|
E
o Bruno?, de Aleksandar Hemon (tradução de
Lia Wyler; Rocco; 218 páginas; 29 reais) Na primavera
de 1992, o bósnio Aleksandar Hemon partiu para uma viagem
de um mês nos Estados Unidos. Dias depois de sua chegada,
a guerra explodiu em seu país e sua família se viu
sitiada em Sarajevo. Hemon decidiu, então, que era mais prudente
ficar onde estava. Passou a viver de bicos e estudou inglês
a ponto de dominá-lo como um americano ou muito melhor
que a maioria deles, segundo têm afirmado a crítica
americana e a inglesa. Lançado lá fora em 2000, E
o Bruno? é sua obra de estréia. Reúne oito
histórias sobre o Leste Europeu e sobre o tema do exílio.
Hemon que se casou nos Estados Unidos e fixou residência
em Chicago é um escritor satírico. Aborda com
mordacidade todo e qualquer tipo de assunto, não importa
quão terrível ele seja. O livro começa com
um tio que conta histórias amedrontadoras sobre os campos
de concentração de Stalin a seu sobrinho estupefato
e prossegue com relatos como Uma Moeda descrição
do dia-a-dia numa cidade infestada por franco-atiradores.
Leia
trechos do livro
As
Ilhas
Levantamo-nos
ao amanhecer, ignoramos o sol gema-de-ovo, carregamos o nosso Austin
azul-escuro com malas e em seguida partimos diretamente para o litoral,
parando apenas próximo a Sarajevo, para eu poder fazer pipi.
Cantei canções comunistas a viagem inteira: canções
que falavam de mães chorosas, procurando entre túmulos
os filhos mortos; canções que falavam da revolução,
toda aço e vapor como uma locomotiva; canções
que falavam de mineiros em greve enterrando os camaradas mortos.
Na altura em que chegamos ao litoral, eu havia quase perdido a voz.
Aguardamos
o navio num comprido cais de pedra que queimou as solas dos meus
pés, assim que descalcei as sandálias. O ar estava
sufocante, saturado com o ozônio do mar, a exaustão
e o odor de filtro solar à base de coco que exalavam os turistas
alemães já vermelhos e envernizados, posando para
uma foto na extremidade do cais. Vimos uma transparente meia de
fumaça na linha do horizonte, depois o próprio navio,
cada vez maior, ligeiramente adernado, como num desenho de criança.
Eu estava usando um chapéu de palha de aba redonda e com
desenhos coloridos dos sete anões. Ele lançava uma
sombra curta e malhada sobre o meu rosto. E me obrigava a levantar
a cabeça para olhar os adultos. Do contrário, veria
apenas os joelhos nodosos, as manchas de suor que se espalhavam
em suas camisas e as rugas flácidas de gordura em suas coxas.
Um dos alemães, um
velho ossudo, se ajoelhou e vomitou pela borda do cais. 0 vômito
bateu na superfície do mar e em seguida se dispersou em diferentes
direções, como
crianças correndo para se esconder da companheira que irá
procurá-las. Sob a onda de vômito palpitante, ocre
e marrom, juntou-se um cardume de peixes cor de alumínio
que o beliscava insistentemente.
0 navio
era decrépito, com degraus de aço descascados e finas
folhas de ferrugem que podiam cortar os dedos de quem segurava os
corrimãos. A escada espiralava para o alto como uma toalha
torcida. "Bem-vindo", disse um homem barbado metido numa
camiseta com a estampa de um barco, que soltava uma cobra de fumaça
e balançava sobre as ondas, no alto um sol com um sorriso
em U e olhos de trema. Sentamo-nos no convés superior e o
navio saltou sobre modestas ondas, arfando e arrotando. Passamos
por uma fileira de ilhotas que lembravam carros acidentados
na beira da estrada, e eu perguntei: "É Mjet?"
e eles responderam: "Não." Por trás de uma
das ilhas petrificadas, barbeadas por um fogo espontâneo,
uma lufada forte de vento nos atacou, arrancou o chapéu de
palha de minha cabeça e atirou-o no mar. Eu observei o chapéu
ser arrastado, meus cabelos colados na cabeça como um elmo,
e compreendi que nunca, nunca mais o veria de novo. Desejei voltar
no tempo e agarrar o meu chapéu antes que o redemoinho sorrateiro
me golpeasse o rosto. O navio distanciou-se do chapéu que
virou uma mancha bege no mar verde-escuro. Comecei a chorar e solucei
até adormecer. Quando acordei, o navio estava ancorado
e a ilha era MlJet.
Tio
Julius marcou a minha bochecha com um beijo severo e úmido
- o canto de sua boca tocou o canto da minha deixando uma gota de
saliva acima do meu lábio superior. Mas seus lábios
eram macios, como lesmas, como se não tivessem nada por dentro
para sustentá-los. Quando nos afastamos a pé do cais,
ele nos disse que esquecera os dentes em casa, então, como
se quisesse provar que dizia a verdade, sorriu para mim, mostrando
suas gengivas rosadas com cicatrizes cinabrinas. Ele exalava um
cheiro forte de colônia de pinho, mas escapava de suas entranhas
um leve bafo de doença e decomposição que invadia
a nuvem perfumosa. Escondi o rosto na saia da minha mãe.
Ouvi o seu riso de desdém.
- Será que podemos, por favor, voltar para casa? - choraminguei.
|