Colina
Negra, de
Bruce Chatwin (tradução de Luciano Machado; Companhia das Letras;
344 páginas; 47,50 reais) O inglês Bruce Chatwin (1940-1989)
era um sujeito inquieto. Chegou a largar um emprego como avaliador de obras de
arte da casa de leilões Sotheby's para viver entre as tribos nômades
do Sudão. O romance Colina Negra traz personagens que são
o oposto da inquietude do autor: o universo dos gêmeos Lewis e Benjamin
se restringe à sua fazenda, na fronteira entre a Inglaterra e o País
de Gales. Submetidos ao pai tirânico, eles atravessam a II Guerra Mundial
quase sem perceber as conseqüências do conflito. Chatwin retrata de
forma impressionante um lugar no qual o tempo parece ter parado.
Leia
trecho
Capítulo
1
Havia
quarenta e dois anos que Lewis e Benjamin dormiam lado a lado, na cama de seus
pais, na fazenda conhecida como Visão.
A
cama com colunas de carvalho viera da casa da mãe, em Bryn-Draenog, por
ocasião do casamento dela, em 1899. O cretone desbotado do cortinado, estampado
com esporeiras e rosas, protegia contra os mosquitos do verão e as correntes
de ar do inverno. Calcanhares calejados abriram buracos nos lençóis
de linho, e a colcha de retalhos estava rasgada em alguns pontos. Sob o colchão
de penas de ganso havia um segundo, de crina de cavalo, que afundara formando
duas mossas, deixando uma saliência entre as depressões onde eles
dormiam.
O
quarto, quase sempre escuro, cheirava a alfazema e naftalina.
O
cheiro de naftalina vinha de uma pirâmide de chapeleiras empilhadas junto
ao lavatório. Na mesa-de-cabeceira havia uma alfineteira ainda com os alfinetes
de chapéu da senhora Jones; e, na parede do fundo, havia uma gravura de
Holman Hunt, A luz do mundo, numa moldura de madeira ebanizada.
Uma
das janelas dava para os verdes campos da Inglaterra; a outra voltava-se para
o País de Gales, para além dos lariços do sopé da
colina Negra.
Os
cabelos de ambos os irmãos eram mais brancos que as fronhas.
Toda
manhã o despertador tocava às seis. Eles ouviam o programa da rádio
local enquanto se barbeavam e se vestiam. Em seguida desciam as escadas, davam
uma batidinha no barômetro, acendiam o fogo e esquentavam água na
chaleira para o chá. Então faziam a ordenha, alimentavam os animais
e voltavam para o desjejum.
As
paredes da casa eram recobertas por um reboco grosseiro, e as telhas eram planas,
cobertas de musgo. A casa se erguia na extremidade do terreiro, à sombra
de um velho pinheiro-da-escócia. Um pouco abaixo do estábulo havia
um pomar de macieiras mirradas, e para além os campos se estendiam em declive
até o pequeno vale, onde se viam bétulas e amieiros ao longo do
regato.
Em
tempos passados, o lugar se chamava Ty-Cradoc — e ainda se usa o nome de Caractacus
na região —, mas em 1737 uma menina enferma chamada Alice Morgan viu a
Virgem pairando sobre uma moita de ruibarbo e voltou correndo para a cozinha,
totalmente curada. Para celebrar o milagre, seu pai batizou a fazenda de Visão,
e gravou as iniciais a. m. na soleira da entrada. Dizia-se que a fronteira entre
os condados de Radnor e de Hereford passava exatamente no meio da escadaria.
Os
irmãos eram gêmeos idênticos.
Quando
meninos, só a mãe conseguia distingui-los, mas o tempo e as vicissitudes
da vida trataram de diferenciá-los.
Lewis
era alto e musculoso, de ombros quadrados, passos largos e firmes. Aos oitenta
anos, ainda era capaz de andar pela colina ou trabalhar com o machado o dia inteiro,
sem se cansar.
Seu
corpo exalava um cheiro forte. Os olhos — cinzentos, sonhadores e astigmáticos
— eram fundos, emoldurados por grossas lentes redondas em armação
de metal branco. Ele tinha uma cicatriz no nariz, resultado de um acidente de
bicicleta. Com o acidente, a ponta do nariz se encurvara para baixo, e desde então
ficava arroxeada com o frio do inverno.
Quando
falava, sua cabeça bamboleava, e, se não ficasse mexendo na corrente
do relógio, não sabia o que fazer com as mãos. Na presença
de outras pessoas, tinha sempre um ar embaraçado, e, se alguém falava
qualquer banalidade, ele retrucava com um "Muito obrigado" ou "É
muita gentileza sua!". Todos reconheciam sua extraordinária capacidade
de lidar com cães pastores.
Benjamin,
mais baixo, era mais asseado, e tinha a tez mais fresca e a língua mais
afiada. O queixo era recuado, mas o nariz ainda estava intacto. Comprido como
era, Benjamin o usava como arma quando conversava. Tinha menos cabelos que o irmão.
Cozinhava,
cerzia, passava a ferro e fazia as contas. Ninguém lhe levava a melhor
quando se punha a regatear o preço do gado. Era capaz de pechinchar durante
horas, até o vendedor levantar as mãos e dizer: "Ah, seu velho
unha-de-fome!", ao que ele respondia, com um sorriso: "O que quer dizer
com isso?".
Num
raio de muitas milhas, os gêmeos eram tidos como incrivelmente avarentos
— mas nem sempre essa fama era justificada.
Eles
se recusavam, por exemplo, a ganhar um centavo sequer vendendo feno. O feno, costumavam
dizer, era um presente de Deus para o lavrador. E, desde que a Visão tivesse
feno sobrando, os vizinhos pobres podiam pegar o que lhes fosse necessário.
Mesmo nos dias difíceis de janeiro, bastava à velha solteirona Fifield-the-Tump
mandar uma mensagem pelo carteiro, para que Lewis lhe levasse um trator carregado
de fardos.
A
ocupação favorita de Benjamin era ajudar no parto das ovelhas. Durante
o longo inverno esperava pelo fim de março, quando os maçaricos
se punham a cantar, e as ovelhas começavam a parir. Era ele, e não
Lewis, quem ficava acordado para cuidar das ovelhas. Era ele, e não Lewis,
quem ajudava as ovelhas nos partos mais complicados. Às vezes ele tinha
de enfiar o antebraço no útero, para tirar um par de gêmeos;
mais tarde se punha ao pé da lareira, sujo e satisfeito, e deixava o gato
lamber-lhe as mãos ainda gotejantes.
No
inverno e no verão, os irmãos iam trabalhar com camisa de flanela
listrada, com barbatana de cobre no colarinho. O casaco e o colete eram marrons,
de tecido de lã com saliências diagonais, e a calça, de cotelê
mais escuro. Usavam chapéu de fustão com a aba virada para baixo;
mas, como Lewis tinha o hábito de levantar o chapéu a cada estranho,
os dedos dele terminaram por desgastar o tecido da parte superior.
De
tempos em tempos, com uma expressão de gravidade fingida, ambos consultavam
o relógio de pulso de prata — não para saber as horas, mas para
ver qual deles batia mais forte. Nas noites de sábado, revezavam-se para
tomar um banho de assento diante da lareira. E a lembrança da mãe
nunca os abandonava.
Como
conheciam os pensamentos um do outro, chegavam a brigar sem trocar palavra. E
às vezes, depois dessas brigas silenciosas, quando então precisavam
que sua mãe os reconciliasse, contemplavam a colcha de retalhos composta
de estrelas de veludo preto e hexágonos de morim estampado, retalhos de
vestidos antigos. Então, sem uma palavra, conseguiam evocar a imagem dela
— vestida de rosa, caminhando na plantação de aveia com uma jarra
de sidra fresca para os ceifeiros. Ou vestida de verde, no almoço dos tosquiadores.
Ou com um avental de listras azuis, debruçada sobre o fogo. Mas as estrelas
negras traziam à lembrança o caixão do pai na mesa da cozinha,
rodeado de mulheres aos prantos, rostos brancos feito giz.
Nada
mudara na cozinha desde o dia do enterro dela. A fumaça de resina enegrecera
o papel de parede estampado com figuras de papoulas islandesas e de fetos avermelhados;
as maçanetas de latão brilhavam como sempre, mas a pintura marrom
das portas e dos rodapés estava descascando.
Os
gêmeos nunca pensaram em renovar essa decoração gasta, por
medo de apagar a lembrança daquela luminosa manhã primaveril, uns
setenta anos antes, quando, ajudando a mãe a preparar um balde de argamassa,
viram a cal secar no cachecol dela.
Benjamin
tratava de manter as lajes escovadas, a grade da lareira polida com grafite, e
uma chaleira de cobre assobiando o tempo todo na lateral da lareira.
Sexta-feira
era o dia em que ele assava pão — como outrora fazia a mãe — e à
tarde arregaçava as mangas para fazer bolos galeses ou pães de dupla
bisnaga, sovando a massa com tanta força que as flores do oleado da mesa
já estavam quase apagadas.
No
consolo da lareira havia um par de spaniels de porcelana de Staffordshire, cinco
castiçais de cobre, um barco numa garrafa e uma lata de chá com
a figura de uma chinesa. Um armário com porta de vidro — um deles remendado
com fita adesiva — continha vasos de porcelana, bules de chá banhados em
prata e uma caneca comemorativa de cada coroação e cada jubileu.
Uma manta de bacon repousava sobre uma prateleira fixada nos caibros. O piano
georgiano dava testemunho de dias menos laboriosos e de realizações
passadas.
Lewis
mantinha uma espingarda calibre doze encostada ao relógio de pêndulo:
ambos temiam os ladrões e os antiquários.
O
único passatempo do pai deles — na verdade, sua única ocupação,
excetuando a lavoura e a Bíblia — era entalhar molduras de madeira para
os quadros e fotografias da família, que cobriam cada espaço livre
da parede. Para a senhora Jones, parecia um milagre que um homem com a índole
e as mãos grosseiras de seu marido tivesse paciência para um trabalho
tão complexo. Não obstante, no momento em que ele pegava seus cinzéis,
e as minúsculas aparas começavam a voar, toda a falta de jeito desaparecia.
Esculpira
uma moldura "gótica" para a gravura religiosa, em cores, O
Caminho Largo e o Caminho Estreito. Criou alguns motivos "bíblicos"
para a aquarela do tanque de Bethesda; e, quando seu irmão lhe mandou uma
oleografia do Canadá, ele a untou com óleo de linhaça para
que desse a impressão de uma tela antiga, e passou todo o inverno produzindo
uma moldura ornada de folhas de bordo.
E
foi essa pintura, com seus peles-vermelhas, sua canoa de casca de vidoeiro, seus
pinheiros e seu céu carmesim — para não falar no fato de estar associada
ao legendário tio Eddie — que despertou em Lewis o interesse por terras
distantes.
Salvo
por umas férias passadas à beira-mar em 1910, nenhum dos gêmeos
se aventurou além de Hereford. Não obstante, esses horizontes limitados
foram suficientes para acender em Lewis a paixão pela geografia. Importunava
as visitas pedindo-lhes opiniões sobre os "selvagens da África";
pedia-lhes notícias da Sibéria, da Salonica ou do Sri Lanka; e,
quando alguém falou sobre o fracasso do presidente Carter em sua tentativa
de resgatar os reféns de Teerã, ele cruzou os braços e disse
em tom peremptório: "Ele devia fazê-los passar por Odessa!".
A
imagem que havia construído do mundo exterior fora tirada de um atlas Bartholomew
de 1925, quando os dois grandes impérios coloniais eram tingidos de rosa
e lilás, e a União Soviética era de um verde sombrio e sem
graça. E ver que o mundo agora estava cheio de pequenos países belicosos
com nomes impronunciáveis era como um atentado ao seu senso de ordem. Assim,
como para indicar que as verdadeiras viagens só existiam na imaginação
— e talvez para se exibir —, ele fechava os olhos e cantava os versos que sua
mãe lhe ensinara:
A
oeste, a oeste, Hiawatha
Velejava
rumo ao sol poente
Rumo
aos nevoeiros violáceos
Rumo
às sombras do entardecer.
Muitas
vezes a idéia de morrer sem deixar filhos perturbava os gêmeos, mas
bastava que lançassem um olhar ao painel de fotografias na parede para
se livrarem desses pensamentos sombrios. Sabiam os nomes de todos os que figuravam
nas fotos e nunca se cansavam de descobrir semelhanças entre pessoas nascidas
com um século de distância umas das outras.
À
esquerda da fotografia de casamento de seus pais havia um retrato deles aos seis
anos de idade, de olhos redondos como os de pequenas corujas, vestidos de roupas
de pajem idênticas, para uma festa no parque de Lurkenhope. Mas a foto que
lhes dava mais prazer era um instantâneo colorido de seu sobrinho-neto Kevin,
também aos seis anos de idade, com uma toalha na cabeça à
guisa de turbante, como José num auto de Natal.
Catorze
anos tinham se passado. Kevin se tornara um jovem alto, de cabelos negros, sobrancelhas
espessas que se emendavam uma na outra, e olhos cor de ardósia. Dentro
de poucos meses a fazenda seria dele.
Agora,
quando olhavam aquela fotografia de casamento desbotada, quando viam o rosto do
pai emoldurado por costeletas ruivas (mesmo numa foto sépia podia-se notar
que tinha cabelos ruivos brilhantes), quando contemplavam as mangas bufantes do
vestido da mãe, as rosas de seu chapéu e seu buquê de margaridas-do-campo,
quando comparavam seu doce sorriso com o de Kevin, compreendiam que suas vidas
não tinham sido em vão e que o tempo, capaz de tudo remediar, havia
varrido a dor e a cólera, a vergonha e a esterilidade, anunciando um futuro
cheio de coisas novas.