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Shakespeare: sonetos sobre a passagem do tempo  

Os Sonetos Completos, de William Shakespeare (tradução de Vasco Graça Moura; Landmark; 344 páginas; 53 reais) – Publicada em 1609, essa coleção de 154 sonetos tem levantado muitas especulações entre estudiosos da obra de Shakespeare. Muitos acreditam que há um fundo biográfico nesses poemas e se perguntam acerca da identidade dos personagens referidos nos versos – especialmente o jovem amante do poeta e a misteriosa "dama negra". Mas os sonetos vão muito além dessas curiosidades: suas reflexões sobre a passagem do tempo e a natureza efêmera da beleza e do amor estão entre as mais extraordinárias realizações da literatura universal. Essa edição bilíngüe conta com a cuidadosa tradução do poeta português Vasco Graça Moura, que já enfrentou outras tarefas hercúleas, como a tradução da Divina Comédia de Dante, e mantém a intrincada versificação dos poemas originais.

Leia trecho

Soneto n° 29

When in disgrace with fortune and men's eyes
I all alone between my outcast state,
And trouble deaf heav'n with my bootless cries
And look upon myself, and curse my fate,
Wishing me like to one more rich in hope,
Featured like him, like him with friends possessed,
Desiring this man's art and that man's scope,
With what I most enjoy contented least;
Yet in these thoughts myself almost despising,
Haply I think on thee, and then my state,
Like to the lark at break of day arising,
From sullen earth sings hymns at heaven's gate;
For thy sweet love remembered such wealth brings
That then I scorn to change my state with kings.

De mal com os humanos e a Fortuna,
choro sozinho o meu banido estado.
Meu vão clamor o céu surdo importuna
e olhando para mim maldigo o fado.
A querer ser mais rico em esperança,
como outros ter amigos e talento,
invejando arte de um, doutro a pujança,
do que mais gosto menos me contento.
Se assim medito e quase me abomino,
penso feliz em ti e meus pesares
(qual cotovia em vôo matutino
deixando a terra) então cantam nos ares.
Tão rico me é teu doce amor lembrado,
que nem com reis trocava meu estado.


 
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