Em
Louvor da Sombra,
de Junichiro Tanizaki (tradução de Leiko Gotoda; Companhia das Letras;
72 páginas; 27 reais) Escrito nos anos 30, esse breve ensaio expõe
os ideais estéticos que moviam Tanizaki (1886-1965), um dos maiores escritores
japoneses do século passado. Pouco se fala de literatura: o texto discorre
sobre culinária, arquitetura, teatro nô. Tanizaki explora a beleza
dos objetos cotidianos da cultura japonesa, cuja qualidade principal seria a sombra,
a sugestão mais do que a exibição. Essa qualidade, argumenta
o autor de As Irmãs Makioka, estaria se perdendo com a modernização
de seu país, com a luz elétrica, que baniu a sombra das casas nipônicas.
Há aqui um certo espírito conservador mas o objetivo de Tanizaki
não é barrar as inovações técnicas, e sim adaptá-las
à penumbra japonesa.
Leia
trecho Hoje
em dia, qualquer indivíduo interessado em construir sua própria
casa no mais puro estilo arquitetônico japonês precisa recorrer a
uma série de estratagemas engenhosos para harmonizar certas instalações
como rede elétrica, de água e de luz com a sobriedade dos aposentos
japoneses, estratagemas que, assim acredito, mesmo aqueles que nunca passaram
pela experiência de construir uma casa são capazes de perceber ao
entrar em estabelecimentos tradicionais como casas de chá, restaurantes
ou hospedarias. Pois por mais que queiram seguir fielmente os costumes japoneses,
tais amantes da arquitetura japonesa - aqui desconsiderados o excêntrico
ermitão ou o austero apreciador da arte do chá que, ignorando conquistas
científicas, preferem erigir singela cabana colmada em localidades remotas
- jamais conseguirão evitar a instalação, em seus lares,
de certas comodidades como aquecimento central, luz elétrica e aparelhos
sanitários, essenciais no cotidiano de suas famílias. Nesta altura,
o purista dará tratos à imaginação para, por exemplo,
tornar menos conspícua a presença de um simples aparelho telefônico,
relegando-o para o fundo de uma caixa de escada ou o canto escuro de um corredor.
E se além disso resolver adotar também outras medidas, como enterrar
a fiação do jardim, ocultar o comutador de luz no interior de armários
ou de compartimentos ao rés-do-chão, ou ainda providenciar para
que fios elétricos aparentes se esgueirem por trás de biombos, correrá
o risco de ver tanta criatividade transformar-se em motivo de contrariedade por
excesso de zelo. No caso das lâmpadas elétricas, por exemplo, a verdade
é que nossos olhos já se habituaram à presença delas
e, a tomar meias medidas inadequadas com o intuito de camuflá-las, creio
ser muito melhor mantê-las nuas, apenas protegidas por convencionais quebra-luzes
de vidro leitoso, pois assim terão aspecto mais simples, natural. Tanto
é verdade que, quando viajo por uma região rural ao entardecer e
avisto pela janela do trem uma dessas lâmpadas providas de antiquado quebra-luz
leitoso a brilhar solitária por trás do shoji de rústicas
casas colmadas, o cenário chega a me parecer poético. Esse porém
não é o caso dos ventiladores que, tanto pelo ruído como
pelo formato, ainda hoje não se harmonizam com aposentos japoneses. Numa
residência, poderiam até ser totalmente banidos caso seu uso não
agrade ao dono, mas num estabelecimento comercial o gosto do proprietário
nem sempre pode prevalecer em detrimento do bem-estar de eventuais hóspedes,
principalmente no verão. O proprietário do restaurante Kairakuen,
meu amigo e também ferrenho defensor do mais puro estilo arquitetônico
japonês, recusou-se durante muito tempo a ter ventiladores em seu estabelecimento,
mas, de tanto ouvir reclamações de clientes todos os anos no período
do verão, acabou cedendo e os instalou afinal. Eu
mesmo passei por experiência semelhante há alguns anos ao construir
minha casa - e gastar mais do que podia -, pois percebi que a meticulosidade excessiva
na escolha de acabamentos e de complementos acarreta dificuldades inesperadas.
Por exemplo, o acabamento dos shoji: por meu gosto, jamais os revestiria
de vidro, mas se me mostrasse rígido demais optando por papel em todas
as circunstâncias, ver-me-ia imediatamente às voltas com problemas
de iluminação e de segurança. Em desespero de causa, optei
por revesti-los de papel internamente e de vidro externamente. Para que esta opção
se tornasse exeqüível, precisei instalar molduras duplas, uma para
o shoji externo e outra para o interno, medida que acarretou considerável
acréscimo de dispêndio e trouxe, ao contrário do que esperava,
resultado decepcionante, já que visto por fora transformou-se em simples
painel envidraçado e, por dentro, o shoji revestido de papel não
proporcionou os esperados aconchego e suavidade por causa da existência,
por trás dele, do outro, acabado em vidro. Nessa altura, e só então,
concluí arrependido que se era para obter tão pífio resultado
eu devia ter optado por revesti-los unicamente de vidro desde o início,
conclusão capaz de provocar o riso do espectador descomprometido, mas a
que eu mesmo só cheguei depois de lançar mão de todos os
expedientes imagináveis para manter os shoji revestidos de papel.
A iluminação também constituiu-se em outro problema: modernamente,
existem à venda diversos tipos de luminária elétrica que
se harmonizam com o ambiente japonês, desde modelos que imitam abajures
e lanternas de papel medievais até os que pendem do teto em forma de globos
achatados ou de candelabros, mas como nenhum me agradou, procurei em lojas especializadas
autênticos exemplares de antigos abajures de cabeceira e de lamparinas alimentadas
por querosene e a eles adaptei bulbos elétricos. Especialmente
problemática mostrou-se a esquematização do sistema de aquecimento.
Nenhuma estufa que se preze tem formato adaptável a um zashiki japonês.
A alimentada a gás, por exemplo, além do inconveniente de rugir
quando acesa, precisa ser complementada com chaminé, sem a qual quase certamente
provocará enxaqueca nos usuários. Nesse aspecto, o ideal é
a estufa elétrica, mas o problema da forma que não se coaduna com
ambientes japoneses persiste. Compartimentar ao rés-do-chão um aquecedor
elétrico do tipo usado em vagões de trem seria uma boa saída,
mas a ausência de uma chama queimando rubra em noites frias me privaria
do prazer de apreciar devidamente tanto o inverno quanto a reunião familiar
em volta do fogo. Depois de muito dar tratos à imaginação,
mandei cavar no piso da sala de estar um grande braseiro semelhante aos existentes
em casas rurais e dentro dele instalei brasas elétricas, esquema que se
mostrou eficaz para aquecer o ambiente e também para ferver uma água,
e que, exceto pelo alto custo, considerei uma adaptação estilosa
de um sistema ocidental. O
aquecimento a funcionar satisfatoriamente, tive em seguida de enfrentar o problema
do banho e do sanitário. O proprietário do Kairakuen, o amigo já
mencionado, não gostou da idéia de azulejar a sala de banho e a
banheira, e optou por revestir de genuína madeira as instalações
destinadas a hóspedes, mas, nem é preciso dizer, o azulejo é
muito mais adequado do ponto de vista higiênico como também mais
econômico. O único problema é que, quando se usa madeira japonesa
de boa qualidade em pilares, forro e lambris, a área revestida de chamativos
e brilhantes azulejos passa a destoar do conjunto. A princípio, o contraste
nem é tão notável, mas com o passar dos anos e o envelhecimento
da madeira, pilares e lambris escurecem evidenciando a beleza dos veios, momento
em que a brancura ofuscante do azulejo destoa como sol no meio da noite. Seja
como for, na sala de banho a praticidade pode até ser sacrificada em nome
do bom gosto, mas no banheiro os problemas tornam-se mais complexos. Sempre
que, em templos de Kyoto ou Nara, sou conduzido a uma escura e antiquada latrina
impecavelmente limpa, sinto renovar-se em mim a admiração pela arquitetura
japonesa. Zashiki, as salas de estar japonesas, são belas, não
há dúvida, mas na minha opinião as latrinas oferecem paz
de espírito aos usuários. Construída invariavelmente longe
do corpo da casa, à sombra de arbustos e em meio à folhagem e ao
musgo de verde fragrância, a ela se chega transpondo corredores, quando
então, acocorado em meio à baça claridade refletida pelo
shoji, considero simplesmente indescritível a sensação
de contemplar o jardim pela janela e me perder em pensamentos. Segundo dizem,
o escritor Soseki Natsume contava as idas matinais ao banheiro entre os prazeres
de sua vida, e delas auferia êxtase fisiológico. E para experimentar
tal êxtase não há em minha opinião lugar mais adequado
que uma latrina em estilo japonês, onde, cercado por sóbrias paredes
de madeira de requintado veio, pode-se contemplar tanto o céu azul como
o verdejante frescor das plantas. Além disso, volto a dizer, é imprescindível
que o ambiente seja sombrio e absolutamente limpo, e esteja imerso em silêncio
tão profundo que torne audível até o fino zumbido de um pernilongo.
Gosto de ouvir a chuva caindo mansamente enquanto estou em latrinas semelhantes.
Sobretudo as da região de Kanto, providas de longas e estreitas aberturas
similares a janelas ao rés-do-chão, possibilitam ouvir bem de perto
o suave murmúrio da chuva que, gotejando de um beiral ou de folhas, lava
a base da lanterna de pedra, umedece o musgo crescido em bordas de lajotas e quietamente
desaparece terra adentro. Com efeito, são lugares propícios para
se ouvir o cricrilar de grilos e o gorjeio de pássaros, propícios
também para apreciar o luar: neles se sente com penetrante intensidade
a passagem das estações e a transitoriedade das coisas terrenas,
neles provavelmente poetas de antanho vislumbraram temas para seus haicais. Assim,
não considero de todo impossível afirmar que a latrina é
a dependência de maior valorização estética da arquitetura
japonesa. Com sua ímpar capacidade de tudo transformar em poema, nossos
antepassados acabaram por converter em ponto de extremo bom gosto o mais insalubre
aposento da casa, unindo-o a manifestações de incomparável
formosura da natureza - flores, pássaros, brisa ou luar - e a uma cadeia
de concepções poéticas repletas de nostalgia. Comparada à
atitude ocidental de ver a latrina como algo deletério, impróprio
até para ser citado em público, a nossa é mais sábia,
compreendeu o substrato do requinte. E se algum defeito tem de existir, o único
a meu ver é o da localização: situada em ponto distante do
corpo da casa, seu uso no meio da noite pode ser desconfortável, principalmente
no rigor do inverno, quando se arrisca a pegar um resfriado. Ainda assim considero
preferível que a temperatura de tais instalações seja a mesma
da do ambiente externo, citando como justificativa o escritor Ryoku Saito, segundo
o qual "o frio estimula a estesia". O ar morno da calefação
que bafeja o interior de banheiros em hotéis, por exemplo, é para
mim extremamente desagradável. É portanto quase certo que nosso
conceito de latrina seja considerado ideal por todo amante da pura arquitetura
japonesa, mas não é fácil manter a limpeza desse tipo de
instalação no padrão impecável dos que existem em
instituições como o templo, onde a área construída
é bem maior que o número de usuários e onde há também
um eficiente pessoal de manutenção. Numa casa, a observância
estrita de boas maneiras e de regras de limpeza não impedirá a sujeira
de aparecer eventualmente, em particular se o piso da latrina for de madeira ou
de tatame. E assim, acabo concluindo que um banheiro ocidental azulejado e com
vaso sanitário ligado à rede de água e esgoto é mais
higiênico e fácil de manter e, em troca, digo adeus à estesia
e à apreciação da natureza. Claro, pois com quatro paredes
de puro branco e tanta claridade concentrada, será difícil experimentar
a sensação de "êxtase fisiológico" mencionada
por Soseki. Realmente, ninguém há de discutir higiene num ambiente
de imaculada brancura que expõe cada canto ou fresta, mas qual a necessidade
de se visualizar com tanta clareza o local destinado ao que expelimos do nosso
organismo? Se nem à beldade de alva pele acetinada perdoamos a grosseria
de exibir seu traseiro ou pés desnudos, a excessiva iluminação
que desvenda e exibe todo detalhe é ofensa ímpar, sem falar que
a limpeza do que vemos nos leva a pensar naquilo que não vemos. Eis por
que continuo achando que lugares como banheiros devem ser envoltos numa suave
penumbra que torne vaga e imprecisa a linha entre o higiênico e o não
higiênico. E assim, acabei instalando louça sanitária interligada
à rede de água e esgoto no banheiro de minha casa, mas preferi assoalhar
o piso com tábuas de canforeira para obter um ar bem japonês e excluí
por completo os azulejos. Àquela altura, porém, problema maior foi
escolher o aparelho sanitário. Como todos sabem, os disponíveis
no mercado são todos imaculadamente brancos e têm detalhes metálicos
brilhantes. Por meu gosto, optaria por vasos de madeira, um exclusivamente masculino
e outro feminino. A madeira encerada seria ainda melhor, mas mesmo sem nenhum
acabamento esse tipo de material adquire tonalidade escurecida com o passar do
tempo, e o atraente desenho dos veios proporciona curioso efeito relaxante. Sobretudo
atraente é, para mim, o mictório forrado todas as manhãs
com ramos de cedro recendentes que, além de agradáveis à
vista, têm a vantagem de tornar a micção silenciosa. A manutenção
desse tipo de luxo, porém, está acima de minhas posses, de modo
que pensei em me contentar mandando fazer um vaso do meu gosto, ao qual adaptaria
o sistema de descarga convencional, mas até disso fui obrigado a abrir
mão por causa da dificuldade e do alto custo que representaria a execução
dessa peça única. E foi nessa altura que me dei conta: luminárias,
aquecedores e aparelhos sanitários são modernidades a cuja adoção
não me oponho; mas como foi que nós, os japoneses, não nos
empenhamos em aperfeiçoá-los para melhor conformá-los a nossos
hábitos, gostos e modo de vida? |