A
Cortina, de Milan Kundera (tradução de Teresa Bulhões
Carvalho da Fonseca; Companhia das Letras; 160 páginas; 36,50 reais)
Autor de A Insustentável Leveza do Ser, o checo Milan Kundera consagrou-se
como um dos grandes nomes do romance contemporâneo. A Cortina é
uma reflexão sobre o seu ofício. De autores clássicos como
Miguel de Cervantes e François Rabelais a contemporâneos como Carlos
Fuentes e Gabriel García Márquez, Kundera examina a arte do romance
e o que ela ensina ao leitor sobre o mundo. Exilado da Checoslováquia durante
o regime comunista, ele dedica alguns dos melhores momentos do ensaio a analisar
como a obra de autores como Franz Kafka retratou a opressão da burocracia.Leia
trecho CONSCIÊNCIA
DA CONTINUIDADE Contavam
uma anedota sobre meu pai, que era músico. Estava ele em algum lugar na
companhia de amigos quando, vindo de um rádio ou de um aparelho de som,
ressoaram os acordes de uma sinfonia. Os amigos, todos músicos ou melômanos,
reconheceram imediatamente a Nona de Beethoven. Perguntaram a meu pai:
"Que música é essa?". E ele, depois de longa reflexão:
"Parece Beethoven". Todo mundo segurou o riso: meu pai não reconhecer
a Nona sinfonia! "Tem certeza?" "Tenho", disse meu
pai, "é Beethoven, do seu último período." "Como
é que você pode saber que é do último período?"
Então meu pai chamou-lhes a atenção para certa ligação
harmônica que Beethoven mais jovem nunca poderia ter utilizado. A
anedota certamente não passa de uma invenção maliciosa, mas
ilustra o que é a consciência da continuidade histórica, um
dos sinais pelos quais se distingue o homem pertencente à civilização
que é (ou era) a nossa. Tudo assumia, aos nossos olhos, a importância
de uma história, aparecia como uma seqüência mais ou menos lógica
de acontecimentos, de atitudes, de obras. Na época da minha primeira juventude,
eu conhecia, de modo inteiramente natural, sem forçar, a cronologia exata
das obras de meus autores prediletos. Impossível pensar que Apollinaire
tivesse escrito Álcoois depois de Caligramas, pois, se esse
fosse o caso, seria outro poeta, sua obra teria outro sentido! Gosto de cada quadro
de Picasso por si mesmo, mas também de toda a obra de Picasso vista como
um longo caminho cuja sucessão de etapas conheço de cor. As famosas
questões metafísicas - de onde viemos? para onde vamos? - têm,
na arte, um sentido concreto e claro, e não são absolutamente sem
resposta. HISTÓRIA
E VALOR Imaginemos
um compositor contemporâneo que tenha escrito uma sonata que, por sua forma,
suas harmonias, suas melodias, se parecesse com as de Beethoven. Imaginemos mesmo
que essa sonata tenha sido composta de modo tão magistral que se ela fosse
realmente de Beethoven teria figurado entre suas obras-primas. No entanto, por
mais magnífica que pudesse ser, assinada por um compositor contemporâneo
seria motivo de riso. Na melhor hipótese, o autor seria aplaudido como
um virtuose do pastiche. Como!
Se sentimos um prazer estético diante de uma sonata de Beethoven, por que
não sentimos a mesma coisa diante de outra no mesmo estilo e com o mesmo
encanto quando ela é assinada por um de nossos contemporâneos? Não
é o máximo da hipocrisia? A sensação da beleza, em
vez de ser espontânea, ditada por nossa sensibilidade, é então
cerebral, condicionada ao conhecimento de uma data? Não
há nada a fazer: a consciência histórica é a tal ponto
inerente a nossa percepção da arte que esse anacronismo (uma obra
de Beethoven datada de hoje) seria espontaneamente (isto é, sem
a menor hipocrisia) sentido como ridículo, falso, incongruente, até
monstruoso. Nossa consciência da continuidade é tão forte
que interfere na percepção de cada obra de arte. Jan
Mukarovsky, o fundador da estética estruturalista, escreveu em Praga, em
1932: "Apenas a suposição do valor estético objetivo
dá um sentido à evolução histórica da arte".
Em outras palavras: se o valor estético não existe, a história
da arte não é senão um depósito de obras cuja seqüência
cronológica não guarda nenhum sentido. E inversamente: é
apenas no contexto da evolução histórica de uma arte que
o valor estético é perceptível. Mas
de qual valor estético objetivo se pode falar se cada nação,
cada período histórico, cada grupo social tem seus próprios
gostos? Do ponto de vista sociológico, a história de uma arte não
tem sentido em si mesma, ela faz parte da história de uma sociedade, do
mesmo modo que a história das roupas, dos rituais funerários e matrimoniais,
dos esportes, das festas. É mais ou menos assim que o romance é
tratado no artigo que lhe consagra a Enciclopédia de Diderot e d’Alembert.
O autor desse texto, o cavalheiro de Jaucourt, reconhece no romance uma grande
difusão ("quase todo mundo lê"), uma influência moral
(às vezes útil, às vezes nociva), mas nenhum valor específico
que lhe seja próprio; aliás, ele não menciona nenhum dos
romancistas que admiramos hoje: nem Rabelais, nem Cervantes, nem Quevedo, nem
Grimmelshausen, nem Defoe, nem Swift, nem Smollett, nem Lesage, nem o abade Prévost;
o romance não representa para o cavalheiro de Jaucourt nem uma arte nem
uma história autônomas. Rabelais
e Cervantes. Que o enciclopedista não os tenha mencionado não é
absolutamente chocante; Rabelais pouco se importava em ser ou não romancista,
e Cervantes pensava em escrever um epílogo sarcástico da literatura
fantástica da época precedente; nem um nem outro se consideravam
"fundadores". Só a posteriori, progressivamente, a prática
da arte do romance atribuiu a ambos esse status. E fez essa atribuição
não porque eles foram os primeiros a escrever romances (existiram muitos
outros romancistas antes de Cervantes), mas sim porque suas obras faziam compreender,
melhor que as outras, a razão de ser dessa nova arte épica;
porque representavam para seus sucessores os primeiros grandes valores romanescos;
e foi só a partir desse momento em que se começou a ver no romance
um valor, valor específico, valor estético, que os romances que
os sucederam puderam aparecer como uma história. |