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Brecht: contos de ironia filosófica | |
Histórias
do Sr. Keuner, de Bertolt Brecht (tradução de Paulo César
de Souza; Editora 34; 144 páginas; 29 reais) Um dos dramaturgos
mais influentes do século XX, o alemão Bertolt Brecht (1898-1956)
também é o criador de um misterioso personagem que figura em vários
contos escritos ao longo de trinta anos: o senhor Keuner. Em textos curtos (são
raros os que ultrapassam uma página), esse sábio pouco convencional
destila uma filosofia irônica. Keuner às vezes é referido
apenas pela inicial K., como o protagonista de O Castelo, de Kafka
e há mesmo qualquer coisa de kafkiano no personagem. A presente edição
traz quinze contos até há pouco inéditos, descobertos em
2002, na Suíça, entre papéis de Brecht.
Leia
trecho A
questão de existir um Deus Alguém
perguntou ao sr. K. se existe um Deus. O sr. K. respondeu: "Aconselho refletir
se o seu comportamento mudaria conforme a resposta a essa pergunta. Se não
mudaria, podemos deixar a pergunta de lado. Se mudaria, posso lhe ser útil
a ponto de dizer que você já decidiu: você precisa de um Deus".
Sucesso O
sr. K. viu passar uma atriz e disse: "Ela é bonita". Seu acompanhante
disse: "Ela teve sucesso recentemente porque é bonita". O sr.
K. se aborreceu e disse: "Ela é bonita porque teve sucesso".
O
garoto desamparado O
sr. K. falou sobre o mau costume de engolir em silêncio a injustiça
sofrida, e contou a seguinte história: "Um passante perguntou a um
menino que chorava qual o motivo do seu sofrimento. ‘Eu estava com dois vinténs
para o cinema’, disse o garoto, ‘aí veio um menino e me arrancou um da
mão’, e mostrou um menino que se via a distância. ‘Mas você
não gritou por socorro?’, perguntou o homem. ‘Sim’, disse o menino, e soluçou
um pouco mais forte. ‘Ninguém o ouviu?’, perguntou ainda o homem, afagando-o
carinhosamente. ‘Não’, disse o garoto, e olhou para ele com esperança,
pois o homem sorria. ‘Então me dê o outro’, disse, e tirou-lhe o
último vintém, continuando tranqüilo o seu caminho".
O
animal favorito do sr. K. Quando
perguntaram ao senhor K. que animal ele apreciava mais que todos, ele mencionou
o elefante, e assim se justificou: O elefante une astúcia e força.
Não a astúcia mesquinha que basta para evitar uma emboscada ou arranjar
um alimento, passando-se despercebido, mas a astúcia que sabe utilizar
a força para grandes empreendimentos. Por onde esse animal passa, deixa
uma larga pista. No entanto ele é camarada, entende brincadeiras. É
tão bom amigo quanto bom inimigo. Muito grande e pesado, ele é,
no entanto, também muito rápido. Sua tromba conduz ao corpo enorme
até os menores alimentos, amendoins inclusive. Suas orelhas são
reguláveis: ele ouve apenas o que lhe interessa. Ele chega a ficar muito
velho. Também é sociável, e não só com elefantes.
Em toda parte é igualmente amado e temido. Uma certa comicidade torna possível
que ele seja até venerado. Ele tem uma pele espessa, na qual se quebram
as facas; mas sua índole é delicada. Ele é capaz de ficar
triste. É capaz de se enraivecer. Ele gosta de dançar. Ele morre
na selva. Ele ama as crianças e outros animais pequenos. Ele é cinza
e chama a atenção com sua massa. Ele não é comível.
Ele é bom trabalhador. Ele gosta de beber e fica alegre. Ele faz algo pela
arte: fornece marfim.
Um
aluno abandona o sr. Keuner Um
aluno abandonou o sr. Keuner. Este gostava de lidar com ele: a nenhum outro gostava
tanto de contrariar as opiniões. Porém, o sr. Keuner não
ficou abatido. "Ele era um bom aluno", disse, "um dos melhores!
É pena que tenha ido embora, mas não é ruim. Seria ruim se
vocês dois partissem", e indicou tranqüilamente dois alunos
que não estimava muito, "vocês não aprenderam
nada!" |