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Perseguido,
de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia das Letras; 202 páginas;
28,50 reais) Respeitado estudioso da psicanálise,
o carioca Garcia-Roza vem se dividindo desde os anos 90 entre suas
preocupações acadêmicas e uma atividade bem
diversa: a de autor de romances policiais. Já escreveu quatro
histórias do gênero, bem acolhidas pelo público
e pela crítica. Espinosa, o herói de seus livros,
é um delegado calejado, que recebeu esse nome em razão
da admiração do escritor pelo filósofo holandês
Baruch Spinoza (1632-1677). Nesse novo trabalho, o personagem monta
mais um quebra-cabeça criminal na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Um psiquiatra sente-se perseguido por um paciente, que ronda sua
casa e família. Um dia, no entanto, o paciente desaparece.
Eis o ponto de partida para uma trama surpreendente.
Leia trecho do livro
PRÓLOGO
Os
passos largos e o olhar fixo para a frente não facilitavam
a locomoção pela rua repleta de pedestres, na tarde
quente de março. Para não se chocar com as pessoas
e não perder o ritmo das passadas, Espinosa chegava a andar
longos trechos com um pé na calçada e outro no calçamento
de paralelepípedos da rua, mancando em meio aos transeuntes.
Não estava atrasado para nenhum encontro nem se dirigia a
nenhum lugar predeterminado. Ao pegar a rua da Quitanda, fizera-o
com o intuito de dobrar na rua do Carmo e passar num sebo que freqüentava
desde os tempos de estudante de direito. Mas, naquele ritmo acelerado,
a rua do Carmo e o sebo tinham ficado para trás. Sempre que
possível, Espinosa aproveitava uma tarde de pouco movimento
na delegacia para conhecer um novo sebo ou fuçar alguma velha
oficina num sobrado do Centro. Isso quando estava trabalhando, mas
naquela tarde ele apenas tentava aproveitar um dos seus últimos
dias de férias. Os anteriores não tinham sido diferentes
daquele que já ia pela metade.
A coisa começara a dar errado uma semana antes do início
das férias, quando Irene recebera a carta que a convidava
para um seminário seguido de um curso de duas semanas no
Museu de Arte Moderna de Nova York. Ela não havia pedido;
era um convite do próprio museu feito a profissionais estrangeiros
que haviam se destacado nos últimos anos. E as férias
a dois numa praia do Nordeste haviam sido interrompidas antes mesmo
de terem começado. Espinosa não tivera mais remédio
senão ficar no Rio de Janeiro, que afinal também tem
praias. Bom para Irene, desastroso para ele. Bom também para
deixar clara a diferença entre uma programadora visual e
um delegado de polícia, pensava, apertando ainda mais o passo.
Andava pelo Centro havia quase duas horas. Em uma das mãos
carregava uma pequena sacola com dois livros que adquirira naquela
mesma tarde, mas de cujos títulos não se lembrava,
nem da livraria onde os comprara. O lanche que programara fazer
na confeitaria Colombo também ficara para trás. Era
quinta-feira e ele só reassumiria suas funções
na segunda. Procurou a estação de metrô mais
próxima e voltou para casa.
O telefone tocou pela primeira vez às sete e vinte da noite.
Nos quinze minutos seguintes, tocou mais duas vezes. Em nenhuma
das vezes a pessoa que estava ligando disse uma única palavra.
Espinosa demorou a atender o quarto telefonema, e ouviu o mesmo
silêncio das outras vezes. Já ia repor o fone no aparelho
quando uma voz de homem o deteve:
- Delegado Espinosa?
- Sim.
- Desculpe estar ligando para sua residência, mas na delegacia
disseram que o senhor estava de férias.
- Estou, realmente.
- Meu nome é Artur Nesse, sou médico... Um colega
do hospital me deu seu nome... O senhor o ajudou...
- ... e agora o senhor está precisando de ajuda.
- É... Não propriamente eu... Outra pessoa... Mas
eu é que não sei o que fazer. Desculpe, delegado,
acho que estou muito confuso.
- Volto ao trabalho na segunda-feira. Por que o senhor não
passa na delegacia para me contar o que está acontecendo?
- Não posso esperar até lá... É urgente...
É minha filha...
- O que aconteceu com sua filha?
- Desapareceu... Foi seqüestrada.
- Desapareceu ou foi seqüestrada?
- Primeiro ela desapareceu, depois vi que tinha sido seqüestrada.
- E como o senhor viu que sua filha tinha sido seqüestrada?
- É... É evidente...
- Há quanto tempo ela está desaparecida?
- Um dia. Um dia e uma noite.
- Quantos anos tem sua filha?
- Dezessete.
- Houve algum contato?
- Não, nenhum.
- Como o senhor sabe, então, que ela foi seqüestrada?
- Porque não pode ter sido outra coisa.
- O senhor já comunicou o fato à delegacia especializada?
- Não! Não quero minha filha envolvida com a polícia.
- E envolvida com seqüestradores, quer?
- Podemos falar pessoalmente?
- Nós já estamos falando pessoalmente.
- Me disseram que o senhor é um homem compreensivo.
- E sou, mas, até onde vai minha compreensão, não
acredito que sua filha tenha sido seqüestrada.
- Por que o senhor está dizendo isso?
- Porque se o senhor achasse que sua filha tivesse sido seqüestrada,
seu comportamento seria diferente. Talvez sua filha tenha fugido
de casa.
- Gostaria que o senhor cuidasse do caso.
- Doutor Nesse, sou delegado de polícia e não investigador
particular. Se o senhor quer uma investigação privada,
contrate os serviços de uma agência de detetives.
- Podemos, pelo menos, conversar sobre o caso? Não é
só o desaparecimento da minha filha, tem mais coisa.
- Está bem. Espero o senhor daqui a meia hora na praça
do bairro Peixoto, em Copacabana. Anote o endereço.
Àquela hora, a praça se esvaziara dos freqüentadores
da tarde e ainda não recebera os que chegavam depois do jantar
e do noticiário da tevê. Após quinze minutos
no portão do prédio, Espinosa viu um carro dar a volta
completa na praça. Era um modelo importado parecendo novo
em folha cuja cor escura brilhava ao refletir as luzes próximas.
O motorista não olhava para os prédios como quem busca
um número e também não parecia procurar uma
pessoa; na segunda volta ficou claro que escolhia a vaga mais adequada.
Somente então estacionou, trancou a porta, contornou o carro
numa aparente verificação geral e se distanciou, olhando
para os prédios e para um pedaço de papel que trazia
na mão.
Espinosa esperou o homem se aproximar.
- Doutor Nesse? Sou o delegado Espinosa.
- Ah, delegado Espinosa, eu estava procurando seu prédio.
Trocaram um aperto de mão. Dr. Nesse era só um pouco
mais alto que Espinosa, mas aparentava ter o dobro de massa muscular.
Atravessaram a rua lentamente e em silêncio procuraram o banco
mais isolado.
- Então, doutor, o que aconteceu?
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