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A Esperança Estilhaçada, de Augusto Nunes (Planeta; 128 páginas; 24,90 reais) – Colunista do Jornal do Brasil e do site NoMinimo, o jornalista Augusto Nunes reconstitui, nessa coletânea de artigos, a crise política que teve início quando o esquema do mensalão veio à tona, em maio deste ano. Da propina embolsada pelo funcionário dos Correios Maurício Marinho ao mensalinho que derrubou o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, Nunes apresenta um apanhado crítico do "novelão" petista. A verve do autor se revela nos detalhes menos comentados do drama político – ele observa, por exemplo, que o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, em seu depoimento à CPI dos Correios, falava "negoceia" em vez de "negocia". "A mente criminosa pode perfeitamente prescindir do brilho intelectual", conclui Nunes.

Leia trecho

Introdução

Na letra de Vai Passar, gravada em 1983, Chico Buarque fala de um tempo em que "dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações". Uma "página infeliz da nossa história", que haveria de passar. A derrocada dos carrascos e dos ladrões não tardaria. Então viriam a reconquista da democracia e a ressurreição da liberdade assassinada. E o Brasil veria restaurado o direito de ser feliz. E o povo festejaria o fim da escuridão com celebrações incomparáveis.

A profecia começou a ser cumprida com o sepultamento da ditadura militar. Mas até a virada do século o pêndulo do Brasil balançaria entre a prostração e a euforia. Houve o triunfo de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, o martírio do presidente eleito, o prólogo excitante e o feio epílogo do Plano Cruzado de José Sarney, a ultrajante Era Collor, a interinidade do imponderável Itamar Franco e o reinado de Fernando Henrique Cardoso.

Se tivesse resistido à tentação de duplicar o tempo no poder, FH seria lembrado como o homem que controlou a inflação e consolidou a democracia (também por ter profissionalizado as Forças Armadas e afastado os quartéis de assuntos políticos). O segundo mandato (afetado, como o primeiro, pelos efeitos de crises internacionais sobre a economia brasileira) foi manchado na origem pela suspeita de compra de votos para a aprovação da emenda da reeleição e, depois, por privatizações envoltas por suspeitas de corrupção e favorecimento ilegal.

Em 2002, o balanço da Era FH apontava numerosos triunfos e fracassos. E então o povo resolveu que, 20 anos depois de Vai Passar, perderia

o medo de ser feliz: transformou em presidente da República um ex-operário metalúrgico, entregou o poder ao Partido dos Trabalhadores e caiu na festa. Ao subir a rampa do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva, nascido em Garanhuns em 1945, juntou num carnaval temporão milhões de brasileiros enlouquecidos de alegria.

Seria uma alegria fugaz, avisara Chico Buarque.

O Brasil redemocratizado nunca foi tão feliz quanto no verão de 2003. Nem tão infeliz quanto no inverno de 2005. Despejados na estação do medo, os passageiros do otimismo descobriram que as tenebrosas transações corriam soltas. Descobriram que viajavam num trem controlado por maquinistas bandidos. Descobriram que todos os trilhos levavam ao pântano dos corruptos.

Lancetados na Era Collor pelo impeachment, os tumores da corrupção pareciam reduzidos às dimensões históricas até a descoberta do lodaçal medonho. Ali chapinhavam criaturas decididas a tomar de assalto o Estado brasileiro, instrumentalizar as ramificações do aparelho federal, garantir o apoio do Congresso com a compra de partidos e perpetuar-se na sala do trono.

A experiência havia sido testada em administrações estaduais e prefeituras sob o domínio do PT. A mais atrevida ocorrera em Santo André, na última gestão de Celso Daniel. Fora muito lucrativa, mas terminara mal: o assassinato do prefeito, em janeiro de 2002, quase escancarou os porões do esquema que desviava dinheiro público para as campanhas do partido. Desta vez o grupo agiria com mais cautela. Não queria outras manchas de sangue nas mãos.

Os fins justificam os meios, e o fim de tudo seria a implantação do regime socialista, murmuravam para seus fantasmas íntimos petistas que militaram quando jovens em grupos esquerdistas. Mais sinceros, companheiros do PT ou comparsas dos partidos aliados logo deixaram claro que não queriam melhorar o Brasil. Queriam melhorar de vida.

Até ser desbaratado, o grupo agiu com eficácia e harmonia. Ocupou quase todos os 21.197 cargos de confiança (preenchidos sem concurso público) do mamute administrativo. Passou a movimentar quantias colossais no Brasil e no exterior, extraídas da rede de patrocinadores que incluiu fundos de pensão, grandes estatais, agências de publicidade contratadas por valores superfaturados, banqueiros amigos e financistas interessados em aproximar-se do Planalto. Instituiu o "mensalão", gorjeta entregue regularmente a parlamentares de aluguel. As ações criminosas já haviam assumido proporções amazônicas quando brigas por dinheiro provocaram fissuras no bando. Um dos integrantes resolveu contar o que sabia. E a crise explodiu. As páginas seguintes percorrem os labirintos do drama que abalou o governo Lula, radiografam a metamorfose do PT, descrevem os protagonistas do mais longo inverno da política brasileira. São a crônica da esperança estilhaçada.

 

Fronteira ultrapassada

Há limite para tudo. Com quatro palavras, o deputado federal Fernando Gabeira explicou, no verão de 2005, por que decidira desgarrar-se de vez do rebanho conduzido por Lula e seus pastores. Mineiro de Juiz de Fora, reconduzido à Câmara pelos eleitores do Rio, estava no saguão do Palácio do Planalto, voltando de um encontro que não houve. Fora convidado pelo ministro José Dirceu, mineiro de Passa Quatro, para uma conversa reservada. O presidente Lula achava que Dirceu seria o homem certo para aplacar o descontentamento do deputado e convencê-lo a continuar no PT.

Ambos militantes do movimento contra o regime militar, aproximaram-se em 1968. No ano seguinte, Gabeira participou do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, libertado depois da decolagem para o exílio de 15 presos políticos. Dirceu fora um deles. Gabeira seguiria para o desterro no ano seguinte. Os dois se reencontraram no PT. Lula deduziu que o ministro e o deputado se conheciam suficientemente para chegar sem sobressaltos a um acerto. Gabeira, com 64 anos, conhece Dirceu muito bem. Dirceu, 59, não parece conhecer Gabeira.

O convidado chegou na hora combinada. Passados 90 minutos, o anfitrião não havia aparecido, nem telefonara para justificar o atraso. Com expressão serena, Gabeira ergueu-se da poltrona na ante-sala, despediu-se das secretárias – e do PT. Há limite para tudo, resumiu aos jornalistas que aguardavam o relato do encontro.

A frase tem a idade do mundo, mas poucos políticos brasileiros assimilam a lição. Para a maioria, a esperteza e a conveniência rasa prevalecem sobre a ética, a moral e a compostura. Não conseguem aprender que há limite para tudo. A regra vale para o convívio entre velhos companheiros

– Dirceu violou-a ao humilhar Gabeira – e também deve orientar o convívio dos contrários. Esta prática é essencial à democracia. Mas é também demarcada por fronteiras irremovíveis.

Vítimas de insultos não precisam reagir a socos e pontapés, muito menos a bala. Tampouco devem retribuir a agressão com abraços efusivos. Quem aceita mansamente ofensas ou insultos está confundindo

o convívio dos contrários com a promiscuidade pusilânime. Gabeira é dos poucos que sabem disso. Simpático, risonho, tolerante, o deputado prefere a ruptura à convivência hipócrita. Como Dirceu ultrapassara a fronteira do tolerável, antecipou a mudança para o Partido Verde (PV).

Nos tempos de oposicionista, Lula agia como se fora do PT não existisse salvação. Dividia o mundo entre companheiros e o resto. O partido tinha o monopólio da honradez, da decência, da ética, da solidariedade. Os outros não mereciam sequer um abraço. Eleito deputado federal, mal suportou um único mandato. Deixou a Câmara aliviado por afastar-se dos "300 picaretas". Começou a mudar ao convencer-se de que só chegaria ao Planalto se celebrasse alianças com partidos que sempre menosprezara. No poder, contraiu a espécie de miopia cujos portadores não conseguem localizar fronteiras além das quais a falta de vergonha subjuga a ética e a auto-estima.

Essa disfunção ajuda a entender as manifestações de afeto que contempla, desde a campanha vitoriosa de 2002, gente a quem Lula não estenderia a mão antes de sucumbir à prática política do vale-tudo. Re-nan Calheiros e Roberto Jefferson são dois casos exemplares. No fim do segundo turno da campanha presidencial de 1989, o alagoano Renan e o fluminense Jefferson, aliados do candidato Fernando Collor, apoiaram e aplaudiram um dos mais infames episódios da história republicana. É difícil acreditar que Lula, vítima da brutalidade, tenha conseguido suprimir da memória a noite medonha.

O programa de Collor no horário eleitoral apresentou ao país uma certa Miriam Cordeiro, que namorou Lula antes do casamento com Marisa Letícia. Dessa ligação nasceu Lurian. Naquela noite, como milhões de brasileiros, a adolescente ouviu a versão de que Lula tentara induzir Miriam a aceitar o aborto. Ouviu a mãe afirmar que o pai não desejara seu nascimento. A performance durou uma eternidade. Miriam seguiu com aplicação o roteiro traçado pelos íntimos de Collor. No bando brilhavam os deputados Roberto Jefferson, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e Renan Calheiros, eleito por um certo Partido da Reconstrução Nacional (PRN) e futuro líder do governo na Câmara.

Lula diria mais tarde que nunca se sentiu tão humilhado quanto na noite da punhalada. Enquanto amargava a travessia do pesadelo no apartamento em São Bernardo do Campo, Collor sorria em Brasília. Dividindo o sofá com o chefe, sorria também Renan, a felicidade estampada no rosto de professor secundário nomeado sem concurso. Na poltrona ao lado, Jefferson sacudia as dobras da barriga nos momentos mais ultrajantes. Era o fim de Lula, celebraram. Engano. A vítima da abjeção chegaria ao poder 13 anos depois.

Chegou arrastando um imenso balaio de parcerias dissonantes. No poder, descobriu que governaria com menos sobressaltos se topasse conviver com figuras sem acesso a lares respeitáveis. Parece ter gostado do jeitão da turma. Nos primeiros meses de 2005, Lula, Renan e Jefferson foram fotografados juntos em vários momentos. Sempre sorrindo. Como um trio de velhos companheiros.

Como se não houvesse limite para nada.


 
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