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O Mar, de John Banville (tradução de Maria Helena Rouanet; Nova Fronteira; 224 páginas; 29,90 reais) – O mar que dá título ao livro está presente na cidadezinha litorânea em que o protagonista, o historiador da arte Max Morden, passou um verão na infância e à qual retorna depois que sua mulher, Anna, morre de câncer. Mas o mar funciona, sobretudo, como uma metáfora da memória, que nesse romance também se movimenta em ondas, à medida que Max relembra, por exemplo, sua relação com a família rica que conheceu numa temporada de praia, quando menino. A narrativa às vezes transita do presente para o passado de uma frase para outra, feito que Banville realiza com grande apuro estilístico. O Mar ganhou o prestigiado Man Booker Prize de 2005 – e o prêmio foi merecido.

Leia trecho

Os deuses partiram no dia daquela maré estranha. Durante toda a manhã, sob um céu leitoso, as águas da baía foram subindo, subindo, atingindo alturas inauditas, com pequenas ondas lambendo a areia ressecada que, por anos a fio, não soube o que era umidade, a não ser pela chuva, e chegando até a base das dunas. Os despojos enferrujados do velho navio encalhado lá na entrada da barra, e que, para qualquer um de nós, estavam naquele lugar desde sempre, devem ter achado que tinha chegado a hora de voltar a navegar. Depois daquele dia, nunca mais nadei. As aves gritavam e mergulhavam do céu, parecendo perturbadas pelo espetáculo daquela imensa bacia cheia de água que inchava como uma bolha de um azul quase chumbo malignamente reluzente. Naquele dia, os pássaros estavam mais brancos, com uma cor nada natural. As ondas iam deixando uma faixa de espuma amarelada na areia. Nenhuma vela manchava a linha do horizonte. Não, não voltei a nadar depois desse dia. Nunca mais.

Acabou de passar alguém sobre o meu túmulo. Alguém.

A casa se chama Os Cedros, como antigamente. Um punhado eriçado dessas árvores, de um marrom cor-de-macaco, um cheiro rançoso de resina e os troncos assustadoramente retorcidos, ainda cresce à esquerda da casa, diante de um gramado maltratado que fica defronte da grande janela abaulada do cômodo que era a sala de visitas, mas que Miss Vavasour, como boa profissional do ramo, preferia chamar de saguão. A porta da frente fica do outro lado, dando para um pátio quadrado, recoberto de cascalho manchado de óleo, logo depois do portão ainda pintado de verde, embora a ferrugem tenha reduzido aquela pomposa grade a uma frágil filigrana. Fiquei impressionado ao ver como tudo mudou tão pouco nos mais de cinqüenta anos que se passaram desde que estive aqui pela última vez. Impressionado, e desapontado. Diria até horrorizado, por razões que não consigo descobrir; afinal, por que eu desejaria que as coisas houvessem mudado, logo eu, que voltei a viver em meio aos escombros do passado? Não sei por que a casa foi construída desse jeito, de lado, com uma parede branca e sem janelas virada para a rua; talvez, em outros tempos, antes da construção da estrada de ferro, o traçado da rua também fosse diferente, passando bem diante da porta da frente. Tudo é possível... Miss V. é bastante vaga quanto a datas, mas acha que, de início, construíram ali uma casinha pequena, em princípios do século passado, quero dizer, do anterior, estou perdendo a noção dos milênios, e, depois, foram fazendo obras e aumentando a casa meio aleatoriamente ao longo dos anos. Isso explicaria o ar caótico daquela construção, com salinhas que dão passagem para outras salas maiores, janelas que se abrem para paredes cegas, e tetos baixos de ponta a ponta da casa. O assoalho de pinho dá um toque náutico ao local, assim como a minha cadeira de rodinhas, com encosto de ripas de madeira. Posso até imaginar um velho lobo-do-mar, cochilando ao pé da lareira, finalmente assentado em terra firme, e o vento do inverno fazendo as janelas baterem. Ah, ser esse marinheiro... Ter sido ele...

Quando estive aqui tantos anos atrás, no tempo dos deuses, Os Cedros era uma casa de veraneio, alugada por quinzena ou por mês. Todo ano, em junho, um médico rico e sua família estridente infestavam o lugar - não gostávamos dos seus filhos esganiçados, que riam de nós e ficavam nos atirando pedras, protegidos pela barreira impenetrável do portão. Depois deles, vinha um casal misterioso, de meia-idade, que não falava com ninguém e quase toda manhã levava, sempre de cara amarrada, o cachorro salsicha para passear, descendo a Station Road até a praia. Para nós, agosto era o mês mais interessante naquela casa. A cada ano, havia inquilinos diferentes, gente da Inglaterra ou do Continente; uns casais esquisitos em lua-de-mel, que ficávamos tentando espionar, e, certa vez, veio inclusive uma trupe de teatro ambulante que estava se apresentando na matinê do cinema do vilarejo, com o seu telhado de zinco. E, então, naquele ano, veio a família Grace

A primeira coisa que vi foi o automóvel, estacionado no pátio de cascalho, por trás das grades do portão. Era um carro preto, baixo, meio amassado e arranhado, com bancos estofados de couro bege e um volante enorme, de madeira polida. Livros com capas desbotadas e amarrotadas estavam jogados no console junto ao vidro traseiro, ao lado de um mapa turístico da França com ar de já ter sido bem usado. Como a porta da casa estava escancarada, dava para ouvir vozes vindo lá de dentro, e, do andar de cima, o som de pés descalços correndo pelas tábuas do assoalho, e um riso de menina. Fiquei parado diante do portão, nitidamente bisbilhotando, até que, de repente, surgiu um homem, saindo da casa com um copo na mão. Era baixo e desproporcional, só ombros, peito e uma cabeçorra redonda, de cabelo preto, ondulado e lustroso, cortado bem curtinho, com umas mechas de um grisalho prematuro, e uma barbicha pontuda, igualmente salpicada de branco. Usava uma camisa verde, desabotoada, um short cáqui, e estava descalço. De tão queimada pelo sol, a sua pele chegava a ter um brilho arroxeado. E, como pude notar, até o peito dos seus pés estava queimado. Quase todos os pais que eu conhecia eram branquíssimos do pescoço para baixo. Pôs o copo - gim de um branco azulado, com pedras de gelo, e uma rodela de limão - em equilíbrio instável sobre a capota do carro, abriu a porta do lado do carona e se inclinou para apanhar alguma coisa abaixo do painel. No andar de cima, que eu não podia ver, a menina riu novamente, e soltou um sonoro grito selvagem, fingindo estar apavorada. Mais uma vez, deu para ouvir o som de pés correndo pelo assoalho. Estavam brincando de pique, ela e a outra pessoa sem voz. O homem voltou a se erguer, pegou o copo de gim e bateu a porta do carro. Não encontrou seja lá o que estivesse procurando. Quando se virou para entrar em casa, me viu e piscou o olho. Não como os adultos fazem normalmente, daquele jeito a um só tempo brincalhão e insinuante. Não. Foi uma piscadela amigável, conspiratória, quase maçônica, como se aquele momento que nós dois, completos desconhecidos, um adulto e um menino, acabávamos de compartilhar, significasse alguma coisa, embora fosse aparentemente desprovido de qualquer significação, até mesmo de qualquer conteúdo. Os olhos do sujeito eram de um azul-claro extraordinariamente translúcido. Então, ele voltou para dentro, falando antes mes- mo de passar pela porta: - Diabos... - disse - parece que... - e sumiu. Fiquei parado ali ainda por uns instantes, fitando as janelas do andar de cima. Não apareceu ninguém.

Esse foi, portanto, o meu primeiro encontro com os Grace: a voz da menina vindo lá de cima, o som de gente correndo, e o homem aqui embaixo, com aqueles olhos azuis piscando para mim, daquele jeito gaiato, íntimo, ligeiramente satânico.

Acabei de me pegar fazendo de novo aquele assobiozinho atrevido por entre os dentes da frente, coisa que dei para fazer recentemente. Li ri ri ri ri ri... e por aí vai, parecendo até um motor de dentista. Meu pai assobiava assim. Será que estou me transformando nele? No quarto em frente ao meu, o coronel Blunden está ouvindo rádio. Os seus programas favoritos são aqueles da tarde, que recebem telefonemas irados dos ouvintes para se queixar dos políticos corruptos, do preço das bebidas e outras eternas amolações. - É companhia - diz ele secamente, e pigarreia, parecendo constrangido, com aqueles seus olhos saltados, parabólicos, evitando encontrar os meus, embora eu não lhe tenha lançado nenhum desafio. Será que fica deitado na cama quando está ouvindo rádio? Não é fácil imaginá-lo ali, com aquelas grossas meias de lã cinzentas, remexendo os dedos dos pés, sem gravata, com o colarinho desabotoado, e as mãos entrelaçadas por detrás daquele velho pescoço troncudo. Fora do quarto, é o próprio modelo de integridade, desde as botinas lustrosas, que já levaram tantas meias-solas, até o topo da cabeça cônica. Todo domingo de manhã, o coronel vai cortar o cabelo no barbeiro do vilarejo, e manda cortar bem rente na nuca e nas laterais, sem apelação, deixando apenas uma espécie de penachinho grisalho no alto do crânio. As suas orelhas de lóbulos compridos se destacam, parecendo que foram secas e defumadas, e o branco dos olhos também tem uma tonalidade amarelo-esfumaçada. Dá para ouvir o som das vozes no rádio, mas não consigo entender o que estão dizendo. Posso enlouquecer aqui. Li ri ri ri ri...

Mais tarde, naquele mesmo dia em que os Grace chegaram, ou no dia seguinte, ou quem sabe no outro, voltei a ver o carro preto, e o reconheci de imediato, assim que ele despontou na corcova da pontezinha que passa por cima dos trilhos do trem. Ela continua ali, a tal ponte, pouco depois da estação. É... as coisas duram, ao passo que os seres vivos se acabam. O carro estava saindo do vilarejo, rumo à cidade, que vou chamar de Meganagh, e que fica a uns quinze quilômetros dali. Se a cidade é Meganagh, o vilarejo é Mininagh. Talvez seja ridículo, mas não estou nem aí... O sujeito de barbicha que tinha piscado para mim estava dirigindo, dizendo algo e rindo, com a cabeça inclinada para trás. Ao seu lado, uma mulher com o cotovelo apoiado na janela, a cabeça também jogada para trás, o cabelo claro agitado pelas rajadas de vento. Mas ela não estava rindo, apenas sorria, com aquele sorriso que reservava para ele, um sorriso cético, tolerante, languidamente divertido. Usava uma blusa branca e óculos escuros de aro de plástico também branco, e estava fumando um cigarro. Onde será que estou? Que lugar tão privilegiado é esse onde estou escondido? Não vejo a mim mesmo. Eles logo desaparecem, a traseira do carro se rebolando e sumindo numa curva, soltando uma baforada de fumaça. O capim mais alto da beira da estrada, louro como o cabelo daquela mulher, estremeceu por um instante, e voltou à indolência sonhadora de antes.


 
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