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Temporada de Caça às Letras, de Myla Goldberg (tradução de Cid Knipel; Globo; 362 páginas; 35 reais) – Todos os anos, os concursos de soletração de palavras mobilizam as escolas americanas, que enviam seus melhores alunos a uma acirrada disputa nacional. Esse evento curioso é o mote do romance de estréia da nova-iorquina Myla Goldberg. Ela conta a história de Eliza, garota de 11 anos que é menosprezada pelos pais por causa de suas notas medíocres. Tudo muda, porém, quando Eliza se destaca no concurso de soletração de sua escola. A menina cai nas graças do pai, um estudioso do judaísmo que antes só tinha olhos para o filho mais velho. E também chama a atenção da mãe, uma advogada ambiciosa do tipo que não tem tempo para a prole. A partir dessa trama, a autora faz uma crítica bem-humorada ao modo de vida americano.

Leia trechos do livro

Às onze da manhã em ponto, cada professor de cada sala de aula na Escola Elementar McKinley pede a seus alunos que se levantem. O entusiasmo do rapapé coletivo de cadeiras que se segue fica em algum ponto entre a reunião escolar obrigatória e a inspeção de piolhos nas cabeças. É este o caso específico da quarta e quinta séries combinadas da srta. Bergermeyer, que é onde todo mundo sabe que são colocados os quintanistas medíocres. Eliza Naumann certamente tem ciência disso. Desde que foi considerada, três anos antes, como aluna de quem não se deveria esperar grande coisa, ela se acostumou aos cartazes desbotados pelo sol que mostram cãezinhos e gatinhos pendurados em cordas e tentando escalar escadas, usando chapéus que são grandes demais para eles, trazendo legendas embaixo onde se lêem “Segura aí”, “Se a princípio você não tiver sucesso...” e “Sempre há tempo para crescer”. Estes animaizinhos, que decoraram as paredes de cada uma de suas salas de aula desde a terceira série, durante anos a fio observaram alunos de nota C que nunca são escolhidos para Aluno da Semana, ganhadores do sexto lugar que nunca recebem uma fita e meninas baixinhas de pés voltados para dentro que nunca são perseguidas pelos meninos no recreio. Quando Eliza se levanta com o restante de sua classe, ela já se preparou para a inevitável descida de volta para sua cadeira. Ela não tem nenhum motivo para esperar que o resultado deste seu primeiro concurso de soletração seja diferente do resultado de qualquer outro evento escolar aparentemente projetado para confirmar, exibir ou ampliar sua mediocridade.

A voz da srta. Bergermeyer, ao apresentar palavras para serem soletradas, condiz com a textura encharcada das paredes de blocos da sala de aula. Eliza acha que é capaz de meter o dedo nas paredes e se surpreende ao descobrir que não consegue. Certamente ela consegue penetrar e sair do outro lado da voz da professora, acha isso preferível a ser engolfada por suas cadências encharcadas, a voz de uma mulher de meia-idade que se resignou a listas de chamada cheias de futuros vendedores de seguros, representantes da Amway e donas-de-casa insatisfeitas do país.

Eliza só escuta pela metade enquanto a srta. Bergermeyer percorre seu caminho pelas fileiras de carteiras. Em salas de aula mais inteligentes, os encostos das cadeiras não têm chicletes petrificados. Os tampos lisos das carteiras não estão danificados por lápis, pontas de compasso e lâminas de tesouras. Eliza desconfia que as carteiras e cadeiras desfiguradas da escola são descartadas para salas de aula como a sua ao fim de cada trimestre; parece lembrar-se vagamente de carteiras intactas que desaparecem de suas salas de aula durante os recessos da primavera e inverno para serem substituídas por suas primas mais velhas e mais feias.

A srta. Bergermeyer está dez carteiras de distância. Melanie Turpin, que tem um irmão ou irmã em cada uma das séries do curso primário, senta-se após soletrar' TOMARROW que até Eliza sabe que é grafado com um O no meio. Eliza também sabe que PERSONEL precisa de um segundo N. E de repente a competição se torna mais interessante. Porque Eliza está soletrando corretamente todas as palavras. De modo que quando a srta. Bergermeyer dá a ela a palavra RASPBERRY, Eliza se põe um pouco mais empertigada, orgulhosamente incluindo o P antes de passar para o B-E-R-R-Y. No momento em que Bergermeyer percorreu a sala até o fim da primeira rodada, Eliza é uma das poucas que continuam em pé.

Três anos antes do primeiro confronto de Eliza com a soletração competitiva, ela está na segunda série na classe da srta. Lodowski, uma sala que não tem cartazes de bichinhos. O universo da escola de Eliza é um todo indistinto. O trigo precisa ser separado do joio e receber carteiras mais agradáveis. Há apenas um currículo, um tipo de aluno, uma folha de exercício de caligrafia ocupando cada carteira na classe de Eliza. Embora alguns alunos terminem mais depressa do que outros, Eliza não nota isso, não conseguiria responder, se indagada, em que parte da seqüência ela está até a conclusão do exercício.

Eliza está encontrando dificuldades num Q maiúsculo cursivo, que não se parece nada com um Q. Ela também é distraída pelo fato de que durante toda a manhã pessoas eram chamadas para fora da sala de aula e de que isso não parece ser para uma coisa ruim. Em primeiro lugar, a lista é alfabética. Jared Montgomery acaba de ser chamado, o que significa que se o nome de Eliza vai ser chamado, tem de ser logo. O dia se tornou um jogo de passa-anel que não acaba mais, no qual ela tem apenas uma chance de ser escolhida. Ela sente que é muito importante que isso aconteça, teve esta certeza no estômago desde que a srta. Lodowski começou no K. Eliza se tranqüiliza de que tão logo ela seja chamada, seu estômago irá parar de virar, ela irá parar de suar e o Q maiúsculo cursivo começará a parecer uma letra, em lugar de parecer o número 2.

A srta. Lodowski sabe que a segunda série é um período muito especial. Sob seu olhar aguçado, os pequenos torrões de argila que são os seus alunos são premidos no primeiro molde de suas jovens vidas. Egressa da pós-graduação em letras clássicas, a srta. Lodowski está vibrando por sua carreira de ensino a ter lançado no papel das Parcas. Embora ela não pudesse saber disso na época, suas abreviadas pesquisas clássicas a equiparam para a vocação de sua vida como supervisora do programa TAG (Talented and Gifted) de classificação de crianças talentosas e bem-dotadas da Escola Elementar McKinley.

A casa da srta. Lodowski, dividida com um canário chamado Minerva, está cheia de álbuns de fotos nos quais ela acompanha o progresso de seus alunos TAG ao longo das glórias do colegial e até a universidade. Dentro de poucos anos, os primeiros de seus ex-pupilos cumprirão destinos moldados por sua mão orientadora. A srta. Lodowski se orgulha de seus poderes de discernimento. Ela considera a participação nas aulas, trabalho de casa e desempenho nas provas, além da personalidade geral e comportamento, ao separar os alunos superiores dos meramente satisfatórios. Na noite anterior ao grande dia, ela percorre a lista de chamada de sua classe com um lápis vermelho. A cada nome que circula, sua voz sussurra com júbilo pueril: “Você é TAG”.


 
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