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O
Orientalista,
de Tom Reiss (tradução de Maria Alice
Máximo; Record; 518 páginas; 62 reais) Proclamando-se
descendente de príncipes muçulmanos, Essad Bey fez
sucesso nas rodas literárias de Berlim, nos anos 30, com
livros e artigos sobre o Oriente. No fim da década, porém,
teve de fugir da Alemanha, depois que os nazistas descobriram sua
identidade real: seu nome verdadeiro era Lev Nussimbaum, nascido
no Azerbaijão, filho de magnatas do petróleo que fugiram
da revolução comunista e judeu. Mais tarde,
na Áustria, Nussimbaum tentaria criar uma nova persona: Kurban
Said, autor do romance Ali e Nino, sobre o amor de um muçulmano.
Acabou se exilando na Itália, onde morreu de uma infecção,
em 1942. Nessa biografia, o jornalista Tom Reiss reconstitui a vida
desse farsante contra o pano de fundo de sua época conturbada.
.
Leia trecho
CAPÍTULO
1
A Revolução
LEV
NUSSIMBAUM NASCEU EM OUTUBRO DE 1905, na época em que a cultura
tolerante e haute capitaliste de Baku começava a entrar
em decadência. No dia 17 de outubro, o czar Nicolau II prometeu
a seu povo uma constituição. Essa foi uma falsa promessa
destinada a provocar um curtocircuito no crescente desejo de revolução
e nos movimentos por toda a Rússia com badernas, pilhagens
e assassinatos que estavam na ordem do dia. Em Baku, os cossacos
cavalgavam pela cidade atacando cidadãos com o pretexto de
restabelecer a ordem, enquanto azerbaijanos e armênios transformavam
sua cidade cosmopolita em zona de guerra medieval. Elegantes villas
eram cercadas se seus proprietários pertencessem a um
grupo étnico ou religioso que desagradasse a um determinado
grupo de baderneiros. Como outros autores nascidos nos últimos
anos de um império em decadência, Lev idealizava aquele
seu mundo que finalmente sucumbiu pouco depois de ele completar
15 anos, quando muitos habitantes precisaram fugir para salvar suas
vidas, alguns deixando o jantar servido à mesa. Lev se recordava
de Baku como um lugar cuja benevolência tinha raízes
na antiguidade e na relativa fraqueza das autoridades que a governavam.
Lev passaria o resto da vida opondo-se aos revolucionários
que acabaram com a complexa rede das antigas religiões e
dos antigos impérios, substituindo-a por um novo credo autoritário.
Para Lev, as forças revolucionárias responsáveis
pelas mudanças políticas seriam sempre lembradas pela
"loucura furiosa que tomou a cidade de assalto",
pelos
esgares que o povo passou a usar no lugar de seus rostos. Tudo
que havia de mais infernal, de mais animalesco, de mais medíocre
de que a natureza humana é capaz estava escrito naqueles
esgares. Era como se as expressões daqueles rostos, tendo
sido dominadas pela violência, tivessem atingido uma nova
liberdade e se apresentassem agora em sua forma mais estúpida,
mais animalesca e "livre". (...) O bolchevismo começou
por transformar rostos humanos em esgares.
A cidade
de Baku não tinha qualquer registro do nascimento de Lev Nussimbaum
em seus arquivos. Tampouco o tinham as cidades de Tiflis e Kiev, Odessa
ou Zurique. Lev sugeriu, em um dos muitos relatos de seus primeiros
anos de vida, esse publicado em um jornal de Berlim em 1931, que ele
não havia nascido em lugar algum:
Nascido em...? Aqui tem início a problemática natureza
da minha existência. A maioria das pessoas é capaz
de indicar uma casa ou pelo menos uma cidade onde nasceram. A
esse lugar, ou a essa casa, uma pessoa faz peregrinações
nos seus últimos anos de vida, a fim de se deleitar com
recordações sentimentais. Eu teria que fazer uma
peregrinação a um vagão de um trem expresso.
Nasci durante a primeira greve ferroviária da Rússia,
no meio das estepes russas, entre a Europa e a Ásia. Minha
mãe retornava de Zurique, sede dos revolucionários
russos, para Baku, onde morava nossa família. No dia em
que nasci, o czar proclamou o manifesto no qual assegurava aos
russos que eles teriam uma constituição. No dia
de minha chegada a Baku, a cidade estava tomada pelas chamas da
Revolução e multidões estavam sendo massacradas.
Eu mesmo tive que ser levado até meu pai em um cocho de
cavalo tomar água, e meu pai quis atirar-me para fora de
casa juntamente com minha ama-de-leite. Assim teve início
minha existência. Pai: um magnata da indústria do
petróleo; mãe: uma revolucionária radical.
Nessa
versão da história de seu nascimento, Lev veio ao mundo
em meio à convulsão política e social que determinou
sua vida, e em seus muitos relatos acerca de sua família e
de sua origem ele jamais se desviou desses fatos básicos.*
E por mais absurda que essa história pareça, ela pode
ser verdadeira. Outras fontes dão conta de história
semelhante, inclusive a governanta alemã de Lev, Alice Schulte.
Frau Schulte escreveu suas memórias de Lev com uma caligrafia
caprichada, na década de quarenta, em um convento no norte
da Itália onde passou a viver depois que o menino que ela acompanhara
por toda a vida tornou-se um homem perseguido. Ela parece ter se sentido
obrigada a colocar os fatos da vida confusa de Lev em alguma ordem,
porém o documento é frustrante por ser muito breve.
E como Frau Schulte está enterrada como indigente em
um cemitério próximo ao convento desde 1958, perdeu-se
essa preciosa fonte de informação. O primeiro livro
de Lev, Sangue e petróleo no Oriente, estabelece as
bases do mito no qual o autor estava por se transformar, ligando sua
história pessoal à história do Cáucaso.
Lev apresenta seu pai, Abraham, a passear diante da cadeia local,
com "um gorro oriental de lã de carneiro na cabeça
e nas mãos um rosário de âmbar sem o que ninguém
pode passar em Baku". Os traços bronzeados do pai, que
Lev em outra parte atribuiu a uma herança racial equilibrada
das aristocracias persa e turca, revelavam "uma expressão
facial imperturbável, fatigada, mas também a de um homem
ansioso por ação, a expressão de um oriental
que trocou suas antigas tradições de comando pela vida
social da jovem cidade petrolífera". Nesse relato seu
pai compra a liberdade de sua mãe ("uma moça muito
jovem de olhos escuros(...) membro do Partido Bolchevista da Rússia"),
que se encontrava em uma prisão imperial aguardando para ser
deportada como agitadora política. Abraham prontamente casa-se
com ela e a leva para seu harém. A mãe de Lev, por sua
vez, assume o controle da casa e despacha o harém. *O significado
dos acontecimentos do dia em que ele nasceu assombraria Lev por toda
sua vida, mas ele nunca soube ao certo que dia foi aquele. Às
vezes ele o datava de 20 de outubro, mas outras vezes falava em final
de outubro ou início de novembro; seu pai lhe disse que ele
havia nascido em outubro, mas tampouco tinha certeza do dia. Para
aumentar a confusão, havia ainda o fato de o calendário
tradicional da Rússia, o calendário juliano em vigor
até 1917, diferir do moderno calendário gregoriano em
11 dias. Portanto, em certo sentido, Lev poderia ter nascido em outubro
e em novembro. Não é de surpreender que ele tenha
comemorado seu aniversário certa vez em Nova York durante uma
semana. A idéia de que Abraham Nussimbaum fosse um aristocrata
muçulmano de origem persa e turca qualquer coisa menos um
judeu de origem européia era parte do personagem que Lev
criou para si. O velho Nussimbaum nasceu, de fato, em Tiflis atualmente
Tbilissi, a capital oficial do Cáucaso administrado pela Rússia
no dia 24 de agosto de 1875. (O registro deste nascimento
existe.) O pai de Lev era um judeu asquenaze cujos pais haviam chegado
ao Cáucaso vindos de Kiev ou de Odessa, os grandes centros
judaicos da Área de Estabelecimento fora dos quais os judeus
russos não tinham permissão para viajar ou trabalhar
(apesar de muitos deles conseguirem, por meio de suborno, ir para
outros lugares do império). A Área de Estabelecimento
consistia de territórios que haviam caído sob o domínio
do cada vez mais reduzido commonwealth polonês basicamente
a Bielorússia, a Lituânia e a Ucrânia ocidental
até serem anexados à força por Catarina, a
Grande em 1772, 1793 e 1795.* Juntamente com milhões de cristãos
ortodoxos e de católicos eslavos, quase meio milhão
de judeus passaram a ser súditos do Império Russo expandido.
Até a anexação dos territórios poloneses,
o Império Russo praticamente não tinha judeus e encontrava-se
muito mal preparado para lidar com aquele novo acréscimo à
sua composição étnica e religiosa. A solução
oficial do governo russo para a questão dos judeus foi confiná-los
às áreas que Catarina havia anexado conhecidas como
Área de Estabelecimento. Na prática, isso criou o maior
gueto da história, uma vasta prisão geográfica
para os novos judeus "russos". Os territórios que
compreendiam a Área de Estabelecimento eram provincianos, anti-semitas
e sujeitos a desabastecimento e a outras crises econômicas.
*O que a princípio foi uma invasão limitada de território
pelos monarcas da Rússia, da Prússia e da Áustria
tornou-se um desmembramento territorial em grande escala na década
de 1790, depois que os poloneses, inspirados pelos ventos vindos da
França, aboliram sua monarquia e redigiram uma constituição.
A czarina Catarina liderou o ataque para a eliminação
das "contagiosas idéias democráticas" da Polônia.
Do ponto de vista pós- 1939, a solução de Catarina
o desmembramento à força da Polônia, com tropas
alemãs atacando pelo oeste e tropas russas atacando pelo leste
parece uma espécie de ensaio feito no século XVIII
para o pacto entre Hitler e Stalin. A Rússia já era
uma terra de tamanho fervor religioso que até mesmo seus governantes
cristãos ortodoxos eram considerados hereges por uma grande
percentagem de seu povo: os "Antigos Crentes" milhões
de fundamentalistas apocalípticos que não aceitavam
algumas pequenas modificações do ritual da igreja russa
feitas no século XVII para aproximá-la das práticas
ortodoxas gregas. Os Antigos Crentes ficaram tão revoltados
com a possibilidade de aquelas modificações prejudicarem
sua salvação eterna que se lançaram em grandes
rebeliões contra as "legiões de anticristos"
do czar e, em protesto, muitos imolaram-se pelo fogo (mas ainda havia
cerca de 13 milhões deles quando Lev nasceu). Havia também
os "judaizantes", cristãos que decidiram renunciar
a Cristo e seguir apenas o Antigo Testamento, guardando o sábado
como dia sagrado, além de adotar vários outros costumes
judaicos sem, todavia, considerarem- se judeus. Auxiliados pelos eremitas
trans-Volga, os judaizantes levaram a ortodoxia russa até o
ponto mais próximo que ela esteve de uma reforma e provocaram
uma reação que barrou a presença dos verdadeiros
judeus da Rússia ao longo dos três séculos seguintes.
Quando o czar Ivan III, que gostava dos judaizantes, convidou-os a
ir a Moscou, estes acabaram por converter tantos membros da nobreza
da corte nas últimas décadas do século XV que
os tradicionalistas sentiram necessidade de fazer oposição
a essa tendência selecionando alguns deles para serem queimados
em praça pública. O clero ortodoxo também pressionou
os czares a banir os judeus, que eram acusados de ter dado início
à heresia dos judaizantes; a expulsão foi levada a cabo
em meados do século XVI, motivo pelo qual o império
era tão desprovido de judeus quando adquiriu a Área
de Estabelecimento no final do século XVIII. Assim como a maçonaria
com a qual era intimamente associado, principalmente depois que
os maçons russos adotaram a Cabala e começaram a eleger
os "Cohens" para seus templos o judaísmo era simplesmente
considerado uma religião explosiva e contagiosa demais para
ser permitida em território russo. As permanentes crises religiosas
da Rússia acrescentaram premência ao desejo oficial de
converter sua grande e nova população de judeus. Em
1817, o czar Alexandre I fundou pessoalmente a Sociedade dos Israelitas
Cristãos, mas teve menos sorte na derrota do judaísmo
do que havia tido derrotando Napoleão; ao contrário,
servos e comerciantes não judeus de áreas próximas
à Área de Estabelecimento começaram a dar preocupantes
sinais "judaizantes". A religião ainda era uma força
tão anárquica e volátil na Rússia que
quando o czar Alexandre morreu em 1825, em uma viagem ao Mar Negro,
muitos russos insistiram em dizer que ele não tinha realmente
morrido, mas que havia aderido secretamente a uma nova seita e que
passara a percorrer o país com o nome de Fedor Kuzmich. No
século XIX foram muitos os planos, por parte do czar e de seus
opositores revolucionários, para lidar com o "elemento
estranho", os judeus. Os planos foram se tornando cada vez mais
violentos no decorrer do século. Na década de 1820,
o conde Pestel, um nobre livre-pensador, sugeriu que fosse dado aos
judeus um Estado independente na Ásia Menor e que eles fossem
deportados em massa para lá. Porém já no final
daquele século, Constantine Pobedonostsev, principal conselheiro
dos dois últimos czares, sugeria que o "problema judaico"
da Rússia fosse resolvido em três partes: um terço
deveria emigrar, um terço deveria adotar o cristianismo e um
terço deveria morrer de inanição. A Okhrana,
a polícia czarista, forjou um documento que se tornou conhecido
como Os protocolos dos sábios do Sião, um suposto
plano de tomada do poder pelos judeus através de uma revolução
global. Durante a abortada revolução de 1905, a Rússia
foi varrida por pogroms que chocaram o mundo. Nesse vasto império
anti-semita, o Cáucaso era um excepcional oásis. Ali
os judeus eram simplesmente uma minoria em meio a outras, por sinal
uma minoria antiga e bastante admirada. Muitos judeus haviam fugido
para lá com a destruição do Segundo Templo, no
ano 70 da era cristã, e o Azerbaijão tinha absorvido
remanescentes do exílio da Babilônia, que fugiram para
as terras altas ao norte de Baku durante a conquista islâmica
da Pérsia. Até mesmo os judaizantes, os judeus nãojudeus
da Rússia, lá encontraram abrigo e se estabeleceram
nas florestas junto à fronteira entre a Pérsia e o Azerbaijão.
Aos olhos dos cãs muçulmanos que governavam grande parte
do Cáucaso, a condição dos judeus como Povo do
Livro situava- os um pouco acima dos zoroastras e das várias
seitas pagãs. Judeus asquenazes da Área de Estabelecimento
partiram clandestinamente para o Cáucaso uma viagem de poucos
dias através do Mar Negro ao lon- go do século XIX.
Esse movimento tornou-se mais intenso com o boom do petróleo
a partir de 1870. É provável que o avô de Lev
tenha migrado da Área de Estabelecimento para Tiflis nos anos
1850 ou 1860, e que seu pai tenha saído de Tiflis para Baku
no início dos anos 1890. Lev jamais revelou essa parte de seu
passado, mas é provável que Abraham Nussimbaum tenha
visto em Baku o mesmo que viu seu contemporâneo Ossip Benenson,
outro judeu asquenaze que enriqueceu com o petróleo. Flora,
filha de Benenson, relata que seu pai pouco depois de casar-se, por
volta de 1880, deixou a família na Área de Estabelecimento
porque "tinha visões do distante Cáucaso, um lugar
que no século XIX fazia parte dos sonhos românticos de
todos os jovens russos... [porém ele] nada tinha de romântico;
foi seu espírito de jogador que o levou a arriscar-se em um
lugar tão distante de suas raízes". Flora Benenson
cresceu no mesmo ambiente que Lev. Ambos milionários em uma
cidade onde os judeus eram minoria, os Benenson e os Nussimbaum certamente
se conheciam. Abraham Nussimbaum enriqueceu como comissário
do petróleo de Baku, uma espécie de intermediário
legal que também possuía poços de petróleo,
mas o petróleo de Baku fez dos Benenson uma das famílias
mais ricas da Rússia. Em 1912 a família comprou uma
mansão em São Petersburgo da qual se podia ver o palácio
do czar. Porém as recordações de Flora da primeira
celebração da páscoa judaica em São Petersburgo
contrastam de maneira chocante com a festa de natal interétnica
da qual o jovem Lev participou no final daquele mesmo ano. Ela se
lembrava de que na noite do seu seder, "quando tudo estava
pronto, nosso mordomo foi à frente de uma delegação
de empregados até os aposentos de minha mãe. Haviam
feito todo o serviço, disse ele, e estavam se retirando da
casa. Não podemos servir uma refeição na qual
os senhores consomem o sangue de uma criança cristã,
informou o mordomo à minha mãe. Amanhã estaremos
de volta." Era essa a diferença entre as outras cidades
do Império Russo e Baku. A despeito da Área de Estabelecimento,
o judeu que tivesse dinheiro suficiente podia viver onde bem entendesse
no império do czar. Mas somente no Cáucaso ele podia
se esquecer do estigma de ser judeu. E o lugar mais tolerante e cosmopolita
do Cáucaso era a capital do Azerbaijão, Baku. A palavra
persa para fogo é azer, e desde tempos remotos a abundância
de petróleo e de gás natural no Azerbaijão, que
levava as encostas das montanhas a explodir em incêndios espontâneos,
fez daquela região o centro do zoroastrismo, a antiga religião
persa pré-muçulmana. Praticamente todas as religiões
encontraram abrigo naquela região. Quando Roma ainda matava
cristãos, dois reinos que faziam fronteira com o Azerbaijão,
a Armênia e a Geórgia, foram dos primeiros países
a se converterem ao cristianismo. Quando exércitos muçulmanos
se espalharam a partir da Arábia no século VIII muitos
cristãos, zoroastras e pagãos adotaram a fé muçulmana,
porém muitos foram também os que não a adotaram.
O islamismo simplesmente juntou-se à babel de religiões
daquela área. Quando os cruzados foram expulsos da Palestina
três séculos depois, encontraram um novo lar nas montanhas
do Azerbaijão, onde estabeleceram reinos que ainda existiam
e chocaram os antropólogos no início do século
XX. Com o passar do tempo, como sua cultura se desenvolveu ao lado
da cultura persa, o Azerbaijão se transformou no único
país muçulmano além do Irã que é
oficialmente xiita que reverencia uma linhagem de mártires
sagrados enviados por Ali, sobrinho e genro do Profeta. Em várias
ocasiões, os cãs azerbaijanos apossaram-se do trono
da própria Pérsia; a partir do século XVI, as
grandes dinastias persas tinham à frente governantes da etnia
azerbaijana. A influência russa espalhou-se rapidamente pela
região no início do século XIX. Quando as tropas
do czar conquistaram o Cáucaso, os azerbaijanos romperam os
laços com os conservadores xiitas do Irã e tornaram-se
"europeus". Umm-El-Banu Asadullayeva, que partiu de Baku
em 1922 e escreveu suas memórias em Paris sob o pseudônimo
de Banine, lembra-se de que em sua própria "família
de muçulmanos fanáticos" as mulheres só
se interessavam, de fato, por roupas, jóias e móveis
vindos de Paris e de Moscou e por jogos de azar (o pai, antes um fazendeiro,
tornou-se milionário quando descobriu petróleo em suas
terras). Suas tias, "gordas, morenas e com buço",
fumavam, falavam da vida alheia o dia todo e "jogavam pôquer
com uma paixão inigualável". Assim resumiu ela,
com espírito crítico, a virada do século na Baku
de sua infância:
O jogo de azar é proibido pelo Alcorão toda Baku
jogava cartas e grandes somas de dinheiro trocavam de mãos
em apostas. Fortes bebidas alcoólicas como a vodca e o
conhaque substituíram o vinho, que era condenado pelo Profeta,
com o pretexto de aquelas não serem tecnicamente condenadas.
A reprodução do rosto humano era também proibida
os fotógrafos, porém, não davam conta dos
novos fregueses. Os muçulmanos se deixavam fotografar de
perfil ou de frente, desde que o fundo fosse um parque ou uma
cortina fechada.
O boom
do petróleo nos Estados Unidos teve início com o
primeiro jorro na Pensilvânia na década de 1850, mas
em Baku o petróleo já jorrava havia dois mil anos. O
petróleo de Baku iluminava os templos de Zaratustra, e Marco
Pólo já falava do lugar como um dos principais pontos
de parada dos mercadores da rota da seda. Mas por quase dois milênios,
o fluxo constante do ouro negro não provocava paixões
em ninguém além dos zoroastras, que fizeram de Baku
o centro de seu culto. Grandes quantidades de estóicos emaciados
e de monges adoradores do fogo viajavam de lugares tão remotos
como a Índia para passar a vida sentados em fortalezas onde
o fogo ardia, suportando a fome para melhor se nutrirem das chamas
eternas e purificadoras. Para o restante da população,
o óleo cru era uma lama permanente na cidade onde viviam poucos
milhares de pessoas. Ele envenenava o solo e forçava os habitantes
a partir para as estepes e para as florestas montanhosas do Azerbaijão
nenhum outro país tem mais zonas climáticas em área
tão pequena à procura de solo não contaminado
pelo óleo cru. Até mesmo as águas do Mar Cáspio
freqüentemente se incendiavam quando a borra de óleo se
tornava espessa demais. "Tenho lembranças de ondas em
chamas", escreveu uma das imigrantes recordando-se de sua infância
em Baku, "que provocavam um clarão na noite, quando os
vapores explodiam em milhares de fagulhas." Até o século
XIX, o petróleo era usado principalmente em remédios,
e quase todo mundo acreditava em suas propriedades medicinais. Algumas
tribos caucasianas adoravam o petróleo como elemento divino.
Acreditava- se que seus vapores tivessem salvo Baku da Peste Negra.
Em sua viagem pelo Cáucaso na década de 1850, Alexandre
Dumas ficou maravilhado com os cidadãos anacrônicos do
Azerbaijão, que tinham o espírito aventureiro e a famosa
bravura de seus mosqueteiros; Dumas escreveu em seu diário
que "entrar em Baku é como penetrar em uma das fortalezas
mais poderosas da Idade Média". Mas logo tudo isso ia
mudar. Em meados do século XIX, quando o querosene feito do
petróleo começou a substituir o caro óleo de
baleia, teve início a Era da Iluminação. O querosene
tornou-se subitamente a mais valiosa commodity do mundo e as
forças que propulsaram Rockefeller e a Standard Oil foram deflagradas
em Baku. Os poços de Baku, chamados de "fontes",
tinham tamanho e força jamais vistos antes. Com apelidos como
Ama-de-leite e Bazar do Ouro, eles acabavam por se transformar em
pequenos vulcões de petróleo que escapavam ao controle.
Tingiam de negro as praias de Baku e o litoral do Mar Cáspio
logo ficou tão tomado por torres de petróleo que em
certos lugares não era possível ver os navios que se
aproximavam. A primeira "fonte" de Baku, perfurada em junho
de 1873, jorrou petróleo durante quatro meses até que
seus donos conseguissem controlá-la, quando o equivalente a
várias dezenas de milhões de barris de petróleo
já haviam encharcado a terra. Durante alguns meses esse único
poço fez cair vertiginosamente o preço do petróleo
e dois anos depois ele ainda tinha força suficiente para lançar
ao ar uma coluna de quase 3 metros de largura e 14 metros de altura.
Em 1901, Baku já produzia metade do petróleo consumido
em todo o mundo. Da noite para o dia, a cidade tornou-se internacional
e a população de azerbaijanos passou a ser menor do
que a de russos, georgianos e de pessoas vindas dos quatro cantos
do mundo. Entre 1856 e 1910, a população de Baku cresceu
em ritmo mais acelerado que as de Londres, Paris e Nova York. Os irmãos
Nobel, que dominaram a indústria petrolífera nas primeiras
décadas, inventaram o navio petroleiro para atender a demanda
do Oriente pelo petróleo de Baku e deram a seu primeiro petroleiro
o nome apropriado de Zoroaster. A família Nobel fez
a maior parte de sua fortuna com o petróleo de Baku, apesar
de a invenção da dinamite pelo irmão Alfred ter
ficado mais famosa. |