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Juventude, de J.M. Coetzee (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 192 páginas; 35 reais) – Nesse romance autobiográfico, o sul-africano Coetzee, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, narra a sua formação como escritor. O personagem central, John (como o autor: J.M. é abreviação de John Maxwell), deixa a conturbada África do Sul, nos anos 60, para tentar a vida como poeta em Londres – mas só o que consegue é um emprego de programador de computadores. Diferentemente das autobiografias tradicionais, a narrativa de Juventude é em terceira pessoa, como se o autor quisesse guardar distância de si mesmo. Coetzee sabe o que faz: seu estilo seco só confere mais contundência aos dilemas de seu alter ego.

Leia trecho

Capítulo 1

Ele mora num apartamento de um cômodo perto da estação ferroviária de Mowbray, e paga onze guinéus de aluguel por mês. No último dia útil de cada mês, pega o trem para a cidade, até a Loop Street, onde A. & B. Levy, agentes imobiliários, mantêm uma placa dourada e um minúsculo escritório. Nas mãos de mr. B. Levy, o mais novo dos irmãos Levy, entrega o envelope com o aluguel. Mr. Levy despeja o dinheiro na mesa atulhada e conta. Grunhindo e suando, preenche um recibo: "Voilà, meu jovem!", diz, e entrega o papel com um floreio.

Ele se empenha para não atrasar o aluguel porque está no apartamento sob falsa qualificação. Quando assinou o contrato e pagou o depósito para A. & B. Levy, não declarou sua ocupação como "estudante", mas como "bibliotecário assistente", e deu a biblioteca da universidade como endereço de trabalho.

Não é totalmente mentira. De segunda a sexta-feira sua função é ocupar a sala de leitura durante o horário noturno. É um trabalho que as bibliotecárias, quase todas mulheres, preferem não fazer, porque o campus, na encosta da montanha, é muito isolado e solitário à noite. Até ele sente um frio na espinha cada vez que destranca a porta e vai tateando pelo corredor escuro feito breu até o interruptor central. Seria fácil para qualquer malfeitor esconder-se entre as estantes quando os funcionários saem às cinco horas, para depois pilhar os escritórios vazios e ficar de tocaia no escuro à espera dele, o assistente da noite, para pegar suas chaves.

Poucos estudantes fazem uso do horário noturno; poucos sequer sabem desse horário. Tem pouco a fazer. Os dez xelins que recebe por noite são dinheiro fácil.

Às vezes, imagina que uma linda garota de vestido branco entra na sala de leitura e ali fica, distraída, depois da hora de fechar; imagina-se mostrando a ela os mistérios da oficina de encadernação e da sala de catalogação, saindo com ela em seguida para a noite estrelada. Isso nunca acontece.

Trabalhar na biblioteca não é seu único emprego. Nas tardes de quarta-feira, faz monitoria para o primeiro ano do Departamento de Matemática (três libras por semana); às sextas conduz os estudantes de graduação de dramaturgia por uma seleção de comédias de Shakespeare (duas libras e dez), e nos fins de tarde está empregado num cursinho em Rondebosch para preparar pretendentes aos exames de admissão (três xelins por hora). Durante as férias, trabalha para a Municipalidade (Divisão de Moradia Pública) extraindo dados estatísticos de pesquisas domésticas. No final das contas, quando soma as quantias, está ganhando bem — bem o suficiente para pagar o aluguel e as mensalidades da universidade, manter corpo e alma funcionando, e até economizar um pouco. Pode ter só dezenove anos, mas está em pé sobre as próprias pernas, não depende de ninguém.

As necessidades do corpo ele trata como questão de mero senso comum. Todo domingo, cozinha ossos de tutano, feijões e salsão para preparar uma panela grande de sopa, suficiente para a semana. Às sextas-feiras, faz uma visita ao mercado Salt River para comprar uma caixa de maçãs, de goiabas ou da fruta da estação. Toda manhã, o leiteiro deixa meio litro de leite na soleira da porta. Quando sobra leite, ele pendura em cima da pia, dentro de uma meia de náilon velha, para fazer queijo. O que falta, compra na loja da esquina. É uma dieta que Rousseau aprovaria, ou Platão. Quanto a roupas, tem uma calça e um paletó bons para usar nas aulas. No mais, faz as roupas velhas durarem.

Está querendo provar uma coisa: que todo homem é uma ilha; que ninguém precisa dos pais.

Algumas noites, subindo a Main Road de capa de chuva, bermuda e sandálias, o cabelo grudado de chuva, brilhando ao farol dos carros que passam, tem uma sensação do quanto parece estranho. Não excêntrico (existe certa distinção em parecer excêntrico), apenas estranho. Range os dentes, incomodado, e anda mais depressa.

É magro, tem membros ágeis, mas ao mesmo tempo é mole. Gostaria de ser atraente, mas sabe que não é. Falta-lhe alguma coisa essencial, uma definição de traços. Algo do bebê ainda permanece nele. Quanto falta para deixar de ser bebê? O que vai curá-lo da bebezice, transformá-lo em homem?

O que vai curá-lo, se for para acontecer, será o amor. Pode não acreditar em Deus, mas acredita no amor e no poder do amor. A amada, a predestinada, de imediato enxergará, através do exterior estranho, até sem graça, que ele apresenta, aquele fogo que queima dentro dele. Enquanto isso, a falta de graça e a estranheza fazem parte do purgatório que tem de atravessar para emergir, um dia, para a luz: a luz do amor, a luz da arte. Pois será um artista, isso está decidido há tempos. Se no momento tem de ser obscuro e ridículo, é porque faz parte do destino do artista sofrer a obscuridade e o ridículo até o dia em que se revela em seu verdadeiro poder e os zombadores e os gozadores se calam.

As sandálias que usa custam dois xelins e seis pence. São de borracha, feitas em algum lugar da África, Malauí talvez. Quando ficam molhadas, não aderem à sola dos pés. No inverno do Cabo, chove semanas seguidas. Ao andar pela Main Road na chuva, ele às vezes tem de voltar para recolher uma sandália que se soltou. Nesses momentos, pode ver os cidadãos da Cidade do Cabo rindo ao passar no conforto de seus carros. Riam!, pensa. Eu logo irei embora!

 

 

Tem um melhor amigo, Paul, que, como ele, estuda matemática. Paul é alto e moreno, está envolvido num caso amoroso com uma mulher mais velha, uma mulher chamada Elinor Laurier, pequena, loira e linda num estilo agitado, de pássaro. Paul reclama do humor imprevisível de Elinor, das exigências que ela faz. Mesmo assim, tem inveja de Paul. Se tivesse uma amante bonita, experiente nas coisas do mundo, que fumasse com piteira e falasse francês, logo estaria transformado, até transfigurado, tem certeza disso.

Elinor e sua irmã gêmea nasceram na Inglaterra; foram trazidas para a África do Sul aos quinze anos, depois da Guerra. A mãe delas, segundo Paul, segundo Elinor, costumava pôr as meninas uma contra a outra, dando amor e aplausos primeiro para uma, depois para outra, confundindo-as, conservando-as dependentes. Elinor, a mais forte das duas, manteve a sanidade, embora ainda chore dormindo e guarde um ursinho de pelúcia na gaveta. A irmã, porém, durante algum tempo ficou louca a ponto de ser internada. Ainda faz terapia, lutando contra o fantasma da velha morta.

Elinor leciona numa escola de línguas da cidade. Desde que se envolveu com ela, Paul foi absorvido por seu grupo, um grupo de artistas e intelectuais que vivem no Gardens, usam suéteres pretos, jeans e sandálias de corda, bebem vinho tinto grosseiro e fumam Gauloises, citam Camus e García Lorca, ouvem jazz progressivo. Um deles toca guitarra espanhola e pode ser convencido a fazer uma imitação de cante hondo. Como não têm empregos regulares, ficam acordados a noite inteira e dormem até meio-dia. Odeiam os Nacionalistas, mas não são políticos. Se tivessem dinheiro, dizem, deixavam a atrasada África do Sul e se mudavam definitivamente para Montmartre ou para as Ilhas Baleares.

Paul e Elinor o levam a uma de suas reuniões, realizada num bangalô da praia Clifton. A irmã de Elinor, a instável de quem apenas ouviu falar, faz parte do grupo. Segundo Paul, está tendo um caso com o dono do bangalô, um homem de cara vermelha que escreve para o Cape Times.

O nome da irmã é Jacqueline. É mais alta que Elinor, não tem a mesma finura de traços, mas é bonita mesmo assim. Cheia de energia nervosa, fuma um cigarro atrás do outro, gesticula quando fala. Ele se dá bem com ela. É menos cáustica do que Elinor, o que é um alívio. Pessoas cáusticas o deixam aflito. Ele desconfia que fazem comentários a seu respeito quando vira as costas.

Jacqueline sugere um passeio pela praia. De mãos dadas (como aconteceu isso?) ao luar, passeiam por toda a extensão da praia. Num espaço escondido entre as rochas, ela se volta para ele, projeta os lábios, oferece a boca.

Ele corresponde, mas inquieto. Até onde isso vai? Nunca antes fez amor com uma mulher mais velha. E se não estiver à altura?

Descobre que isso vai até o fim. Acompanha, sem resistir, faz o que pode, realiza o ato, até finge ficar arrebatado no final.

Na verdade, não se arrebata. Não só existe a questão da areia, que entra em tudo, também existe a insistente questão do motivo por que essa mulher, a quem nunca viu antes, está se entregando a ele. Dá para acreditar que no curso de uma conversa casual ela tenha detectado a chama secreta que arde dentro dele, a chama que o marca como artista? Ou será que é simplesmente uma ninfomaníaca, e era disso que Paul, com delicadeza, o alertara ao dizer que ela "fazia terapia"?

No sexo, até que é escolado. Se o homem não goza o ato amoroso, a mulher também não goza — essa, ele sabe, é uma das regras do sexo. Mas o que acontece depois, entre um homem e uma mulher que fracassaram no jogo? Será que têm de se lembrar do fracasso toda vez que se encontram de novo, e sentir vergonha?

É tarde, a noite está ficando fria. Vestem-se em silêncio e voltam para o bangalô, onde a festa começou a acabar. Jacqueline pega a bolsa e os sapatos. "Boa noite", diz ao dono da casa, dando-lhe um beijinho no rosto.

"Vai embora?", ele pergunta.

"Vou, sim. Vou dar uma carona para John", ela responde.

O dono da casa não fica nada incomodado. "Divirtam-se então", diz. "Os dois."

Jacqueline é enfermeira. Ele nunca esteve com uma enfermeira, mas o que ouviu dizer é que, por trabalharem com doentes e moribundos, atendendo a suas necessidades corporais, as enfermeiras ficam cínicas quanto à moralidade. Os estudantes de medicina gostam dos plantões noturnos no hospital. Dizem que as enfermeiras têm fome de sexo. Trepam em qualquer lugar, a qualquer hora.

Jacqueline, porém, não é uma enfermeira comum. É uma enfermeira do Guy’s, ela se apressa a informar, parteira treinada no hospital Guy’s de Londres. No peito do uniforme de ombreiras vermelhas, usa uma pequena insígnia de bronze, um elmo e uma manopla com a divisa PER ARDUA. Não trabalha no Groote Schuur, o hospital público, e sim numa clínica particular, onde ganha mais.

Dois dias depois do encontro na praia Clifton ele vai até a moradia das enfermeiras. Jacqueline está esperando no saguão de entrada, vestida para sair, e saem imediatamente. De uma janela do andar de cima, rostos se debruçam para olhar; ele tem consciência de que as outras enfermeiras estão olhando para ele inquisidoramente. É jovem demais, evidentemente jovem demais para uma mulher de trinta anos; e com suas roupas desbotadas, sem carro, evidentemente tampouco é um bom partido.

Uma semana depois, Jacqueline deixou a moradia das enfermeiras e se mudou para o apartamento dele. Não se lembra de tê-la convidado: simplesmente não resistiu.

Nunca morou com ninguém antes, decerto nunca com uma mulher, uma amante. Mesmo em criança tinha um quarto só seu, com uma porta que trancava. O apartamento de Mowbray consiste apenas num cômodo comprido, com um corredor de entrada que dá para uma cozinha e um banheiro. Como vai sobreviver?

Tenta receber bem a súbita acompanhante, tenta abrir espaço para ela. Mas dias depois já começou a se incomodar com o acúmulo de caixas e malas, com as roupas espalhadas por toda parte, com a bagunça no banheiro. Detesta o ruído da motoneta, que indica a volta de Jacqueline do dia de trabalho. Embora ainda façam amor, há cada vez mais silêncio entre os dois, ele sentado à sua mesa, fingindo-se absorto nos livros, ela vagando pela casa, ignorada, suspirando, fumando um cigarro atrás do outro.

Ela suspira muito. É assim que sua neurose se expressa, se é que é disso que se trata, de neurose: no suspirar e sentir-se exausta, no chorar às vezes sem ruído. A energia, o riso e a ousadia do primeiro encontro murcharam até sumir. A alegria daquela noite, ao que parece, era apenas uma abertura nas nuvens da melancolia, efeito do álcool ou talvez mesmo uma cena que Jacqueline representava.

Dormem juntos numa cama feita para um. Na cama, Jacqueline fala sem parar dos homens que a usaram, dos terapeutas que tentaram dominar sua mente e transformá-la em marionete. Será que ele é um desses homens?, pensa. Será que está usando Jacqueline? E haverá algum outro homem com quem ela reclame dele? Adormece com ela ainda falando, acorda esgotado de manhã.

Jacqueline é, por qualquer padrão, uma mulher atraente, mais atraente, mais sofisticada, mais versada nas coisas do mundo do que ele merece. A verdade é que, não fosse a rivalidade entre as irmãs gêmeas, ela não estaria dormindo em sua cama. Ele é uma peça no jogo das duas, um jogo que vem de muito antes de sua entrada em cena — quanto a isso não tem ilusões. No entanto, ele é que foi favorecido, não deve reclamar da sorte. Ali está, dividindo um apartamento com uma mulher dez anos mais velha, uma mulher experiente que, durante seu estágio no hospital Guy’s, dormiu (diz ela) com ingleses, franceses, italianos, até com um persa. Ainda que não possa afirmar que foi amado por si mesmo, teve ao menos a chance de ampliar sua educação no reino do erótico.

É o que ele espera. Mas depois de um turno de doze horas na clínica, seguido de um jantar de couve-flor com molho branco e uma noite de silêncio mal-humorado, Jacqueline não está disposta a ser generosa consigo mesma. Se chega a abraçá-lo, é de um jeito descuidado, porque, se não é pelo sexo que dois estranhos se aprisionam num espaço tão amontoado e sem conforto, que razão têm eles para estar ali?

A coisa chega ao cúmulo quando, um dia em que ele não está em casa, Jacqueline examina seu diário e lê o que escreveu sobre sua vida juntos. Quando ele volta, encontra-a embalando suas coisas.

"O que aconteceu?", pergunta.

Com os lábios apertados, ela aponta o diário aberto em cima da mesa.

Ele explode de raiva. "Você não vai me impedir de escrever!", proclama. É um non sequitur, e ele sabe disso.

Ela também está furiosa, mas de um jeito mais frio, mais profundo. "Se, como diz, você acha que eu sou uma carga tão insuportável", diz, "se estou acabando com a sua paz, com a sua privacidade, com a sua capacidade de escrever, fique sabendo que, de minha parte, detestei viver com você, detestei cada minuto, e mal posso esperar para me livrar."

O que ele devia ter dito é que não se devem ler os papéis particulares dos outros. Na verdade, devia era ter escondido o diário, não deixado onde pudesse ser encontrado. Mas agora é tarde demais, o estrago está feito.

Fica olhando Jacqueline arrumar suas coisas, ajuda a prender a mala no bagageiro da motoneta. "Vou ficar com a chave, se me permite, até pegar todas as minhas coisas", diz ela. E baixa o visor do capacete. "Adeus. Estou muito decepcionada com você, John. Você pode ser muito inteligente — isso eu não sei —, mas ainda tem muito o que crescer." Pisa com força no pedal da partida. O motor não quer pegar. Pisa mais uma vez, e mais uma. Um cheiro de gasolina se espalha no ar. O carburador está afogado; não há nada a fazer senão esperar que seque. "Entre", ele sugere. Com o rosto duro como pedra ela recusa. "Desculpe", diz ele. "Por tudo."

Entra, deixa-a na alameda. Cinco minutos depois, ouve o motor da motoneta pegar e se afastar, rugindo.

Está chateado? Claro que está chateado por Jacqueline ter lido o que leu. Mas a questão real é: que motivo tinha para escrever o que escreveu? Será que talvez escreveu para que ela lesse? Será que deixar seus verdadeiros pensamentos ali, onde ela podia acabar encontrando, era seu jeito de lhe dizer o que era covarde demais para lhe dizer na cara? Quais são seus verdadeiros pensamentos afinal? Há dias em que fica contente, sente-se até privilegiado de viver com uma bela mulher, ou pelo menos de não viver sozinho. Outros dias, sente de maneira diferente. A verdade será a felicidade, a infelicidade, ou uma média das duas?

A questão de resolver o que deve permitir que apareça em seu diário e o que deve ser para sempre escondido está no coração de toda a sua escrita. Se tem de se censurar para não expressar emoções ignóbeis — o incômodo de sentir o apartamento invadido, ou a vergonha dos próprios fracassos como amante —, como essas emoções jamais serão transfiguradas e transformadas em poesia? E, se a poesia não for o agente de sua transfiguração de ignóbil em nobre, por que se preocupar com poesia? Além disso, quem pode dizer se os sentimentos que registra no diário são seus verdadeiros sentimentos? Quem pode dizer que a cada momento que sua caneta se move ele seja verdadeiramente ele mesmo? Num determinado momento pode ser verdadeiramente ele mesmo, noutro pode simplesmente estar inventando as coisas. Como pode ter certeza? E por que haveria de querer saber ao certo?

As coisas raramente são o que parecem: isso é que devia ter dito a Jacqueline. Porém, que chance havia de ela entender? Como poderia acreditar que o que leu no diário dele não era a verdade, a verdade ignóbil, a respeito do que acontecia na cabeça de seu companheiro durante aquelas noites pesadas de silêncio e suspiros, mas, ao contrário, uma ficção, uma de muitas ficções possíveis, verdadeira apenas no sentido em que uma obra de arte é verdadeira — verdadeira consigo mesma, verdadeira em seus próprios objetivos imanentes — quando a leitura ignóbil combinava tão bem com as suspeitas dela de que o companheiro não a amava, nem ao menos gostava dela?

Jacqueline não vai acreditar nele, pela simples razão de que ele não acredita em si próprio. Ele não sabe em que acredita. Às vezes, acha que não acredita em nada. Mas, quando tudo está dito e feito, permanece o fato de que sua primeira tentativa de viver com uma mulher terminou em fracasso, em desonra. Tem de voltar a viver sozinho; e não será pequeno o seu alívio com isso. Porém, não pode viver sozinho para sempre. Ter uma amante faz parte da vida de um artista: mesmo que consiga evitar a armadilha do casamento, como certamente fará, vai ter de achar um jeito de viver com mulheres. A arte não pode se nutrir apenas de privações, de desejo, de solidão. Tem de haver intimidade, paixão, amor também.

Picasso, que é um grande artista, talvez o maior de todos, é um exemplo vivo. Picasso se apaixona por mulheres, uma após outra. Uma após outra se mudam para a casa dele, participam de sua vida, posam para ele. Por meio da paixão que se incendeia de novo a cada nova amante, as Doras e Pilares que o acaso traz à porta dele renascem em arte eterna. É assim que acontece. E com ele? Será que pode prometer que as mulheres de sua vida, não apenas Jacqueline, mas todas as inimagináveis mulheres que virão, terão destino semelhante? Gostaria de acreditar que sim, mas tem suas dúvidas. Se um dia será um grande artista, só o tempo dirá, mas uma coisa é certa, não é nenhum Picasso. Toda a sua sensibilidade é diferente da sensibilidade de Picasso. É mais calado, mais sombrio, mais do norte. Tampouco tem os olhos negros hipnóticos de Picasso. Se um dia tentar transfigurar uma mulher, não será tão cruelmente como Picasso a transfigura, dobrando e entortando seu corpo como metal numa fornalha acesa. De qualquer forma, escritores não são pintores: são mais pertinazes, mais sutis.

Será esse o destino de toda mulher que se envolve com artistas: ver o que tem de pior ou de melhor extraído e retrabalhado em obra de ficção? Pensa em Hélène, de Guerra e paz. Será que Hélène teve como ponto de partida uma das amantes de Tolstói? E será que ela algum dia imaginou que, muito depois de sua morte, homens que nunca pousaram os olhos nela desejariam seus belos ombros nus?

Será que tem de ser tudo tão cruel? Deve haver uma forma de coabitar em que um homem e uma mulher comam juntos, durmam juntos, vivam juntos, e mesmo assim continuem imersos em suas respectivas explorações interiores. Será por isso que o caso com Jacqueline estava fadado ao fracasso: porque, não sendo ela uma artista, não era capaz de apreciar a necessidade de solidão interior que tem o artista? Se Jacqueline fosse uma escultora, por exemplo, se um canto do apartamento tivesse sido reservado para ela talhar seu mármore enquanto em outro canto ele batalhava com palavras e rimas, será que o amor teria florescido entre eles? Será essa a moral da história dele e de Jacqueline: que o melhor é artistas terem casos só com artistas?


 
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