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Bibliomania,
de Gustave Flaubert (tradução de Carlito Azevedo;
Casa da Palavra; 75 páginas; 18 reais)
O
francês Flaubert (1821-1880) é considerado a encarnação
perfeita da vocação literária: um homem que
viveu recolhido para escrever, e que ocupava horas na busca pela
"palavra exata". O conto Bibliomania é outra prova
dessa vocação. Veio à luz quando o autor tinha
apenas 15 anos, aceito para publicação num jornal
literário. O texto toca em assuntos que Flaubert retomaria
bem mais tarde, em obras-primas como Bouvard e Pécuchet.
Para narrar a história do livreiro Giácomo, que
comete um crime para apoderar-se de uma edição rara,
o escritor se inspirou num relato da Gazeta dos Tribunais. Sabe-se
hoje que esse relato era um conto disfarçado em reportagem,
cuja autoria ou coube a Charles Nodier ou a Prosper Mérimée
outros grandes nomes da prosa francesa. Além do conto
de Flaubert, a bonita edição brasileira traz, em apêndice,
esse saboroso petisco literário.
Trechos
do primeiro capítulo
Numa
Rua estreita e sem sol de Barcelona morava, havia pouco tempo, um
desses homens de semblante pálido, de olhar cavo e embaciado,
um desses seres satâncios e e bizarros como os que Hoffmann
desenterrava em seus sonhos.
Era
Giácomo, o livreiro.
Tinha
trinta anos e já passava por velho e acabado; possuía
alta estatura, mas curvada como a de um ancião; seus cabelos
eram longos, mas brancos; suas mãos eram fortes e nervosas,
mas secas e enrugadas; seus trajes eram miseráveis e andrajosos,
possuía o ar guauche e atrapalhado, sua fisionomia era pálida.
triste e até insignificante.
Raramente
era visto nas ruas. a não ser nos dias em que eram vendidos
em leilão lotes de livros raros e curiosos. Então,
não era mais o mesmo homem indolente e ridículo, seus
olhos se animavam, corria, caminhava, saltitava, mal podia
moderar sua alegria, suas inquietações, suas angústias
e suas aflições; voltava para casa ofegante, esbaforido,
sem fôlego. tomava o livro querido, olhava-o com ternura,
contemplava- o e amava-o como um avaro o seu tesouro, um pai sua
filha, um rei sua coroa.
Esse
homem jamais dirigira-se a alguém, a não ser aos alfarrabistas
e aos adeleiros; era taciturno e sonhador, carrancudo e triste;
não tinha senão uma idéia, um amor, uma paixão:
os livros; e esse amor, essa paixão queimavam- no interiormente,
consumiam-lhe os dias, devoravam-lhe a existência.
À
noite, os vizinhos podiam ver, através das vidraças
do livreiro, uma luz que vacilava, depois progredia, afastava- se,
crescia, e a seguir, uma vez ou outra, se apagava; então
ouviam bater à sua porta, e era Giácomo que vinha
reacender sua bugia, que uma lufada havia soprado.
Tais noites ardentes e febris, ele as passava com seus livros. Circulava
entre suas estantes, percorria as galerias de sua biblioteca com
êxtase e encantamento; depois detinha-se, com os cabelos
em desordem, os olhos fixos e faiscantes, as mãos trêmulas
ao tocar a madeira das prateleiras; que eram quentes e úmidas.
Apanhava
um livro, folheava suas páginas, manuseava seu papel, examinava
suas douraduras, a capa, os tipos, a tinta, as dobras, e o arranjo
dos desenhos para a palavrafinis; depois, trocava-o de lugar, colocava-o
numa prateleira mais alta, e permanecia horas inteiras a observar-
lhe o título e a forma.
Dirigia-se.
a seguir, para os manuscritos, pois eram seus filhos preferidos;
apanhava um deles, o mais velho, o mais gasto, o mais sujo, contemplava
o pergaminho com amor e júbilo, cheirava-lhe o santo e venerável
pó, e suas narinas se inflavam de alegria e de orgulho, um
sorriso assomava à sua boca.
Oh!
ele era feliz, esse homem, feliz em meio a toda essa ciência
cujo alcance moral e valor literário mal penetrava;
era feliz, sentado entre todos esses livros, passeando os olhos
sobre as letras douradas, sobre as páginas gastas, sobre
o pergaminho desbotado.. amava a ciência como um cego
ama o dia.
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