QUASE INTOLERÁVEL, mas à noite uma brisa se ergueu no oeste, soprando do calor do pôr-do-sol e do oceano invisível e inaudível por trás dos contrafortes macegosos. A brisa agitava as palmas desbotadas dos coqueiros e inflava os sons secos do verão, o coaxar dos sapos, as cigarras rangedoras e o pulsar onipresente de música das cabanas nativas das imediações.

Àquela luz delicada, a pintura manchada e empolada do bangalô e o trançado das ervas entre a varanda e a piscina seca perdiam sua extrema mesquinhez, e os dois ingleses, cada um em sua cadeira de balanço, cada um com seu uísque e soda e a revista velha, as contrapartes de inúmeros compatriotas exilados nas regiões bárbaras do mundo, compartilhavam a breve reabilitação ilusória.

- Ambrose Abercrombie logo estará aqui - disse o mais velho. - Eu não sei por quê. Ele deixou um recado que viria.

Veja se encontra outro copo, Dennis. - Em seguida, acrescen­tou, mais petulante: - Kierkegaard, Kafka, Connolly, Compton­Burnett, Sartre, "Scottie" Wilson. Quem são eles? 0 que eles querem?

- Ouvi falar de alguns deles. Eram o assunto em Londres quando parti.

- Falavam de "Scottie" Wilson?

- Não. Acho que não. Dele não.

- Aquilo é "Scottie" Wilson. Aqueles desenhos ali. Eles fazem algum sentido para você?

- Não.

- Não.

0 ânimo momentâneo de Sir Francis Hinsley arrefeceu. Deixou cair seu exemplar da Horizon e fixou o olhar no retalho de sombra que se aprofundava e que outrora havia sido uma piscina. Seu rosto era sensível e inteligente, um tanto obscurecido pela vida fácil e um longo enfado.

- Antes era Hopkins - disse ele -; Joyce e Freud e Ger­trude Stein. Eu também não conseguia entender nada deles. Nunca fui muito bom com coisas novas. "A dívida de Arnold Bennett para com Zola". A dívida de Flecker para com Henley". Isso foi o mais perto que cheguei dos modernos. Meus melhores temas eram "o paroquial inglês na prosa inglesa" ou "Ações de cavalaria entre os poetas", esse tipo de coisa. Antigamente, as pessoas pareciam gostar deles. Depois perderam o interesse. Eu também. Sempre fui o mais infatigável dos escribas. Eu precisava de uma mudança. Nunca lamentei ter vindo.


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio