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Hawthorne: pai desajeitado | |
Vinte
Dias com Julian & Coelhinho, por Papai, de Nathaniel Hawthorne (tradução
de Sonia Coutinho; José Olympio; 126 páginas; 25 reais) Um
dos grandes nomes da literatura americana, Hawthorne (1804-1864) é conhecido
principalmente pelo seu retrato crítico da mentalidade puritana no romance
A Letra Escarlate. Vinte Dias... é um texto de menor alcance,
mas muito saboroso. Trata-se de uma espécie de diário, no qual o
autor narra um período de dois meses em que sua mulher viajou, deixando-o
sozinho em casa com uma cozinheira, o filho de 5 anos, Julian, e o coelho de estimação
do menino. A convivência entre o pai desajeitado e o menino gera momentos
impagáveis. O escritor Paul Auster, autor da introdução do
livro, nota que essa é uma obra de fino humor escrita por um autor
melancólico. Leia
trecho Às
quatro horas, vesti Julian; e partimos para a vila; ele saltando e abriolando
como um bodezinho, e colhendo flores como se estivesse no paraíso. As flores
não tinham a mínima beleza, a não ser a que os seus olhos
criavam ao olhá-las; não obstante, ele as considerava as mais lindas
do mundo. Encontramos uma carruagem com três ou quatro moças, ficando
todas evidentemente afetadas por seus poderosos encantos. Na verdade, ele raramente
passa por alguém que use saias sem conquistar seu coração.
(...) Por
volta das seis horas, olhei por cima da beira da minha cama e vi que Julian estava
acordado e me observava de viés, tendo nos olhos uma risada contida. Então,
levantamo-nos e, primeiro, dei-lhe banho, depois tomei o meu, propondo em seguida
cachear seu cabelo. Esqueci-me de dizer que tentei a mesma coisa na manhã
anterior à última, e o resultado foi miraculosamente ruim; na verdade,
foi um fracasso tamanho que o garoto estourou numa risada, à primeira sugestão
de repetir a tentativa. Mas persisti e enrolei seu cabelo em torno de uma vara,
até quase arrancá-lo da sua cabeça, ele o tempo inteiro berrando
e rindo, entre a dor e o divertimento. Esforçou-se para me explicar como
procedia sua mãe; mas suas instruções não eram muito
claras e só fizeram emaranhar ainda mais o negócio. Mas, agora que
seu cabelo está seco, o aspecto não é tão ruim como
seria de se esperar. [páginas
62 e 63] Ele
continua a me atormentar com suas inquisições. Por exemplo, agora
mesmo, enquanto está entalhando madeira com meu canivete: "Papai, se você
tivesse comprado todos os canivetes da loja, o que faria para conseguir outro,
quando quebrasse todos?" "Procuraria em outro lugar", eu disse. Mas isso não
o detém absolutamente. "Se você tivesse comprado todos os canivetes
do mundo, o que faria?" E, aqui, minha paciência acaba e lhe suplico para
não me perturbar com mais nenhuma pergunta tola. [páginas
83 e 84] Desejaria
poder registrar todos os seus aforismos, mas não creio que valha a pena
escrevê-los, pois até agora esqueci-os, de forma que não podem
ser lembrados em sua integridade. Hoje, depois de derrubar muitos cardos, ele
comentou: "O mundo inteiro é uma grande chateação!" Ele sente
que não o considero muito sábio; e esta tarde perguntou: "Papai,
você acha que não sei nada?" "Acho", eu disse. "Mas eu sabia como
fechar a porta do boudoir, quando você não sabia", rejubilou-se.
Fico muito satisfeito de ele ter esse único exemplo de
sagacidade prática (embora, afinal, fosse meramente um acerto casual) para
se consolar. Não obstante, acho realmente que ele tem em si a matéria-prima
para fazer sabedoria, no devido tempo; e Deus permita que não venha cedo
demais. [105] |