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A Vida de Lima Barreto, de Francisco de Assis Barbosa (José Olympio; 458 páginas; 45 reais) – Lançada originalmente em 1952, essa continua sendo a mais celebrada biografia literária já feita no Brasil. O jornalista paulista Francisco de Assis Barbosa (1914-1991) dedicou cinco anos à sua realização. Construiu um retrato impecável do autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma e ainda reuniu dados preciosos sobre o Rio de Janeiro do começo do século XX, seu ambiente político e cultural. Mas o mérito do livro é ainda maior. Antes dele, Lima Barreto estava no limbo. O autor mulato, de origem humilde, que havia ousado descrever o país do ponto de vista dos pobres, raramente era mencionado. A biografia abriu caminho para que fosse reconhecido como um dos mais importantes e originais autores já surgidos no país.

Trechos do livro

Origens

"...foi com orgulho que verifiquei nada ter perdido das aquisições de meus avós, desde que se desprenderam de Portugal e da África."
Gonzaga de Sá, p. 40

EM 1869, LOGO DEPOIS DO aparecimento do manifesto do Centro Liberal, começou a circular A Reforma. Porta-voz da oposição democrática, o jornal escolhera para epígrafe uma frase de Tácito "Resumendae libertati tempus" -, que tão bem lhe simbolizava o programa. "Não se admitem testas-de-ferro”, avisavam os redatores, no alto do cabeçalho, como que desejando tudo muito claro e muito limpo. Com este pensamento, certa ou erradamente, entendeu a direção, confiada a Francisco Otaviano, que todo artigo político deveria trazer por baixo a assinatura do autor. Opinião livre, mas responsável.

0 jornal do Commercio criticou a inovação, mas Otaviano não tardou em dar a resposta adequada. No dia seguinte mesmo, veio a explicação, que encerrava, nas linhas adiante transcritas, uma verdadeira declaração de princípio: "Esse sistema nos pareceu necessário como exemplo e como argumento para afastar de nossas colunas editoriais a calúnia e o insulto. Se assinamos e tomamos a responsabilidade de nossas opiniões e censuras, temos o direito de exigir que todos os artigos enviados à Reforma venham com a força moral da convicção de seus autores.

Imprimiram-se os primeiros números na tipografia de Francisco Sabino de Freitas Reis. Comprou-a mais tarde o Centro Liberal, e o jornal passou a ter, por volta de 1870, a sua própria oficina. Não se sabe se antes ou depois disso, já ali trabalhava João Henriques de Lima Barreto. O certo é que, tido e havido como excelente profissional, o jovem tipógrafo passara-se da oficina do jornal do Commercio para a da Reforma, aos 19 anos de idade, pouco mais ou menos.

Para a folha fundada por Plancher, entrara simples aprendiz, mal saído do Imperial Instituto Artístico, pertencente a Henrique Fleiuss, que imprimia A Semana Ilustrada, de saudosa memória. Aí João Henriques havia aprendido o ofício com Mestre Faulhaber, alemão de nascimento, radicado no Brasil, provavelmente desde o mesmo ano em que o fizeram os irmãos Fleiuss e Carlos Linden, fundadores do Instituto.

São imprecisos os dados sobre o aprendizado técnico de João Henriques mas do Instituto Artístico é possível e justo que se diga alguma coisa. Estabelecido, a princípio, no Largo de São Francisco de Paula, instalou-se depois com maior comodidade nos terrenos da Chácara da Floresta, próximo ao Convento da Ajuda. Os irmãos Fleiuss, organizaram, então, uma escola de aprendizes tipógrafos, ampliada mais tarde com uma seção de gravuras em madeira (xilografia). O curso era de três anos. Se, no primeiro, o aluno trabalhava sem receber ordenado algum, já no segundo percebia uma gratificação de 120 mil réis, que no terceiro aumentava para 240.

0 Instituto era bem aparelhado e possuía excelente equipe de profissionais gráficos, compositores, gravadores e impressores de primeira ordem. Basta compulsar a coleção da Semana Ilustrada, para se verificar que não há nenhum exagero em tal afirmativa.

Nesse ambiente, que era, por assim dizer, o mais adiantado da época, em matéria de tipografia, João Henriques fez a sua iniciação técnico-profissional.


 
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