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Família,
de Natalia Ginzburg (tradução de Joana Angélica
D'Ávila Melo; José Olympio Editora; 142 páginas;
24 reais) A escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991)
dedicou boa parte de sua obra a criticar, a partir de uma perspectiva
essencialmente intimista, códigos de conduta rígidos
que observava entre seus conterrâneos. Os dois contos de Família,
lançado originalmente em 1977, tratam da solidão.
No primeiro, um arquiteto e uma tradutora, namorados de adolescência,
encontram-se na tentativa de recuperar o amor passado. Burguesia,
o conto seguinte, mostra o drama da viúva Ilaria, que ganha
de presente um gato siamês e pensa que o animal irá
aplacar sua solidão. Um prenúncio de decepção
pesa sobre as duas histórias.
Leia
trecho do primeiro capítulo
Um
homem e uma mulher foram numa tarde ver um filme. Era domingo e
era verão. Com eles estavam uma garota de catorze anos e
dois meninos de sete. O homem era alto, bonito, cabelos pretos e
crespos, rosto grande e moreno, boca grande e séria. Usava
óculos escuros e uma roupa de tecido azul muito amarrotada.
A mulher era baixinha, feiosa, rosto miúdo e oliváceo,
cabelos pretos torcidos no alto da cabeça, nariz comprido
e fino, olhos verdes e sobrancelhas espessas, ombros caídos
e quadris largos. Usava uma saia de jeans e uma camiseta azul muito
desbotada. Eles eram amigos, conheciam-se havia muitos anos. Tempos
antes, na juventude, tinham sido amantes e vivido juntos. Mas agora
eram apenas amigos. A garota era filha da mulher e se chamava Angélica.
Era alta, cheia de sardas, cabelos vermelho-fogo espalhados pelos
ombros, uma mecha que lhe pendia sobre um olho, de modo que só
se via o outro, castanho-amarelado. Usava uma saia evasê verde-grama
e uma blusinha de seda crua. O menor dos dois meninos era filho
do homem. Chamava-se Piergiorgio, mas tinha o apelido de Dodó.
Era gorducho, cabelos castanhos, lisos e alinhados sobre a testa,
olhos redondos e tímidos, e trazia um suéter de lã
de camelo amarrado à cintura. O outro menino era magro e
de pele morena, com largos dentes brancos projetados sobre os lábios.
Chamava-se Daniele e era filho de uma vizinha da mulher, uma certa
Isa Meli, que naquele dia estava cansada e queria passar a tarde
inteira dormindo. Afinal, para quê esse suéter, disse
Angélica, apontando o menino gordo. Sua voz era aguda, severa
e judiciosa. Ela estava aborrecidíssima por sair com a mãe
e com aqueles meninos, numa tarde de domingo, e, por entre as sardas,
seu único olho se mostrava entediado e severo. O homem afastou-lhe
a mecha da têmpora. Por um instante, o segundo olho apareceu,
mas depois a mecha voltou a escondê-lo. Porque no cinema,
respondeu o homem, quando o ar-condicionado funciona, pode fazer
um frio de Pólo Norte.
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