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Os
Melhores Contos Portugueses do Século XIX, (Landy;
346 páginas; 40 reais) O século XIX produziu
alguns dos maiores nomes da literatura portuguesa, como Alexandre
Herculano, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz. Ao organizar
essa coletânea, o escritor José Viale Moutinho não
se esquece deles. A prosa histórica de Herculano está
representada em O
Bispo Negro. Queiroz, o maior dos
realistas portugueses, comparece com O
Tesouro, em que três irmãos
se digladiam por ouro. Do melancólico Castelo Branco há
Aquela Casa Triste..., que
começa assim: "A casa grande das quinze janelas branqueja
no espinhaço do monte. As janelas fecharam-se há seis
meses, ao mesmo tempo que duas sepulturas se abriram". O antologista
também garimpou obras menos conhecidas, como um curioso conto
fantástico de Júlio César Machado.
Leia trecho do livro
O
Bispo Negro
ALEXANDRE HERCULANO (1130)
I
Houve
tempo em que a velha catedral conimbricense, hoje abandonada
de seus bispos, era formosa; houve tempo em que essas pedras,
ora tisnadas pelos anos, eram ainda pálidas, como as
margens areentas do Mondego. Então, o luar, batendo nos lanços
dos seus muros, dava um reflexo de luz suavíssima, mais rica
de saudade que os próprios raios daquele planeta guardador
dos segredos de tantas almas, que crêem existir nele, e só
nele, uma inteligência que as perceba.
Então
aquelas ameias e torres não haviam sido tocadas das mãos
de homens, desde que os seus edificadores as tinham colocado sobre
as alturas; e, todavia, já então ninguém sabia
se esses edificadores eram da nobre raça goda, se da dos
nobres conquistadores árabes.
Mas,
quer filha dos valentes do Norte, quer dos pugnacíssimos
Sarracenos, ela era formosa, na sua singela grandeza, entre as outras
sés das Espanhas.
Aí
sucedeu o que ora ouvireis contar.
II
Aproximava-se
o meado do duodécimo século. O príncipe de
Portugal Afonso Henriques, depois de uma revolução
feliz, tinha arrancado o poder das mãos de sua mãe.
Se a história se contenta com o triste espetáculo
de um filho condenando ao exílio aquela que o gerou,
a tradição carrega as tintas do quadro, pintando-nos
a desditosa viúva do conde Henrique a arrastar grilhões
no fundo de um calabouço. A história conta-nos
o fato; a tradição os costumes. A história
é verdadeira, a tradição verossímil;
e o verossímil é o que importa ao que busca as lendas
da pátria.
Em
uma das torres do velho alcácer de Coimbra, assentado entre
duas ameias, há horas em que o Sol fugia do horizonte, o
príncipe conversava com Lourenço Viegas, o Espadeiro,
e com ele dispunha meios e apurava traças para guerrear a
mourisma. E lançou casualmente os olhos para o caminho que
guiava ao alcácer e viu o bispo D. Bernardo, que, montado
em sua nédia mula, cavalgava apressado pela encosta
acima.
- Vedes
vós - disse ele ao Espadeiro - o nosso leal D. Bernardo,
que para cá se encaminha? Negócio grave, por certo,
o faz sair a tais desoras da crasta da sua sé. Desçamos
à sala de armas e vejamos o que ele quer.
E desceram.
Grandes
lampadários ardiam já na sala de armas do alcácer
de Coimbra, pendurados de cadelas de ferro chumbadas nos fechos
dos arcos de volta de ferradura que sustentavam os tetos de grossa
cantaria.
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