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O
Homem Casado, de
Edmund White (tradução de Carlos Fontoura; Arx; 406
páginas; 39 reais) Escritor americano do primeiro
time e homossexual militante, Edmund White passou por dois grandes
choques em sua vida pessoal nos últimos anos. O primeiro
ocorreu em 1985, quando soube que era portador do vírus da
Aids. Nove anos depois, ele teve de encarar de perto a morte de
seu companheiro, em decorrência da doença. Em O
Homem Casado,White procura expiar esses momentos difíceis.
Com fortes cores autobiográficas, o romance aborda a relação
entre um intelectual americano de meia-idade residente em Paris
(alter ego do próprio escritor) e um jovem arquiteto casado
(que representa seu companheiro morto). É uma história
pungente e que contém uma bela lição
de vida.
Leia
trechos do livro
Austin
era vinte anos mais velho do que todos os outros da academia de
ginástica - e o único norte-americano. Aquele era
um lugar de gente séria que desejava uma rápida atividade
física - estudantes da unidade mais próxima do complexo
da Universidade de Paris ou jovens executivos e solitários
que se arrastavam para lá e para cá com fones de walkman
enfiados nos ouvidos, fazendo um ruído confuso e irritante.
Não havia muitos franceses querendo desenvolver músculos
enormes, pelo menos não muito caras heterossexuais.
Não
era, de forma alguma, uma academia gay. Era simplesmente uma pequena
sala de ginástica de onde se podia olhar, através
de vidraças sujas, uma piscina pública na parte de
baixo. A piscina era olímpica e mesmo através do vidro
ainda cheirava a cloro quente. Ela fora construída durante
a Belle Époque e recentemente restaurada. Austin imaginava
que talvez pudesse haver mais movimento na piscina e nos vestiários,
mas não gostava de nadar e tinha deixado a paquera um pouco
de lado. Já não era mais tão jovem, e o que
tinha a oferecer - seu sotaque, seu apartamento charmoso, embora
necessitado de reformas, sua profissão interessante, sua
bondade - não era visível em um chuveiro.
Já
fazia algum tempo que Austin vinha olhando, ocasionalmente, para
um novo freqüentador em especial. Eles já haviam trocado
dois sorrisos e muitos olhares, pequenos e brilhantes clarões
de curiosidade naquele lugar hostil em que olhares jamais se prolongavam,
e mesmo aqueles caras que ajudavam a levantar pesos perigosamente
nunca se aproveitaram da ocasião para puxar conversa.
O
homem mais jovem se debatia sob uma barra carregada com um peso
excessivo e nem havia fixado as placas de metal - estavam prestes
a deixar tudo desabar. Austin correu por detrás dele, levantou
a barra e colocou-a em segurança no suporte existente na
cabeceira da prancha sobre a qual o estranho estava deitado de costas.
Nenhum dos outros homens parecia ter percebido o perigo iminente;
Austin podia ouvir o walkman do cara ao lado cantando como cigarras
dentro de uma lata.
-
Muito obrigado! - exclamou o jovem, em francês, enquanto se
levantava. Falou com uma voz profunda e ressonante, o tipo de voz
masculina que tantos latinos cultivavam. Examinou Austin minuciosamente,
deixando-o lisonjeado pela atenção. Ele já
havia admitido para si que era o tipo de homem que necessitava de
constantes transfusões de interesse e afeto. Se seu telefone
não tocasse por um dia ou não tivesse um jantar engatilhado,
ele já pensaria em suicídio ao cair do dia. Se seu
acompanhante bocejasse, ele estaria pronto para fugir do restaurante
ou sapatear sobre a mesa. E ali estava aquele jovem que, se não
era exatamente o tipo de Austin, havia se tornado ao demonstrar
interesse por ele.
-
Percebi que você talvez desconheça...
-
Isso tudo é completamente novo para mim - exclamou o jovem.
Austin notou que seu short branco era bem cavado, o que somente
servia para realçar a força de suas pernas não
de uma forma sexual, mas um tanto pueril.
-
Você é inglês? - ele perguntou.
Austin
já esperava que os franceses comentassem seu sotaque. Não
era apenas um assunto que dominavam; ele sabia que qualquer um na
França com menos de quarenta anos desejava viver em algum
lugar do mundo onde se falasse inglês, pelo menos por um ou
dois anos.
- Americano.
- Ele antecipou-se à próxima pergunta e disse: - Nova
York. - À próxima também, e acrescentou: -
Embora lá esteja aqui há oito anos.
Finalmente,
mencionou: - Como você pode perceber, é difícil
aprender outra língua depois dos quarenta. - Ele não
estava puxando conversa, só queria botar um ponto final na
questão de sua idade. - É a primeira vez que você
vem aqui? - perguntou.
Sim.
Minha mulher vem aqui para nadar. Ela está lá embaixo,
em algum lugar. - Ele apontou em direção à
piscina com um gesto vago, embora seu olhar permanecesse fixo em
Austin.
O jovem
pediu que Austin o ajudasse a treinar da forma correta, mas, embora
observasse educadamente a demonstração, mal a levou
a sério, como poderiam sugerir seus olhos vívidos
e um ligeiro sorriso. Ele parecia muito interessado na ocasião
para prestar qualquer atenção ao exercício.
Quando
o jovem lhe perguntou, Austin disse que era um jornalista
cultural" que estava escrevendo um livro sobre o mobiliário
francês do século XVIII.
Por
acaso, o francês estava no pequeno vestiário arrumando-se
para ir embora ao mesmo tempo que Austin. Decoroso, ele voltou-se
para o outro lado para colocar sua cueca estilo sunga, revelando
nada além das já esperadas nádegas peludas,
cheias, deliciosas até. Normalmente Austin ficava alerta
até mesmo para a mais suja possibilidade sexual. Era isso
que ele sempre procurava, mas naquele momento já havia percebido
um indício de romance, como se aquele cara pudesse ser cortejado,
mas não agarrado. Mantiveram uma conversa banal que, se entreouvida,
teria soado forcada, pueril, mas ela era entremeada e, de alguma
forma, liqüefeita pelo fluxo de seus sorrisos, olhares e gestos
trocados.
Ao
chegarem à rua, o francês disse que tinha de correr
de volta para o trabalho. Ele era arquiteto, trabalhava do outro
lado de Paris.
- Eu
adoraria vê-lo de novo - disse Austin, sabendo que não
tinha nada a perder exceto sua dignidade, com a qual ele pouco se
importava.
- Eu
também.
- Aqui
está o número do meu telefone.
- Ah,
vocês americanos são sempre tão bem organizados
com seus cartões de visita. Se você me der outro, eu
posso escrever meu número para você.
- O
número de sua casa? - perguntou Austin, aproveitando a deixa.
- O
número do trabalho - o cara disse, com um enorme sorriso.
Austin
surpreendeu-se com o ligeiro endurecimento do próprio pênis.
Havia semanas que ele estava praticamente impotente, mesmo nas mãos
de peritos, e ali estava, excitado pela simples presença
de um estranho e a sugestão de um encontro. Foi bom que ambos
estivessem usando paletó e gravata num dia estranhamente
quente do início de abril e do outro lado do Boulevard Saint
Germain.
- Como
é mesmo seu nome?
- Julien.
-Verdade?
- disse Austin. - É o nome do cara que acabou de me abandonar.
Julien
sorriu, mas não por seu infortúnio, imaginou Austin,
e sim pela franqueza do comentário. Às vezes é
bom ser americano, pensou Austin; temos urna reputação
de sermos descarados que deve ser preservada.
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